Maestro Remo Usai ganha direitos autorais do Ecad após disputa que durou 38 anos


Um dos maiores compositores do cinema brasileiro, músico de 93 anos entrou com processo para receber direitos por suas trilhas em 1983 e depósito só aconteceu agora. Cena do documentário ‘Remo Usai – Um músico para o cinema’, do diretor Bernardo Uzeda, de 2008
Reprodução
O maestro Remo Usai fez trilhas para mais de 60 filmes brasileiros, mas a grande saga de sua carreira musical terminou de forma silenciosa, no dia 2 de agosto de 2021. Sem alarde, o Ecad depositou os direitos autorais de Usai após uma disputa judicial de 38 anos.
Em 1983, o músico carioca, autor de trilhas do Cinema Novo a comédias dos Trapalhões, entrou com uma ação pela falta de pagamento de direitos pela execução de suas músicas em filmes.
Entre as dezenas de filmes com trilha de remo estão “Assalto ao trem pagador” (1962), um marco por unir orquestra sinfônica e escola de samba. Da mesma época, fez também “Mandacaru vermelho” (1960) e “Boca de ouro” (1962), ambos de Nelson Pereira dos Santos.
Ele também está em várias trilhas que marcaram a infância de brasileiros, como “O trapalhão nas minas do Rei Salomão” (1977), entre vários outros com Renato Aragão, e “As aventuras da Turma da Mônica” (1982).
Desde 1983
A disputa judicial iniciada em 1983 se arrastou até 2018, quando a justiça determinou que a dívida, com juros, chegava a R$ 3,5 milhões.
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) fez o depósito judicial deste valor só em 2021. Remo Usai está com 93 anos, com a saúde frágil. “Durante esse tempo, sofremos muito com isso. O trabalho foi diminuindo, a idade chegando”, diz a esposa de Usai, Antonia Colacicco.
“Ele está acamado, já não responde muito mais. Antes, dava palestras, gostava muito de ter contatos de todo tipo, muito sociável. Hoje não tem mais condição”, lamenta a esposa. A justiça ainda tem que liberar a transferência do depósito judicial.
“Para nós é uma grande felicidade que o Ecad tenha, finalmente, pago tudo que deve ao Remo”, diz Daniel Campello, , do escritório Gladulich, Alonso e Campello, advogados do maestro. “Tive duras batalhas nesse processo, mas nunca desisti porque queria muito dar essa vitória ao Remo, o maior compositor brasileiro para cinema”, completa.
Última pendência
A última disputa é com o advogado Jorge Costa, que chegou a representar Remo Usai no processo ao mesmo tempo em que era presidente da Socinpro, associação de músicos que faz parte do Ecad. “Ele atendia as duas partes – principalmente a outra'”, reclama Antonia.
Agora, ela diz que Jorge Costa, que não representa Remo há 12 anos, quer receber honorários advocatícios pela vitória. “Não faz sentido. Até a gente chegar a essa conclusão foi um caminho bem penoso. Foi muito difícil”, diz Antonia. O G1 questionou Jorge sobre o processo, mas não teve retorno.
‘Eu conheço essa música…’
Em 2011, Usai recebeu um prêmio honorário no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, por sua carreira e importância na história das trilhas no Brasil. Foi uma de suas últimas aparições públicas, sorridente, ao lado do maestro Tim Rescala, que lhe entregou o prêmio.
“Dizem que as pessoas idosas têm preferência, mas isso não tem sido observado. Acho que as leis ficam só no papel”, reclama Antônia. Em dezembro, eles vão completar 60 anos de casados.
A esposa cuida de Remo e, às vezes, coloca suas antigas trilhas para tocar em casa. “Atualmente ele já não mais reconhece quem fez. Ele só diz: ‘Eu conheço essa música…’.
“Eu digo: ‘É sua’. E ele fica admirado.”
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