Marcos Pontes diz que cogita nomear oficial da Aeronáutica à direção do Inpe


Ministro da Ciência e Tecnologia afirmou que irá ‘trabalhar com números e fatos’ e que vai ‘mudar o sistema como um todo’. Ministro Marcos Pontes, em premiação em Salvador
Alan Tiago Alves/G1
O ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, disse nesta segunda-feira (5) que cogita escolher um oficial da Aeronáutica para a direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas não quis informar o nome do candidato. Na última sexta-feira (2), Ricardo Galvão foi avisado da exoneração do cargo após imbróglio com o governo federal à respeito dos dados de desmatamento.
Pontes foi entrevistado pela rádio “Eldorado”. Ao ser questionado a respeito da nomeação de um oficial da Aeronáutica, ele confirmou que está avaliando a possibilidade e disse que o candidato é um “doutor em desmatamento”. O ministro informou que o novo nome para a direção do instituto será divulgado no início desta semana.
Cronologia: reação do governo ao uso de dados sobre desmatamento leva a exoneração de diretor do Inpe
Além disso, o ministro também confirmou que recebeu as indicações de Galvão ao cargo, mas não disse se levará em conta algum desses pesquisadores. À respeito dos dados de desmatamento divulgados pelo Inpe, disse que “vai mudar o sistema como um todo”.
Após a exoneração, Ricardo Galvão indicou cinco nomes para assumir a direção do Inpe. O agora ex-diretor disse que o ministro de Ciência se comprometeu a não interferir no instituto e a investir mais recursos. Nesta segunda, Pontes disse que irá “criar um sistema melhor”:
“Vamos criar um sistema melhor, colocar mais satélites e, em conjunto, fazer as análises para demonstrar como está sendo feito”, disse.
O ministro lembrou que, antigamente, os dados eram enviados primeiro ao Ibama e, depois de cinco dias, disponibilizados ao público. Segundo ele, esse é um possível formato para a divulgação dos índices de desmatamento no futuro.
“Vamos fazer um relatório técnico. A gente gosta de trabalhar com números e fatos para ver como eles são calculados e como servem. Tudo começou com o uso incorreto dos dados do Inpe. Os dados do Deter não podem ser usados para índices de desmatamento consolidados, isso é o Prodes. E é isso o que foi feito”.
Pontes informou que o consolidado do desmatamento da Amazônia Legal será divulgado até o final de agosto. Mesmo após ter citado esse “uso incorreto”, o ministro diz que geralmente os dados do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) seguem as tendências apontadas mês a mês pelo índice de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).
O governo afirma que a medição do Deter não deve ser usada para gerar percentuais e comparações mensais e que os dados consolidados de desmatamento são divulgados pelo Prodes. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, admitiu que há aumento no desmate e diz que vai licitar um novo sistema de monitoramento.
Governo contesta dados de desmatamento, mas diz que não iria alardear se julgasse corretos
Os alertas do desmatamento no Brasil registraram alta de 88% em junho e de 212% em julho, segundo análise feita com base em dados compilados pelo sistema Deter. Os percentuais levam em conta a comparação de junho e julho com os mesmos meses do ano passado.
A exoneração
Ricardo Galvão recebeu a notícia da própria exoneração em reunião na manhã da última sexta. No início da tarde, Pontes elogiou Galvão. “Agradeço, pela dedicação e empenho do Ricardo Galvão à frente do Inpe. Tenho certeza que sua dedicação deixa um grande legado para a instituição e para o país”, escreveu o ministro em uma rede social.
Mais cedo, no pronunciamento em que anunciou sua própria demissão, Ricardo Galvão afirmou que não teve de “defender” os dados sobre desmatamento para o ministro.
“Frente ao ministro Pontes, eu não tive que defender nada. Ele concorda inteiramente com os dados do Inpe e sabe como são os dados do Inpe. O ministro é uma pessoa de alta capacidade técnica, um engenheiro.” – Ricardo Galvão
Durante a tarde, servidores do Inpe protestaram contra exoneração de Galvão na frente da sede do órgão, em São José dos Campos (SP).
Bolsonaro acusa o Inpe de mentir
Bolsonaro acusou o Inpe de mentir sobre dados de desmatamento e de estar “agindo a serviço de uma ONG”. As primeiras declarações do presidente contrárias ao instituto foram dadas na sexta-feira (19), durante café da manhã com jornalistas estrangeiros.
As críticas do governo aos dados sobre o desmatamento continuaram, e nesta quinta-feira (dia 1°) Bolsonaro voltou a se voltar contra o Inpe. O presidente defendeu uma apuração para identificar se os responsáveis pela divulgação dos dados sobre desmatamento.
“Acho até que, aprofundando os estudos, ver se as pessoas divulgaram de má-fé esses informes para prejudicar o governo atual e desgastar a imagem do Brasil”, disse Bolsonaro nesta quinta.
Logo após as primeiras declarações do presidente, Galvão declarou: “Ao fazer acusações sobre os dados do Inpe, na verdade ele faz em duas partes. Na primeira, ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Ele já disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualidade ou qualificação de fazer análise de dados”.
Destaque fora do Brasil
Além de ganhar destaque no Brasil, o avanço do desmatamento foi noticiado pela revista “The Economist” e por outras publicações estrangeiras.
Entenda como o Inpe monitora e gera taxas de desmatamento da Amazônia
O governo afirma que a medição do Deter não deve ser usada para gerar percentuais e comparações mensais e que os dados consolidados de desmatamento são divulgados pelo Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, admitiu que há aumento no desmate e diz que vai licitar um novo sistema de monitoramento.
Especialistas rebatem o governo e afirmam que o Deter mostra a real tendência de aumento, com precisão de cerca de 90%. Argumentam que as medições parciais do sistema sempre foram confirmadas posteriormente pelo Prodes em um balanço anual.
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