Mahan Air, a polêmica empresa aérea do Irã que agora voa direto para a Venezuela


A companhia iraniana que deixou autoridades americanas e europeias em alerta começou a operar nesta semana uma rota entre Teerã e Caracas, depois que 18 empresas aéreas que operavam no mercado venezuelano desistiram do itinerário. Avião da Mahan Air no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, nos arredores de Caracas, na segunda-feira (8)
Carlos Garcia/Reuters
Ela foi acusada de transportar armas, agentes secretos e dinheiro para as zonas de conflito na Síria e no Iraque. Agora, a companhia aérea iraniana Mahan Air acrescentou um novo destino ao seu itinerário: Venezuela.
Na segunda-feira (8), o primeiro voo direto da empresa para Caracas – com duração estimada em 16 horas – decolou do Aeroporto Internacional Imam Jomeiní, em Teerã, capital do Irã.
Ao meio-dia, a aeronave da Mahan Air já se encontrava no aeroporto internacional de Maiquetía, Simón Bolívar, que serve a capital venezuelana.
Segundo o porta-voz da Organização da Aviação Civil do Irã, Reza Yafarzadeh, nesta primeira viagem estava o diretor do Departamento para as Américas do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Mohsen Baharvand.
Uma comitiva oficial do país viajou até a Venezuela nesse voo para manter conversações políticas com membros do governo do presidente Nicolás Maduro sobre a atual situação no país.
Yafarzadeh disse que na aeronave também viajava uma delegação da Mahan Air, com o objetivo de negociar as condições para a manutenção de voos regulares entre os dois países, segundo informações da agência de notícias iraniana Mehr.
O estabelecimento de uma nova rota para a Venezuela é um fato significativo, considerando que nos últimos seis anos 18 das 26 linhas internacionais que tinham o país na rota encerraram essas operações.
O motivo é a grave crise que o país sul-americano vive, segundo números divulgados na semana passada à mídia local pelo presidente executivo da Associação Venezuelana de Empresas Aéreas, Humberto Figuera.
O senador norte-americano Marco Rubio, um dos mais conhecidos críticos do governo de Nicolás Maduro em Washington, comentou a chegada da companhia aérea iraniana a Caracas.
“A menos que o Irã tenha se transformado em uma fonte repentina de turistas, esta é outra razão pela qual o regime de Maduro se tornou uma ameaça à segurança dos EUA”, escreveu ele no Twitter.
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O voo da Mahan Air não será a primeira rota regular entre Caracas e Teerã. Há uma década, a companhia aérea estatal venezuelana Conviasa estabeleceu um voo Caracas-Damasco-Teerã, com frequência de duas vezes por semana.
Uma reportagem publicada na época pelo jornal espanhol El País citava um funcionário da Conviasa segundo o qual a operação de cada voo custaria cerca de 340 mil euros (então equivalentes a cerca de US$ 489 mil), valor que a venda de passagens não podia cobrir.
De acordo com a mesma fonte, o estabelecimento da rota teve razões políticas, ou seja, a aliança entre o presidente venezuelano Hugo Chávez e seu colega iraniano Mahmoud Ahmadinejad.
Companhia aérea sob sanções
Mahan Air é a segunda maior companhia aérea do Irã e é de propriedade privada.
No entanto, há oito anos está na mira de autoridades americanas por supostas ligações com organizações oficiais do país, como o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC), que foi declarado pelo governo Donald Trump segunda-feira como um “grupo terrorista”.
Em outubro de 2011, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções financeiras contra a companhia aérea, acusando a empresa de “dar ajuda financeira, material e tecnológica” ao Quds, o grupo de elite da IRGC, apontado como responsável por realizar missões no exterior, tarefas de inteligência e operações militares não convencionais.
“A estreita coordenação com o Quds – transferindo agentes, armas e recursos de forma secreta em seus vôos – revela outra faceta da extensa infiltração do IRGC no setor comercial do Irã para facilitar seu apoio ao terrorismo”, disse o então subsecretário do Tesouro, David S. Cohen.
De acordo com as autoridades dos EUA, a Mahan Air transportava membros do Quds com origem e destino à Síria para treinamento militar e também permitia que supostos agentes infiltrados entrassem e saíssem do Iraque evitando controles normais de segurança e não incluindo seus dados de identificação nas listas de passageiros.
O Tesouro americano também acusa a companhia aérea de transportar secretamente armas, agentes e bens pertencentes à milícia xiita libanesa do Hezbollah, considerada como terrorista por Estados Unidos, Canadá e Holanda, enquanto a União Europeia aplica essa denominação apenas a sua ala militar.
Em janeiro deste ano, o governo da Alemanha proibiu as operações da Mahan Air no país por considerar que ela estava ligada a atividades ilegais do Irã em território europeu.
Há pouco mais de duas semanas, o governo da França adotou uma medida parecida alegando que a companhia aérea transporta pessoal e equipamento militar para a Síria e outras áreas em guerra no Oriente Médio.
A decisão da Mahan Air de abrir uma rota direta para a Venezuela ocorre em um momento de alta tensão política em território venezuelano, onde a oposição e uma parte importante da comunidade internacional – encabeçada pelos Estados Unidos – questionam a permanência do presidente Maduro no poder, acusando ele de ter sido reeleito por meio de votações fraudulentas. Estados Unidos e dezenas de outros países, incluindo o Brasil, apoiam o líder da oposição, Juan Guaidó, que se autodeclarou presidente interino em janeiro.
Maduro acusa Washington de estar impulsionando um golpe de estado para derrubá-lo, com objetivo de se apoderar das valiosas reservas de petróleo do país, entre as maiores do mundo. Ele também conta com inúmeros apoios internacionais, entre os quais Rússia, China, Turquia, Cuba e Irã.