Mais de 20 milhões de crianças por ano deixam de tomar vacina contra sarampo, diz Unicef


Problema se deve à falta de acesso à vacina, a sistemas de saúde precários e, em alguns casos, ao medo ou ceticismo em relação à imunização. Criança recebe vacina em posto de saúde no Iêmen, em fevereiro de 2019.
Aidroos Alaidroos/Divulgação Unicef
Aumenta o número de pessoas que não recebem a vacina contra sarampo no mundo, o que vem criando novos surtos da doença. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou nesta quarta-feira (24) que, a cada ano, cerca de 21,1 milhões de crianças em todo o mundo não recebem a vacina contra sarampo. Esse número é uma média dos anos 2010 a 2017.
O Unicef atribui o problema à falta de acesso à vacina, a sistemas de saúde precários e, em alguns casos, ao medo ou ceticismo em relação à imunização. O vírus possui alta capacidade de propagação e a transmissão acontece de uma pessoa para outra, por meio de secreções expelidas ao tossir, espirrar, falar ou mesmo respirar.
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Imunização em risco
“O terreno para os surtos globais de sarampo que estamos testemunhando hoje foi estabelecido anos atrás”, disse a diretora executiva do Unicef, Henrietta Fore. Segundo a instituição, quando um número expressivo de crianças não é vacinado, criam-se “bolsões” de pessoas não imunizadas, facilitando a locomoção do vírus de um lugar para o outro.
Nos primeiros três meses de 2019 foram registrados mais de 110 mil casos de sarampo em todo o mundo. Trata-se de um aumento de quase 300% em relação ao mesmo período do ano passado. Estima-se que 110 mil pessoas tenham morrido de sarampo em 2017, um aumento de 22% em relação a 2016. A maioria dessas mortes é de crianças.
“O vírus do sarampo sempre encontrará crianças não vacinadas. Se levamos a sério a prevenção da disseminação dessa doença perigosa, mas evitável, precisamos vacinar todas as crianças, tanto em países ricos quanto em países pobres”, acrescentou a diretora.
Embora a cobertura global da primeira dose da vacina contra o sarampo tenha sido de 85% em 2017, a cobertura global para a segunda dose é muito menor, de 67%. Ou seja, muitos pacientes chegam a tomar a primeira dose, mas não voltam para receber a segunda, o que é essencial no caso do sarampo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de 95% de cobertura de imunização para alcançar a imunidade coletiva ou o chamado “efeito rebanho”.
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Campanha de vacinação no Zâmbia, em foto de novembro de 2016.
Karin Schermbrucker/Divulgação Unicef
Países com dificuldades
Mesmo entre os países mais desenvolvidos a aplicação de vacinas tem sido uma preocupação das autoridades públicas e organismos internacionais. Os Estados Unidos, por exemplo, encabeçam a lista de países de alta renda com o maior número de crianças que não receberam a primeira dose da vacina contra sarampo entre 2010 e 2017: mais de 2,5 milhões.
Em segundo lugar entre os países ricos — conforme a classificação de renda do Banco Mundial — está a França, com mais de 600 mil, e o Reino Unido, com 500 mil crianças não vacinadas com a primeira dose durante o mesmo período.
Um levantamento feito pelo Unicef, divulgado em março deste ano, aponta o Brasil como o terceiro país no ranking dos que tiveram o maior aumento de casos de sarampo entre 2017 e 2018.
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Entre os países mais pobres o problema é ainda mais grave. Em 2017, por exemplo, a Nigéria teve o maior número de crianças com menos de 1 ano de idade que não receberam a primeira dose da vacina: quase 4 milhões. Em seguida vêm a Índia (2,9 milhões), o Paquistão e a Indonésia (1,2 milhão cada) e a Etiópia (1,1 milhão).
Vinte países da África ao sul do Saara não introduziram a segunda dose da vacina contra sarampo como necessária no calendário nacional de vacinação.
Países de alta renda onde crianças não receberam a primeira dose, entre 2010 e 2017
Campanha global
Nesse contexto, o Unicef iniciou a campanha global #VacinasFuncionam nas redes sociais e afirma estar colaborando com os governos dos países para melhorar os números de cobertura por meio das seguintes ações:
Negociando preços de vacinas;
Ajudando os países a identificar áreas carentes;
Comprando vacinas e outros suprimentos;
Apoiando campanhas para suprir aquelas de rotina;
Promovendo a introdução da segunda dose da vacina em países que não a adotam;
Introduzindo tecnologias para ajudar a manter as vacinas na temperatura certa.
De acordo com a organização, “as vacinas poupam até 3 milhões de vidas por ano, protegendo as crianças de doenças potencialmente letais e altamente infecciosas, como sarampo, pneumonia, cólera e difteria” e “cada US$ 1 gasto em imunização infantil retorna até US$ 44 em benefícios”.
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Infografia: Karina Almeida/G1