Maratona ‘Adoráveis mulheres’: G1 assiste aos 4 filmes e constata que o de Greta é o mais humano


Veja infográficos, trailers e listas que explicam como a história foi moldada ao longo do tempo. Versão de 2019 tem 6 indicações ao Oscar. Texto tem alguns spoilers. Cena de ‘Adoráveis Mulheres’, de 2019
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“Mulherzinhas”, livro clássico da americana Louisa May Alcott, já inspirou diversas obras: da série “Friends” ao best-seller “A amiga genial”. No cinema, foram dois diretores e duas diretoras diretamente impactados pela força das quatro irmãs March.
A mais nova versão, assinada pela diretora Greta Gerwig em 2019, também agradou a Academia de Cinema e concorre a seis categorias do Oscar 2020.
Para entender por que essa história continua a ser recontada mais de 150 anos após sua publicação, o G1 resolveu fazer uma maratona com quatro filmes: “As quatro irmãs” (1933), “Quatro destinos” (1949), “Adoráveis Mulheres” (1994) e “Adoráveis Mulheres” (2019).
A história
O romance de Alcott é uma espécie de manifesto feminista dos anos 1800. Ela conta a história da família March: com o marido na guerra civil americana e quase sem recursos, Marmee tem a função de cuidar de suas quatro filhas, com personalidades bem diferentes: Jo, Meg, Beth e Amy.
Na primeira parte do livro, as meninas (entre a pré-adolescência e a adolescência) têm de lidar com as dificuldades da pobreza, da sociedade patriarcal e alguns demônios internos como explosões de raiva, vaidade, altivez e timidez.
Já na segunda parte, elas já estão crescidas e vão segurar barras mais pesadas: dificuldades no casamento, frustração profissional, desencontros amorosos e doenças terminais.
Todas as faces de Jo
Maratona ‘Adoráveis mulheres’: Katharine Hepburn (1933), June Allyson (1949), Winona Ryder (1994) e Saoirse Ronan (2019) viveram Jo no cinema
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Jo é uma menina que não quer ser menina, não aceita casar e quer escrever para ganhar a vida. A protagonista da história foi apresentada de forma completamente diferente em cada adaptação:
Katharine Hepburn construiu, em 1933, a versão mais masculinizada da personagem;
June Allyson, em 1949, é a melhor encarnação do espírito encrenqueiro, mas alegre de Jo;
Winona Ryder é a mais cri-cri das quatro adaptações, com 16 momentos em que é grossa ou tira sarro das pessoas. Mas é, inegavelmente, a Jo mais adorável e cativante do cinema;
Saoirse Ronan é a Jo menos divertida, mas a mais humana.
A personagem criada por Greta Gerwig para Saoirse Ronan explora mais os conflitos internos da personagem e é a única a mostrar o problema de controle de raiva. Também aprofunda os conflitos de criatividade de Jo como escritora.
Mas a Jo casou no final?
Greta atualizou “Adoráveis mulheres” e, com isso, lançou uma dúvida para o público: Jo casa ou não com o professor Friedrich Baher?
No romance de Louisa May Alcott não há brechas por fechar: Jo se apaixona e casa com o professor alemão muitos anos mais velho que ela.
‘Adoráveis mulheres’: professor Baher foi interpretado por Paul Lukas (1933), Rossano Brazzi (1949), Gabriel Byrne (1994) e Louis Garrel (2019)
Montagem/Divulgação
Nas adaptações mais antigas, a diferença de idade entre os personagens choca:
Em 1994,Gabriel Byrne é 21 anos mais velho que Winona Ryder;
Em 1933, Paul Lukas tem 13 anos a mais que Katharine Hepburn, mas aparenta ter muito mais;
Em 2019, a diferença entre o francês Louis Garrel e Saoirse Ronan é de 10 anos, mas a caracterização dos personagens suaviza essa conta e faz parecer menor;
O filme com a menor diferença entre o casal é o de 1949, em que o italiano Rossano Brazzi é apenas um ano mais velho que June Allyson, a atriz mais velha a interpretar Jo.
Além disso, o filme de 2019 é o único que ignora a relação de dependência e afeto construída entre Jo e o professor na residência de Nova York. Jo se vira sozinha na cidade e não precisa de Friedrich para ir à ópera ou ser o responsável pelas negociações da publicação de seu romance.
A ascensão de Amy
A personagem que mais ganhou relevância ao longo das adaptações foi Amy. A irmã mais nova do clã das March é a personagem mais odiada do livro. No cinema, ela começou com participações pequenas, sempre reforçando sua característica de mimada. Os dois primeiros filmes traziam oito momentos de birra da caçula.
Sua representação começou a mudar em 1994. A diretora Gillian Armstrong foi a única a escalar duas atrizes para representar as idades reais da personagem durante as épocas em que o livro se passa: Kirsten Dunst, incrivelmente doce, aos 13; e Samantha Mathis, no limite da antipatia, aos 17.
Nas mãos de Greta, em 2019, a personagem roubou o protagonismo de Jo. Amy ganhou muitas cenas – passa as aparições de Beth e chega bem próximo das de Meg. Mas seu brilho não está tanto na quantidade, mas na qualidade: se afasta o raso em que sua personagem sempre habitou e ganha discursos potentes sobre a condição das mulheres na sociedade, desigualdade social e vocação artística.
‘Adoráveis mulheres’: Quanto Jo, Meg, Beth e Amy apareceram em cada filme
Rodrigo Sanches/G1
As outras mulherzinhas
A família March é formada ainda por Meg e Beth. Meg, a irmã mais velha, vai variando sua participação ao longo das adaptações. Seu romance com o tutor John e o embate moral entre a ganância e o espírito puro foram ganhando mais destaque ao longo das adaptações.
Mas foi apenas em 2019 que a câmera olhou para dentro da casa e da alma da personagem, tratando de seus dilemas no casamento e falta de dinheiro. Como todos os outros filmes focaram muito mais na doença de Beth, a vida novaiorquina de Jo e a viagem de Amy, Meg sempre ficou ao relento.
Beth, a irmã mais tímida entre as quatro, teve uma participação igualmente tímida nas telonas. Sua personalidade extremamente bondosa era mostrada em algumas poucas frases. Em 1994 e 2019, a personagem ganhou outra função na trama: dar gás para Jo escrever sua obra prima.
Prepare o lenço
A história das irmãs March ao longo dos anos é intensa: são muitos momentos de ternura entre elas, mas também muitas brigas e choros. O filme que mais se entregou ao melodrama foi o de 1994: ele reuniu mais beijos apaixonados, momentos de tristeza e chororô e também de harmonia, com as irmãs cantando juntas em volta do piano.
O de 1933 é o mais briguento, enquanto o de 2019 é o mais deslumbrante: são quatro cenas de rodopios em bailes. A versão de 1949 é que a menos se arrisca e ignora beijos e as mortes da história.
‘Adoráveis mulheres’: números de beijos, brigas, choros e bailes dos quatro filmes
Rodrigo Sanches/G1
Todos os filmes (com spoilers)
2019 – Humano
Asssita ao trailer do filme ‘Adoráveis Mulheres’
A última adaptação é atualizada pelo feminismo moderno. Jô não se apaixona cegamente pelo tutor de meia idade, Amy não é apenas a irmã desesperada para casar com um homem rico e embates que vão da representação de mulheres na literatura à detenção da propriedade intelectual de mulheres artistas distanciam este dos outros.
Mas este não é um filme panfletário. É o que mais aprofunda as angústias e personalidades dos personagens. O único que olha a mãe para além de seu papel de super protetora das meninas, que trata do vício de Laurie, que disseca o casamento de Meg e seus problemas financeiros.
1994 – Divertido
Assista ao trailer de ‘Adoráveis mulheres’ de 1994
Esta versão é um filme de época delicioso. Nele, as personalidades de cada irmã March são bem exploradas, mas todas ganham um verniz afável. Winona Ryder desperta empatia com uma Jo tão simpática quanto irritante, mas dilacerada por conflitos internos. Além do time de protagonistas, Christian Bale também merece destaque com a melhor versão de Laurie.
1949 – Contido
Trailer de ‘Quatro destinos’
Feito 16 anos depois do primeiro, o filme de 1949 parece mais uma versão em cores do anterior. Em diversos momentos, o roteiro é exatamente igual ao de 1933 – até nas partes em que modifica a história original. É o filme que menos se arrisca: ele não tem um beijo sequer entre os casais, não mata a tia March e esconde a morte de uma das irmãs, o momento de mais emoção de todos os filmes.
1933 – Caseiro
Trailer de ‘As quatro irmãs’
O primeiro filme é muito fiel ao livro em pequenos detalhes, sobretudo no começo da obra, reproduzindo situações com exatidão. É o único que menciona “O peregrino”, livro de alegoria cristã que as meninas ganham da mãe, e o que mais menciona Deus (são seis menções ao longo do filme).
Katharine Hepburn encarna trejeitos masculinos de Jo. É o filme com o clima mais familiar – inclusive a divisão entre as irmãs é bem equilibrada na primeira fase.
Outros filmes
A história teve outras três adaptações para o cinema: um filme britânico mudo de 1917; um mudo norte-americano de 1918, filmado no entorno da casa da escritora; e um de 2018, que traz a história para os dias atuais.
‘Adoráveis Mulheres’ (2018), filme que atualiza a história
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