Mais de 30% de índios aldeados ainda não foram vacinados contra a Covid-19 no Amazonas

Para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) faltam 34%. Já para a Fundação de Vigilância e Saúde do Estado (FVS-AM), 31,6%. Números dos dois órgãos diferem ainda sobre a população indígena que deve ser contemplada. Em Parintins, 47% dos indígenas já receberam a segunda dose da vacina contra a Covid
Mais de 30% de indígenas aldeados ainda não foram vacinados contra a Covid-19 no Amazonas. Para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) faltam 34%. Já para a Fundação de Vigilância e Saúde do Estado (FVS-AM), 31,6%.
Isso acontece porque existe uma diferença nos números de indígenas mapeados pelos dois órgãos e também em relação às doses que já foram aplicadas entre eles. Para a Sesai, a população indígena aldeada do estado é de 93.401 pessoas. Desse total, até a sexta-feira (26), 31.941 ainda não tinham recebido nenhuma dose do imunizante.
Já o painel de monitoramento da FVS-AM mostra que o total de índios que vivem em terras indígenas e são contemplados pela imunização é de 101.567. Desse total, 32.766 não foram vacinados.
Segundo a Sesai, o Amazonas tem sete Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei), unidades de saúde voltadas para este público em específico. O maior deles é o do Alto Solimões, que tem uma população estimada em 34.312 índigenas. Lá, 24.863 já receberam a primeira dose da vacina contra a Covid-19 e 16.900, a segunda. Um total de 9.449 ainda não foram imunizados.
O Dsei do Alto Rio Negro é o segundo maior. Cerca de 17.182 indígenas vivem na região. E assim como o do Alto Solimões, o número de índios que também não foram imunizados é alto: 7.866.
Segundo o membro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Francisco Loebens, existem diversos fatores que levam ao alto número de indígenas que ainda não foram imunizados no estado, entre eles:
Divulgação de notícias falsas;
Resistência por adeptos de religiões fundamentalistas;
Descrédito na imunização a partir de falas de autoridades.
“Tive muitas informações de resistência dentro de algumas comunidades por conta do medo que foi provocado em relação às vacinas. No Vale do Javari, foi preciso acionar lideranças mais antigas para fizer um trabalho de convencimento da comunidade. Mas há também uma relação da presença de religiões mais fundamentalistas e as informações chegam muito deturpadas pelos meios de comunicação. Há muitas fake news sobre a vacina e isso acaba trazendo esse temor”, justificou.
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Para Loebens o cenário é preocupante, visto o alto número de casos e óbitos provocados pela Covid-19 entre os indígenas. No entanto, o discurso sobre a não-eficácia do imunizante é algo que, apesar de reverberar entre os povos tradicionais, vem de longe.
“É um número absurdo de indígenas que vem morrendo por conta da Covid. É claro que esse discurso negacionista não se dá em todas as comunidades. Nem todas têm esse temor. Mas é a situação do país, a realidade que vivemos. A deturpação da prevenção que a vacina traz vem do próprio presidente e isso tem um impacto sobre as pessoas e sobre os indígenas também”, explicou.
Questionado se a logística poderia ser um fator prejudicial para a imunização dos índios, o missionário acredita que não. Para ele, os Dseis dispõem de toda uma estrutura para chegar em comunidades mais distantes: “Não colocaria tanto peso na logística. A não ser que haja aí um problema de recursos, mas a gente não tem informações sobre isso”, resumiu.
Vacinas vencem em abril
Secretário da Saúde fala sobre doses destinadas a indígenas que vencem em abril
Neste domingo (28), o secretário de saúde do Amazonas, Marcellus Câmpelo, disse que um lote de vacinas destinadas aos indígenas vence agora em abril. Segundo ele, existe um movimento do Conselho de Secretários de Saúde Municipais para que essas doses sejam transferidas para os municípios para evitar o risco de perdê-las.
“Pelo cadastro da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) é um volume grande de vacinas ainda não aplicadas nos povos indígenas pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) de cada região. E é um pleito do conselho de secretários municipais pedindo que essas doses sejam revertidas para os municípios. Essas doses vencem em abril e precisamos tomar uma decisão junto ao PNI nacional e estadual para o redirecionamento ou não”, disse.
Questionada sobre a diferença de seus dados em relação aos da Sesai, a FVS informou que consolida os dados de vacinação a partir de indicadores de doses aplicadas informadas pelos municípios do Estado.
No entanto, por conta de se tratar de indígenas aldeados, a Sesai é a primeira instituição a obter os dados de doses aplicadas. A Secretaria, então, repassa a informação desse quantitativo à secretaria municipal de saúde do município que, por sua vez, informa os dados de vacinação para a FVS.
O G1 também chegou a questionar a Sesai sobre a diferença nos números e aguarda resposta.
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