Mart’nália balança, entre o samba e o R&B, na exaltação ao prazer que norteia o álbum ‘Sou assim até mudar’


Capa do álbum ‘Sou assim até mudar’, de Mart’nália
Nil Caniné
Resenha de álbum
Título: Sou assim até mudar
Artista: Mart’nália
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * *
♪ Embora tenha sido projetada em 2002 com álbum voltado para o samba, produzido e arranjado por Celso Fonseca sob direção artística de Caetano Veloso, Mart’nália sempre manteve um pé nos redutos do samba e outro nos bailes de som black que, desde o início da década de 1970, reverberam na cidade do Rio de Janeiro (RJ) a música negra de origem norte-americana.
Sou assim até mudar – o 13º álbum da artista carioca, lançado pela gravadora Biscoito Fino nesta sexta-feira, 19 de março, em CD e em edição digital – balança nessa mistura que surpreende somente quem desconhece o contorno black de Minha cara (1995), segundo álbum de Martnália e o primeiro em que a cantora e compositora expôs a identidade artística.
Produzido por Zé Ricardo, que assina os arranjos com Mauricio Piassarollo, o álbum Sou assim até o mudar transita basicamente entre as ramificações do samba e do R&B, no tom desencanado, pop e assumido de Mart’nália.
De autoria do compositor Tom Karabachian, a música-título Sou assim até mudar sintetiza a mistura do disco com arranjo que amalgama samba, canção, soul e R&B.
Mesmo sem jamais atingir ao longo das dez faixas o arrojo exuberante de Não tente compreender (2012), último grande álbum de Mart’nália, e ainda que o repertório pareça ter sido selecionado com menor rigor, Sou assim até mudar é disco que tem mais a cara da cantora do que o anterior Mart’nália canta Vinicius de Moraes (2019), acanhado tributo ao poeta da canção que resultou mais desenvolto nos palcos do que no estúdio.
Mart’nália canta dez músicas no álbum produzido por Zé Ricardo
Nil Caniné / Divulgação
O álbum Sou assim até mudar exalta o prazer e, desde a abertura com o samba Morena (Zé Ricardo), soa muitas vezes como uma cantada de Mart’nália na mulher desejada ou na amada cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), para quem a cantora se declara em Suburbano blues, atraente parceria de Moacyr Luz com Raimundo Fagner que, na voz de Mart’nália, desliza com maciez evocativa do rhythm and blues.
“Ser feliz para mim é um vício”, avisa a sambista, cheia de charm(e), na manemolência de Chamego bom, composição do produtor musical Zé Ricardo. Chamego bom é convite à dança e ao prazer. “Ai, ai, samba comigo, menina / Vem, deixa rolar / Ai, ai, não tem perigo, menina / Você vai gostar”, propõe em outro momento sedutor do álbum.
Nessa busca incessante pelo prazer, Mart’nália rejeita a sofrência da desilusão amorosa. “Vai doer, mas segue o baile”, resigna-se a cantora em Tocando a vida, versão em português – escrita por Nelson Motta – de Rock bottom (Babyface, Antonio Reid e Daryl Simmons, 1993), R&B apresentado por Babyface no segundo álbum do artista norte-americano, For the cool in you (1993). Mart’nália acarioca o R&B de Babyface.
A trinca de versões de Nelson Motta simboliza a reminiscência dos bailes de música black frequentados por Mart’nália desde a adolescência vivida no subúrbio carioca, celeiro tanto do samba do Rio de Janeiro quanto do soul e do R&B dos Estados Unidos.
Mart’nália lança o álbum ‘Sou assim até mudar’ nesta sexta-feira, 19 de março
Nil Caniné / Divulgação
Single que anunciou em 15 de janeiro o álbum Sou assim até mudar, Veneno (Veleno, Alfredo Polacci, 1948, em versão em português de Nelson Motta, 1984) reverbera o som desses bailes no coro do arranjo, mas se ressente da diluição da sensualidade explicitada na gravação de Marina Lima, intérprete original da versão em português de Motta. A presença de Johnny Hooker como convidado da faixa contribui decisivamente para reduzir o efeito de Veneno.
Em contrapartida, a atriz Adriana Esteves injeta sensualidade nos vocais, à moda de Barry White (1944 – 2003), que pôs em Bom demais, versão em português – escrita pelo recorrente Nelson Motta – do R&B Feel like makin’ love (Eugene McDaniels, 1974), sucesso da cantora norte-americana Roberta Flack.
Fora do baile, Mart’nália põe os pés nas águas do samba da Bahia em 17 de janeiro, única música assinada pela artista no álbum, em parceria com os bambas cariocas Teresa Cristina e Mosquito. Já Novo normal – samba inédito (em disco) de autoria de Serginho Meriti e Xande de Pilares – se ambienta no quintal carioca, versando sobre as angústias e desejos provocados pelo isolamento social.
No arremate do álbum Sou assim até mudar, Mart’nália reaviva uma das (muitas) obras-primas do cancioneiro do pai da artista, Martinho da Vila. Apoteose da melodia e da poesia em repertório a rigor oscilante, Sonho de um sonho (Martinho da Vila, Rodolpho de Souza e Tião Graúna) é o samba-enredo apresentado em 1979 pela escola Unidos de Vila Isabel para o desfile do Carnaval carioca de 1980.
A regravação de Sonho de um sonho acomoda Mart’nália na casa de bamba da qual a artista costuma sair para cair no samba e para dançar no baile black na busca pelo prazer que norteia a cantora na mistura do álbum Sou assim até mudar.