Luana Carvalho desanima o baile ao abordar funks melódicos em álbum de clima ‘cool’


Capa do álbum ‘Segue o baile’, de Luana Carvalho
Jorge Bispo com arte de Diego Limberti e Gabriel Martins
Resenha de álbum
Título: Segue o baile
Artista: Luana Carvalho
Edição: Edição independente da artista / Altafonte (distribuição no mercado digital)
Cotação: * *
♪ Desde o ano passado, Luana Carvalho tem aparecido mais com discos de conceitos midiáticos. Em junho de 2020, a cantora e compositora carioca apresentou Baile de máscara, EP de aura foliã, calcado no repertório e na saudade de Beth Carvalho (1946 – 2019), mãe da artista.
Segue o baile – álbum lançado por Luana nesta quarta-feira, 20 de janeiro, feriado carioca – explicita no título o link com o disco anterior. A conexão se faz pela sonoridade pautada pelo indie pop de Alexandre Kassin, produtor dos dois discos, gravados com músicos recorrentes como Dedê Silva, baterista de Anitta. Só que o baile é outro.
No álbum Segue o baile, Luana Carvalho migra dos salões carnavalescos para as pistas onde impera, desde o fim dos anos 1980, o batidão do funk carioca. A artista põe o canto sem viço a serviço de melodias singelas e fluentes, de belezas por vezes abafadas nos bailes pelo peso dos graves do tamborzão. Do toque do ancestral maculelê incorporado ao Miami bass do funk fluminense – conexão observada com astúcia por Caetano Veloso em Miami maculelê, funk composto pelo artista para Gal Costa gravá-lo no álbum Recanto (2011).
A ideia de Luana Carvalho passa longe da originalidade. Travestida de Adriana Partimpim, Adriana Calcanhotto extraiu em 2004 o ouro de Fico assim sem você (Cacá Morais e Abdullah, 2002) e trouxe o sucesso da dupla de funk melody Claudinho & Buchecha para outros públicos e pistas.
Dez anos depois de Partimpim, Alice Caymmi fez o mesmo com outra joia do funk melody, Princesa (MC Marcinho, 1997), reprocessada pela cantora no impactante álbum Rainha dos raios (2014).
Funk melódico. Sim, tem. E de boa qualidade. É a essa matéria-prima que Luana Carvalho recorre no álbum Segue o baile, enfraquecendo o batidão no toque amaciante das percussões de Dedê Silva (também na bateria) e das programações de Kassin (também no baixo acústico).
Há sutilezas nos arranjos. Funk melody com o qual o cantor Latino abriu as portas dos bailes e do mercado fonográfico há 27 anos, e que foi coincidentemente regravado por Alice Caymmi em single lançado em dezembro, Me leva (Latino, 1994) cai com certo charme no suingue do toque do violão de Pedro Sá. Mas esbarra na opacidade da voz de Luana.
Luana Carvalho lança o álbum ‘Segue o baile’ com regravações de hits do funk melody como ‘Garota nota 100’ e ‘Estava escrito’
Jorge Bispo / Divulgação
A falta de luminosidade no canto da artista desanima o baile indie-funk e isso nada tem a ver com o fato de Luana adotar estilo cool de interpretação. Há cantoras de registro cool que alcançam expressividade jamais atingida por Luana.
Ainda assim, salta aos ouvidos a beleza melódica de Estava escrito (Bob Rum, 1996), romântico funk melody impregnado de sofrência que deu título ao primeiro álbum solo de Moysés Osmar da Silva, o MC carioca conhecido nos bailes como Bob Rum.
A abordagem de Rap do solitário (MC Marcinho, 1995) – já previamente apresentada em single em 20 de dezembro, um mês antes da edição do álbum – corrobora a linearidade apática de disco que desperdiça munição certeira como Garota nota 100, outro exemplo da inspiração melódica e da delicadeza romântica de Marcio André Nepomuceno Garcia, cantor e compositor fluminense conhecido como MC Marcinho.
Nem o coro arregimentado por Kassin para o disco – coro formado pelas vozes de Erika Anjos, Junior Tavares, Leticia Pedroza, Murilo Santos e Suzana Santana – atenua a fraqueza do canto de Luana.
Sucesso do primeiro álbum de Ludmilla, Hoje (Jefferson Junior e Umberto Tavares, 2014) já diz a que o álbum (não) veio ao diluir toda a pulsação pop da composição. Qual o sentido de regravar música que se destaca justamente pela pegada pop desconstruída por Kassin?
Do lote de músicas inéditas que se juntam no repertório do álbum Segue o baile, Selfie – música de autoria de Luana lançada em single em 22 de novembro – se eleva pela letra que escancara hipocrisias do discurso das elites brancas a respeito do racismo.
Teta sem treta, parceria de Luana com Andréia Horta, empodera ideologia feminina e versa sobre câncer de mama sobre baticum encorpado pela percussão de Zero Telles. Na sequência, Última oração (Pedro Bernardes) também reforça a base percussiva, revolvendo raízes africanas enquanto Luana dá voz a uma letra de intensa verborragia. A composição é a mais interessante das inéditas.
Com a mesma evocação de tambores ancestrais, Mainha (Luana Carvalho) saúda indestrutíveis elos matriciais, reconectando Luana com Beth Carvalho, cantora referencial que, ao ir em busca do nobre samba cultivado nos quintais dos subúrbios cariocas a partir dos anos 1970, ganhou relevância que, mesmo com Beth já fora de cena (ou talvez por isso mesmo), contribui para dar visibilidade a Luana Carvalho enquanto esta ainda tenta delinear identidade no universo pop brasileiro a reboque de boas ideias midiáticas.