Lô Borges embala canções de primavera com a pegada do rock para ‘acordar quem tem ouvido’


Artista mineiro retoma a parceria com o irmão Marcio Borges em álbum, ‘Muito além do fim’, que apresenta safra autoral composta com simplicidade e liberdade. Capa do álbum ‘Muito além do fim’, de Lô Borges
Divugação
Resenha de álbum
Título: Muito além do fim
Artista: Lô Borges
Edição: Deck
Cotação: * * * *
♪ “Só amor eu ponho em meu canto / Não tenho bem mais precioso / Para quem quer sair da ignorância / O que eu canto é poderoso / Vou derramando versos livres / A liberdade é meu plano / Eu sigo livre e cantando”, celebra Lô Borges no fluxo fluente da Canções de primavera, uma das dez parcerias do artista mineiro com o irmão Marcio Borges reunidas no álbum Muito além do fim.
Somente por promover a retomada da parceria dos irmãos Borges, após uma década, o disco já tem importância histórica. Afinal, juntos ou com outros parceiros, Lô e Marcio têm nomes em títulos fundamentais do cancioneiro do Clube da Esquina.
Para quem não liga as músicas aos compositores (pecado comum na era do streaming…), são dos dois maravilhas contemporâneas como Tudo que você podia ser (1972), Um girassol da cor de seu cabelo (1972) e, mais recentemente, Quem sabe isso quer dizer amor (2002).
Por isso mesmo, o disco que chega em edição digital na sexta-feira, 5 de março, pela gravadora Deck, merece toda atenção e crédito. No disco, Lô e Marcio são tudo o que podem ser neste momento conturbado da história da humanidade.
Foi à distância que os irmãos deram forma a nove das dez músicas que compõem o repertório inteiramente inédito do álbum (a exceção é Terra de gado, arada em 1999, mas até nunca lançada oficialmente em disco, embora haja registros da canção na web).
Lô entrou com as melodias e as harmonias requintadas. Marcio criou os versos em que, do sertão de Minas, capta as paixões e os anseios do mundo com poesia simples e direta em que marca posição.
“… Não vou cantar qualquer poeira / Eu não / … / Sigo a minha vida de homem simples / Simples a canção / Pode ser apenas a brincadeira / Ou não”, ressalta Marcio através da voz sempre jovem de Lô em Vida ribeirão.
Lô Borges canta dez parcerias com o irmão Marcio Borges no álbum ‘Muito além do fim’
Rodrigo Brasil / Divulgação
Sim, o álbum Muito além do fim simboliza tomada de posição, feita com a simplicidade exposta nas letras e na cinzenta capa do disco. Embora banal, a imagem da montanha na capa mapeia com precisão a origem dos ecos da canção pop mineira dos anos 1970 que reverberam em composições como a música-título Muito além do fim, gravada com a adesão de Paulinho Moska e previamente apresentada em 23 de outubro de 2020 como primeiro single do álbum.
Esse ar da montanha está encorpado no disco com a batida básica do rock. Talvez para se fazer ouvir em tempos embrutecidos pela ignorância, Lô recorreu ao peso do rock, evidenciado na gravação de Minha querida.
Minha querida é a segunda das dez composições na disposição das faixas no disco gravado pelo artista com power trio formado pelos músicos Henrique Matheus (guitarra), Robinson Matos (bateria, de batida especialmente bem marcada em Rainha) e Thiago Corrêa (baixo), sendo que Henrique e Thiago assinam com o artista a produção musical desse disco gravado sob direção musical do próprio Lô.
Sim, o álbum Muito além do fim foi revestido com a pegada do rock. Contudo, Lô e Marcio endurecem sem perder a ternura que insiste em se entranhar até numa canção de estilo pote-até-aqui-de-mágoa como Copo cheio.
Lô toca violão e eventualmente piano ao longo do disco, mas a forte vibe roqueira encobre canções como Caos, canção de amor que adquire sentido político na letra que vislumbra esperança em versos como “Vento soprou de lá / E convidou nós dois / Para plantarmos luz / Dentro da escuridão do caos / Não quer dizer que foi determinado assim / Sempre podemos escrever um outro fim”.
Mesmo que uma ou outra canção se imponha com menor força no álbum, caso sobretudo de Melhor assim, o conjunto da obra resulta luminoso por se afinar com o momento sem soar datado.
Aliás, é sintomático que o disco se encerre com Piano cigano, tema composto por Lô ao piano em 1978 e letrado por Marcio Borges em 2020 com quatro versos para gravação feita com longa passagem instrumental de clima prog.
O traço atemporal do disco jamais anula o fato de o cancioneiro de Muito além do fim estar sintonizado com o Brasil de 2021. “O tempo passa e não espera / Mas as canções de primavera(s) / Eu sei que essas vão ficando”, sacramenta Lô Borges em versos da já mencionada Canções de primavera.
Sim, com amor posto no canto, Lô Borges dá voz a algumas canções de primavera neste álbum indicado para “acordar quem tem ouvido”, como resume o poeta Marcio Borges em verso da mesma composição.
E é por isso que os Borges vão ficando, irmanados na beleza de música capaz de plantar luz (e sonhos que não envelhecem) na escuridão do caos.