Marcelo Amaro dá visibilidade ao negro do sul do Brasil no álbum ‘Afro-gaúcho’


João Donato canta e toca no disco, programado para ser lançado em setembro. ♪ A leitura do livro Negros no sul do Brasil – Invisibilidade e territorialidade (1996) – organizado pela professora Ilka Boaventura Leite com a reunião de textos sobre a presença historicamente minimizada do povo preto no Rio Grande do Sul – motivou o cantor, compositor e percussionista Marcelo Amaro a compor com Mamau de Castro e Dona Conceição, anos depois, o samba Afro-gaúcho, música-título do terceiro álbum do artista.
“Um afro-gaúcho eu sou / De bombacha e descalço / Pelo mundo eu vou / … / Sou sambista batuqueiro / Filho de Ogum no terreiro”, perfila-se Amaro, ao som do acordeom de Kiko Horta, no samba que batiza e fecha Afro-gaúcho, álbum programado para ser lançado em edição digital em 10 de setembro e com edição em CD prevista para 20 de novembro.
Com o álbum Afro-gaúcho, o artista se vale do conceito de equidade e valorização da territorialidade para descortinar, através da música, a diáspora africana que se estendeu para o sul do Brasil.
Sim, Marcelo Amaro vem do sul – região onde a lenda do Negrinho do Pastoreio é muito popular – e carrega na música e na vida as marcas de ter nascido em Porto Alegre (RS), terra das milongas.
Contudo, pelo fato de Marcelo Amaro estar radicado na cidade do Rio de Janeiro (RJ) há cerca de 20 anos, o álbum Afro-gaúcho também segue o percurso carioca do samba, delineado sobretudo nos contornos românticos de Descendo por Santa Teresa ((Marcelo Amaro, Rodrigo Rodrigues e Wanderson Lemos), tema cheio de suingue gravado por Amaro com as adesões da voz e do piano Rhodes do acreano João Donato.
No Rio de Janeiro (RJ) ou em Porto Alegre (RS), Marcelo Amaro propaga no álbum Afro-gaúcho a cultura afro-brasileira. Se Fio de Zambi (Marcelo Amaro e Jorge Agrião) entra na roda da capoeira, o samba Cor laranja (Marcelo Amaro e Silvinho Blue) enaltece os orixás no tom do amor.
Capa do álbum ‘Afro-gaúcho’, de Marcelo Amaro
Carla Vieira
“Meu canto é banto êh / Que vem de Angola”, enfatiza Amaro, marcando território já nos versos iniciais da primeira das dez músicas do disco, Meu canto banto, faixa turbinada com a declamação do poema Caminhos percussivos por Tom Grito.
A música Meu canto banto é de autoria do compositor afro-sulista Eugênio Alencar, popularmente conhecido na região como Paraquedas e também autor de outra música do disco, Afro-sul.
Ao conceber o álbum Afro-gaúcho, com arranjos de Daniel Delavusca, Marcelo Amaro quis entrelaçar a base do samba carioca com símbolos sonoros sulistas como, por exemplo, os tambores percutidos nos rituais de Congada e Moçambique, festejos com dança e música populares no Rio Grande do Sul.
Como o disco está enraizado na ancestralidade afro-brasileira, Amaro também apresenta no repertório um jongo, Sankofa, composto pelo artista com Daniel Delavusca e Mamau de Castro com inspiração na série documental Sankofa – A África que te habita (2020).
“Desde os tempos de guri / Eu batuco na calçada”, lembra Marcelo Amaro nos versos iniciais do samba Desde os tempos de menino, assinado pelo artista com Max Garcia e com o recorrente Daniel Delavusca.
Com o álbum Afro-gaúcho, Marcelo Amaro expõe o orgulho de ser negro, sambista e batuqueiro descendente da África materna que, sim, também se espraiou pelo sul do Brasil.
Marcelo Amaro lança o terceiro álbum, ‘Afro-gaúcho’, também em CD, previsto para novembro
Carla Vieira / Divulgação