Mariozinho Rocha lembra que Roupa Nova não queria gravar ‘Dona’: ‘Fizeram um favor’


Diretor musical de 220 trilhas de novela conta bastidores do repertório de ‘Roque Santeiro’, ‘Tieta’, ‘Rei do Gado’ e ‘Caminho das Índias’. G1 conta histórias das trilhas da Globo. Mariozinho Rocha trabalhou na Globo por 30 anos na produção de trilhas de novelas
Acervo Grupo Globo
Mariozinho Rocha trabalhou na Globo por 30 anos como produtor e, depois, como diretor de Produção Musical. Ele é o responsável pelo repertório de boa parte das músicas nacionais que viraram hits com a ajuda da exposição na televisão entre 1975 e 2015.
Mariozinho destacou o trabalho nas novelas “Roque Santeiro”, “Tieta” e “Rei do Gado” e “Caminho das Índias”. Ouça abaixo.
Nesta semana, o G1 revela os bastidores das trilhas sonoras das novelas, por meio do relato de diretores musicais que passaram pela emissora.
A rotina de Mariozinho na Globo era basicamente ouvir música e se reunir com os autores e diretores da novela.
O ponto de partida na seleção do repertório vinha muito dessas trocas, que tinham como objetivo mostrar o caminho da novela e a pegada dos personagens.
“Eram 3 novelas no ar e 2 em produção. No ar tudo bem, já estava pronto, mas para chegar lá, imagina quantas coisas eu tinha que ouvir. Eu vivia ouvindo música e me orientando com autor, diretor”, diz Mariozinho.
Trilhas de ‘Roque Santeiro’, ‘Tieta’, ‘O Rei do Gado’ e ‘Caminho das Índias’ foram produzidas por Mariozinho Rocha
Divulgação/Canal Viva; TV Globo/Divulgação; Memória TV Globo; Memória TV Globo
‘Roque Santeiro’
“Dona” é um dos grandes sucessos de “Roque Santeiro” (1975), mas até a música ser gravada pelo Roupa Nova foi uma longa história. Era a primeira trilha de novela de Mariozinho, ainda como produtor freelancer da Globo.
A música é de Sá e Guarabyra, dupla que assina o tema de abertura da novela, e foi desclassificada do festival Shell de 1983. O produtor gostou da música e resolveu gravar um cassete para ouvir de vez em quando.
Quando Paulo Ubiratan, diretor da novela, e Daniel Filho explicaram a trama da novela que tinha sido censurada pela ditadura em 1975 e estava prestes a estrear dez anos depois, que ele pensou na música para ser o tema da Viúva Porcina (Regina Duarte).
O produtor convidou o Roupa Nova, banda com que tinha lançado quando era diretor de gravadora, mas ficou surpreso com a resposta.
“Eles não quiseram. Falaram ‘Mariozinho, você vai me desculpar, mas nem pensar”, lembra.
Roque Santeiro: Trilha sonora
Ele conta que insistiu, insistiu até que a banda cedeu e falou, nas palavras de Rocha: “‘A gente deve tanta coisa a você, até o nome foi você quem deu, nos lançou em disco, então a gente esteve conversando e não podemos negar esse favor a você”.
“Então foi um favor que eles fizeram pra mim. Hoje eu duvido que eles façam um show e não cantem “Dona”, diz.
A música ficou em segundo lugar entre as mais tocadas no ranking anual das rádios de 1985, atrás de “We Are The World”.
Do outro lado, Ricardo Feghali lembra do pedido do diretor: “O Mariozinho cismou que a gente ia ter que fazer o arranjo e gravar essa música. A gente ouviu e achou a música bonita, ficou empolgado, mas não a empolgação dele. Ele estava com uma empolgação super especial”.
Foi um grande sucesso, mas não o único do Roupa Nova na TV. Segundo o músico, a banda teve 33 músicas em trilhas de novela.
“Era muito importante, porque bastava rodar um beijo e a música já estourava já era sucesso”, lembra o tecladista e cantor da banda.
“Mas tinha um outro lado, às vezes a música entrava para um personagem que não crescia. Então você depositava uma força incrível naquela música, ficava contando com aquilo, mas o personagem não evoluía e a música ficava perdida”, pondera Feghali.
Casamento entre novela e trilha
Mariozinho concorda que não bastava apenas estar na trilha ao se referir à novela como “uma rádio que tocava no Brasil todo”.
“Era uma coisa avassaladora, mas só entrar na novela não, a novela tinha que ser boa e o personagem também tinha que ir para frente, porque caso contrário, não adianta, a música não anda”, explica.
“Não existe trilha de sucesso com novela fracassada. Pode ser a melhor do mundo, não tem como”, completa o diretor musical.
Além de “Dona”, a trilha tem sucessos como “Mistérios da Meia Noite”, encomenda de Mariozinho a Zé Ramalho” e “De Volta pro Aconchego”, na voz de Elba Ramalho.
Foi a primeira vez na história que uma novela não teve um CD de trilha internacional, produto que vendia mais do que a trilha nacional como Guto Graça Mello destacou.
“Não cabia nada internacional, porque era uma coisa tão brasileira que não soaria bem, por melhor ou mais importante que fosse a canção”, destaca Mariozinho.
‘Tieta’
Depois, o produtor fez “Selva de Pedra” e “Roda de Fogo”, saiu da Globo e voltou anos depois como diretor musical em “Tieta” (1989).
Mariozinho encomendou o tema de abertura a Aldir Blanc, compositor e cronista brasileiro que morreu em maio. O resultado foi “Coração do Agreste”, em parceria com Moacyr Luz, gravada por Fafá de Belém.
Tieta: Trilha sonora da personagem Tieta
A novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares também teve duas trilhas nacionais com o mesmo argumento de atender à temática da novela.
“Para você ver que a gente tem que dar sorte também. O primeiro presente foi ‘Roque’ e o segundo foi ‘Tieta’. Vai dar sorte assim no inferno, né?”, brinca Mariozinho.
“No Rancho Fundo”, de Ary Barroso e Lamartine Babo, interpretada por Chitãozinho e Xororó, e “Meia Lua Inteira”, do Carlinhos Brown, na voz do Caetano Veloso também estavam nas trilhas.
‘Rei do Gado’
Os dois discos com a trilha sonora de “Rei do Gado” (1996) bateram o recorde de venda com quase 3 milhões de cópias na época.
O Rei do Gado (1996): Abertura
“‘Rei do Gado’ teve uma temática na hora certa. Foi no começo, no amanhecer do sucesso das músicas sertanejas no Brasil”, destaca Mariozinho.
A trilha tinha Chitãozinho e Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e outras duplas. No entanto, a entrada do gênero na televisão não foi tão bem recebida no começo.
“A primeira vez que eu coloquei uma dupla sertaneja foi em ‘Tieta’, com Chitãozinho e Xororó, e foi um Deus nos acuda, pô Chitãozinho e Xororó?”, lembra de ser questionado na época.
No fim, Mariozinho define sua trilha de maior sucesso como “eclética” ao dosar o sertanejo com outros estilos.
Também tiveram destaque na novela “Correnteza”, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, interpretada por Djavan, “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, e “À Primeira Vista”, de Chico César, na gravação de Daniela Mercury.
‘Caminho das Índias’
Os diretores e autores se envolviam em diferentes níveis na produção da trilha sonora, mas, no caso de “Caminho das Índias”, a troca entre Mariozinho e Gloria Perez foi intensa.
Caminho das Índias: Trilha sonora
“Gloria Perez, por sinal é muito minha amiga, almoçava aqui em casa e a gente ficava o dia inteiro ouvindo coisas. Ela ia me explicando, porque ninguém melhor que o autor para falar sobre o que vai acontecer com aquele personagem”, destaca Mariozinho.
Esse contato foi fundamental para chegar, por exemplo, no sucesso de “Você Não Vale Nada”, de Dorgival Dantas, gravada pelo Calcinha Preta.
“Essas dicas quem me dava? A própria Gloria. Ela falou ‘Mariozinho aqui eu quero arrebentar a boca do balão, quero uma coisa escrachada'”, lembra.
“Me mostraram umas músicas desse grupo, e eu achei já o nome super interessante. Mais escrachado que Calcinha Preta vai ser difícil”.
A novela de 2009 abordava a cultura indiana e as danças eram um elemento importante da história. Diante do sucesso de audiência, eles resolveram fazer um CD só com músicas indianas.
“Pergunte se eu sei dizer o que quer dizer aquilo ali? Claro que não, ninguém sabe e isso não tinha a menor importância”.
Exclusividade
Com as trilhas de novela sendo um importante produto no mercado fonográfico brasileiro nas décadas anteriores, era natural uma concorrência entre as emissoras pelas músicas inéditas.
Pelo que Mariozinho conta, a condição que ele dava às gravadoras era clara: “Não vou ser hipócrita de dizer que se entrasse em uma outra novela, eu ia colocar também, claro que não. E o pessoal sabia disso”.
“Se não fica uma zona, né? Você tem que ter uma marca e a música é uma coisa que marca muito. De repente você está ouvindo a Fafá cantando uma música na Globo e a mesma música ou uma parecida em outra emissora. Chega uma hora que você não sabe o que você está assistindo”, explica.
“Era uma coisa óbvia entendeu? Entrou lá, não entra aqui. Só que não ficava proibido para sempre. No momento que acabasse a novela lá, tudo bem, voltava 0 a 0. Momentaneamente havia esse intervalo para não ficar uma confusão”, conclui o diretor.
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