Mario Vargas Llosa fala sobre abuso sexual que sofreu, quando tinha 12 anos, por um padre: ‘Me afastei da religião’


Vencedor do prêmio Nobel de Literatura escreveu sobre episódio em livro de 1993, e respondeu a perguntas de jornal sobre o que aconteceu. Escritor Mario Vargas Llosa, em foto de dezembro de 2019
Orlando Estrada/AFP
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, falou sobre quando um padre tentou abusá-lo sexualmente quando tinha 12 anos.
Em entrevista ao jornal “El País” publicada nesta sexta-feira (10), ele deu detalhes sobre o episódio, que voltou a ser discutido após contar sobre ele na Feira Virtual do Livro de Cajamarca, há alguns dias.
O autor também já tinha escrito sobre o que aconteceu em seu livro “Peixe na Agua – Memorias”, de 1993.
“Quando senti suas mãos vasculhando minha braguilha, fiquei muito nervoso, saí da sala e ele também foi atacado com o mesmo nervosismo”, afirma Vargas Llosa.
“Aconteceu quando eu estava no sexto ano. No ano seguinte, o padre ficou muito envergonhado, não se atreveu a me cumprimentar nos recreios, quando eu nem estava mais na sua classe. A única consequência dessa história foi que eu, que tinha sido muito católico, comecei a perceber que não acreditava mais.”
O escritor classifica como um pequeno incidente porque foi capaz de sair do quarto quando percebeu o que ia acontecer. Mas sabe que, para outras pessoas, as consequências foram traumáticas.
“A religião se tornou um tipo de coisa puramente formal, e eu tinha sido muito crente. Mas me distanciei com isso, a religião deixou de ser um problema para mim, ao contrário de alguns colegas que eram muito obcecados com a questão religiosa. A verdade é que, no meu caso, foi um pequeno incidente”, contou.
“Todas as precauções que se tomam são necessárias. Muitos desses meninos sofrem geralmente um trauma que dura toda sua vida e ficam muito afetados. Me afastei da religião, mas meninos do bairro nunca se recuperaram.”
Vargas Llosa nunca contou para a família ou amigos próximos sobre o abuso.
“A Igreja deveria tomar uma atitude mais enérgica, sim. Agora a Igreja tem consciência, antes mesmo de tentar esconder essas coisas. Agora ela os assume e tem muita vergonha. Como deveria ser.”