Manifestações mostram desgaste do governo com cortes na Educação

Protestos contra cortes na Educação sinalizam mais um desgaste

Protestos contra cortes na Educação sinalizam mais um desgaste
Edu Garcia/R7 – 15.5.2019

Um milhão e meio de pessoas. Esse é o número apresentado pela UNE (União Nacional dos Estudantes) ao se referir à quantidade de manifestantes que estavam postos em marcha nesta quarta-feira (15), em todo o País, contra o contingenciamento anunciado pela gestão de Jair Bolsonaro na área de Educação. Especialistas apontam os protestos como mais um desgaste sofrido na pasta, que já registrou, no ponto mais alto, uma queda de ministro.

O governo federal bloqueou, no total, R$ 7,4 bilhões sobre o orçamento de 2019 para a pasta de Educação, que é de R$ 149 bilhões. Desse total, R$ 2 bilhões são ligados a universidades e instituições federais de ensino superior – o restante (R$ 5,4 bi) ainda não foi detalhado.

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Com os cortes, contas de água e de energia não serão pagas, contratos de prestação de serviços, como limpeza, serão deixados de lado, restaurantes não terão funcionamento, e programas de assistência não existirão mais — estes são os efeitos denunciados pelas universidades.

Ao justificar o corte, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou, em primeiro momento, a “balbúrdia” feita por jovens em ambientes universitários. A redução se aplicaria a três instituições: Unb (Universidade de Brasília), UFF (Universidade Federal Fluminense) e UFBA (Universidade Federal da Bahia) — as três citadas ranqueiam entre as 50 melhores da América Latina. “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiveram fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, disse o ministro.  No entanto, após repercussão negativa, recuou. Disse que o corte seria para a área da Educação.

Mais de 200 cidades registraram atos nesta quarta, mostrando o descontentamento da população frente à medida antipopulista de contingenciamento. “É a reação da sociedade. Vai além do espectro direita ou esquerda. Todos querem uma educação de qualidade, e ontem foi uma tentativa de sinalizar para o governo federal que eles não querem o corte”, avalia o cientista político e professor de Ciências Sociais da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro, Ricardo Ismael.

Marcela Petels, de 30 anos, compareceu ao protesto na avenida Paulista, com os dois filhos. “É importante estar aqui, porque o que está acontecendo não é o correto”, disse ela, que atua como professora e psicóloga. As crianças pintavam e desenhavam cartazes, todos voltados à educação. “A gente ensina para eles, de um jeito e linguagem que entendem, sobre o corte na área”, explica.

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E o contingenciamento, ainda não totalmente detalhado, pode afetar o ensino básico. Paralelamente aos protestos que inflavam as ruas de todo o País, o ministro participava de uma polêmica audiência na Câmara dos Deputados, onde foi convocado, de forma obrigatória, para explicar sobre o corte proposto. Uma confusão tomou conta do plenário. Numa exposição de 30 minutos, uma versão revista da que ele expôs no Senado Federal há alguns dias, Weintraub defendeu a prioridade para creches e educação básica, irritando parlamentares por não falar diretamente sobre o contingenciamento.

Para o cientista político e professor da FESP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) Aldo Fornazieri, o contingenciamento é necessário. “Não tem dinheiro. Isso é um fato. Mas quando há a necessidade de se contingenciar, é preciso ter prioridades nos cortes. Cortar educação, por exemplo, é um erro. Existem outras áreas que podem sofrer contingenciamento, como as desonerações fiscais”, explica.

Em Dallas, nos Estados Unidos, para receber o prêmio “Pessoa do Ano”, dado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, o presidente classificou os manifestantes que estavam nas ruas brasileiras de “idiotas úteis”.

“É natural, só que a maioria ali é militante e não tem nada na cabeça. Se perguntar para ele 7×8, não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis e uns imbecis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades do País”, disse o presidente.

A resposta foi dada ainda nas ruas. Milhares de professores, alunos e profissionais ligados à educação expuseram cartazes. Uns, com a fórmula da água (H2O).

O protesto pode ser interpretado como um desgaste, indicam especialistas ouvidos pela reportagem, uma vez que foi a primeira grande manifestação contra Bolsonaro, que está à frente do cargo em cinco meses. “A velocidade do desgaste é espantosamente rápida e grande. O país quer uma retomada, e ele prometeu isso em campanha, e até agora não teve um resultado. E a manifestação, deste tamanho como foi ontem, provoca certo desgaste no governo”, justifica Fornazieri.

Para Ismael, o desgaste “é fruto de um governo que tem apresentado falhas”. “Contingenciamento não significa corte. Mas a comunicação do governo deu impressão de que haveria cortes definitivos, muitas vezes passando pela ideia de um corte ideológico. Depois, mudou o discurso, admitindo o erro de certa forma”, compreende.

A avaliação dos dois cientistas, no entanto, não é a mesma que Antônio Flávio Testa. “Não há um desgaste. Se o governo não se articular, ele pode vir a sofrer um desgaste. E não por conta do PT (Partido dos Trabalhadores), que orquestrou a manifestação de ontem, mas pela ambição do Centrão”, diz.

De acordo com os especialistas, é prematuro afirmar o significado de a jornada de 15 de maio tão cedo. A UNE, porém, pretende continuar com o descontentamento não só de sua entidade, mas de a população, e já marcou o segundo ato para o próximo dia 30.