Maria Bethânia é louvada em ‘Fevereiros’, filme que ganha edição em DVD


Documentário foca os ritos da fé nos santos e no samba, ligando o Recôncavo Baiano ao Rio de Janeiro. Capa do DVD ‘Fevereiros’
Divulgação / Biscoito Fino
♪ Filme de Marcio Debellian estreado em 2017 no circuito de festivais e editado em DVD pela gravadora Biscoito Fino neste primeiro bimestre de 2021, Fevereiros louva Maria Bethânia. Só que a louvação adquire sentido original no roteiro bordado pelo diretor com Diana Vasconcellos.
Exibido no DVD sem conteúdo adicional, o documentário expõe a liturgia da fé ao alternar imagens dos rituais religiosos que, em fevereiro, movimentam Santo Amaro da Purificação (BA) – cidade interiorana da Bahia onde a cantora veio ao mundo em 18 de junho de 1946 – e takes dos preparativos para o desfile da escola de samba Mangueira no Carnaval de 2016, ano em que a agremiação foi para a avenida com enredo sobre Bethânia, criado pelo carnavalesco Leandro Vieira com foco na aura mítica e mística que envolve a artista.
A Mangueira se consagrou campeã e as imagens do fim do filme são especialmente indicadoras de que, no altar do samba, há todo um ritual sagrado que começa nas quadras e salta para a avenida.
Como se reverberasse analogia feita por Paulo César Pinheiro na letra do samba-enredo Portela na avenida (1981), sucesso na voz luminosa de Clara Nunes (1942 – 1983), o filme mostra como os ritos das agremiações carnavalescas parecem apresentar o samba em feitio de oração.
Entronizada no altar verde-e-rosa de 2016, Bethânia reina como divindade na Mangueira – escola na qual pisou pela primeira vez com o frescor dos 18 anos ao vir para o Rio de Janeiro em janeiro de 1965 – ao mesmo tempo em se torna devota de santos e orixás na liturgia religiosa de Santo Amaro.
Transitando com equilíbrio nessa ponte que liga à cidade do Rio de Janeiro (RJ) ao Recôncavo Baiano, Fevereiros puxa o fio que mantém o Brasil ligado à ancestralidade africana. A ascendência negra pulsa tanto na batida do samba de roda quanto no rodopiar das saias das baianas da Mangueira.
Cidade que recebeu negros escravizados vindos da África, Santo Amaro se nutre ainda hoje da carga espiritual transportada nos navios negreiros.
Costurando imagens de arquivo com depoimentos inéditos de Caetano Veloso, Chico Buarque e da própria Bethânia, Fevereiros também direciona o foco para essa espiritualidade, versando sobre “o que os olhos não conseguem perceber” – e é sintomático que o samba Sei lá, Mangueira (Paulino da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1969) seja ouvido na voz de Caetano Veloso ao fim do filme – sem nunca deixar de louvar Maria Bethânia.