Mallu Magalhães preserva avanços e bossas no quinto álbum solo, ‘Esperança’


Artista assina sozinha as 12 músicas que compõem o repertório inédito do disco lançado sem aviso prévio nesta terça-feira, 15 de junho. Capa do álbum ‘Esperança’, de Mallu Magalhães
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Esperança
Artista: Mallu Magalhães
Edição: Quero quero
Cotação: * * * *
♪ Para quem testemunhou Mallu Magalhães atingir ponto de maturação e exuberância no quarto álbum solo de estúdio da artista paulistana, Vem (2017), a audição de Esperança pode soar como anticlímax.
Nem por isso o álbum poliglota, lançado sem aviso prévio nesta terça-feira, 15 de junho, deixa de resultar afinado com os avanços, as bossas e as conquistas dessa cantora, compositora e violonista surgida em 2007, ano em que, ainda adolescente, Mallu lançou gravações autorais ao mar poluído da internet.
Desde então, Mallu somente cresceu, e em todos os sentidos. Álbum gravado em 2019, originalmente intitulado Felicidades e adiado sucessivas vezes por conta da pandemia, Esperança confirma os progressos atingidos pela artista no antecessor Vem, apresentando 12 músicas assinadas somente por Mallu, sem parceiros.
Dessas 12 músicas que compõem o repertório inteiramente inédito do disco, gravado com produção musical orquestrada por Mario Caldato Jr. com a própria Mallu, somente Quero-quero – samba formatado em estúdio com o toque do Rhodes de Claudio Andrade, o sopro do trompete de Diogo Duque e as marcações suaves da bateria de Frederico Ferreira e da percussão de Domenico Lancellotti – tinha sido previamente apresentada em live feita pela cantora em março de 2020.
Mallu Magalhães canta samba com Preta Gil no álbum ‘Esperança’
Daryan Dornelles / Divulgação
Quero-quero, a propósito, é a faixa escolhida para abrir os trabalhos promocionais do álbum Esperança com clipe filmado sob direção de Bruno Ilogti. Quero quero é também o nome do selo fonográfico aberto por Mallu para editar de forma independente esse álbum que soa como prosseguimento do disco antecessor Vem, mas com menor apelo pop.
Como no álbum de 2017, Mallu cai eventualmente no samba cheio da bossa evocativa do balanço brasileiro da década de 1960.
Há o balanço desse samba na aliciante Barcelona – música em inglês de introdução viajante que logo cai no suingue, em atmosfera que remete ao clima dos discos de Bebel Gilberto, e com direito a versos de poema em inglês recitado por Nelson Motta – e em Deixa a menina, sendo que, na gravação menos sedutora desse samba em que Mallu celebra a vitalidade da filha Luísa, a cantora divide a interpretação da faixa com Preta Gil em dueto inusitado.
Há também a batida do samba em Fases da lua – faixa mais climática, introvertida, que se insinua como flerte com o universo do trip hop – e em Regreso, new bossa composta e cantada em espanhol.
Além do samba, Mallu pega a onda retrô do surf rock em I’m ok e mergulha em águas jamaicanas em Você vai ver, faixa que embute sutilmente a cadência do reggae enquanto persegue em vão a velocidade do ska.
Mallu Magalhães assina com Mario Caldato Jr. a produção musical do álbum ‘Esperança’
Daryan Dornelles / Divulgação
No todo menos extrovertido do que o antecessor Vem, como ratifica a apática canção Pé de elefante, o álbum Esperança justifica o título em Cena de cinema, faixa de clima otimista em que Mallu manifesta a fé na vida. “Der no que der / Eu levo a vida tipo cena de cinema / Haja o que houver / Eu acho que isso tudo vala a pena”, sentencia a cantora no refrão envolvente da música.
Eco de Vem, o clima mais expansivo da faixa Cena de cinema também reverbera em As coisas, música de escala ascendente em que o canto de Mallu soa mais (ponti)agudo, feliz.
A propósito, Esperança é disco em geral feliz que começa com América Latina – demarcação do território pessoal da artista nascida em agosto de 1992 na cidade de São Paulo – e termina com Enjoy the ride, recado de Mallu para a filha aproveitar a jornada da vida.
Entre uma faixa e outra, o álbum atesta a evolução dessa cantora e compositora singular em caminhada que atingiu ponto de excelência em Vem e que se mantém perto desse ponto com Esperança.