Lô Borges dissipa energia criativa em álbum, ‘Dínamo’, com letras inspiradas de Makely Ka


Capa do álbum ‘Dínamo’, de Lô Borges
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Dínamo
Artista: Lô Borges
Gravadora: Deck
Cotação: * * 1/2
♪ Compositor que ultimamente tem andado às voltas com intenso fluxo de produção de melodias, Lô Borges mostrou vigor criativo no ano passado com a edição de Rio da lua (2019), álbum que abriu a parceria do artista mineiro com o conterrâneo Nelson Angelo, autor das dez letras enviadas por mensagens de texto que, uma vez nas mãos do melodista, viraram músicas de forma quase instantânea.
Animado com o resultado, Lô repetiu o processo de criação via aplicativos com Makely Ka, nome artístico do poeta, compositor e violonista piauiense Makely Oliveira Soares Gomes. Aberta em 2019, a parceria inédita surgiu justamente do disco anterior Rio da lua.
Lô apresentava o show Rio da lua na cidade natal de Belo Horizonte (MG) quando recebeu, via whatsapp, uma letra de Makely. Eram os versos que deram origem à composição O caos da cidade, canção que encerra Dínamo, álbum lançado por Lô na sexta-feira, 6 de março, com dez músicas inéditas criadas a partir de letras enviadas a Makely.
“Fiz dez músicas em três meses. Toda semana chegavam letras, e aquelas (de) que eu gostava mais eu passava para o meu caderno, com minha caligrafia. Então, eu pegava o violão, começava a inventar acordes e melodias e em 40 minutos já estava tudo pronto. Foi muito intuitivo”, relata Lô no texto que apresenta o disco à mídia.
Desta vez, a intuição parece ter sido mais fraca. A parceria de Lô com Makely Ka resulta bem menos sedutora do que o cancioneiro do compositor mineiro com Nelson Angelo. Não por conta de Makely, que escreveu (boas) letras inspiradas no universo poético de Lô, mas por causa do próprio Lô.
Lô Borges apresenta dez músicas inéditas compostas com letra de Makely Ka no 15º álbum solo, ‘Dínamo’
João Diniz / Divulgação
Anunciado em novembro com a apresentação da música-título Dínamo, gravada por Lô em dueto com o discípulo Samuel Rosa, o 15º álbum solo do artista se ressente de melodias mais envolventes. A impressão que fica é a de que Lô dissipou a intensa energia criativa ao fazer a música de canções como Apontando o norte, Desvario, Lava do vesúvio e Quantos janeiros.
Canção que caracteriza o amor como algoz, um animal feroz que pode atacar, O mundo gira sobre si sobressai na safra que destaca também a já apresentada música-título Dínamo. Mas nenhuma das dez músicas arrebata de fato.
Gravado e mixado pelo coprodutor Henrique Matheus em estúdio de Belo Horizonte (MG), o álbum Dínamo foi formatado sob a batuta do próprio Lô Borges, produtor musical do disco. A cama instrumental – armada por Lô (voz e violões) e Henrique Matheus (guitarras) com os músicos Fernando Monteiro (bateria), Nara Torres (percussões), Telo Borges (piano e teclados) e Thiago Corrêa (contrabaixo) – sustenta bem o cancioneiro de Lô e Makely dentro da habitual atmosfera zen do artista mineiro.
“Melhor seguir leve”, reforça Lô no verso-refrão de Outra canção. A questão é que, mesmo com a devida leveza, composições como Altajuda e Refúgio soam como canções genéricas na obra do compositor, jamais reacendendo o fogo sagrado da criação que sempre moveu o coautor de obras-primas como Para Lennon & McCartney (1970), O trem azul (1972), Paisagem da janela (1972) e Tudo o que você podia ser (1972).
Resta torcer para que no álbum de inéditas que já planeja para 2021 – disco que marcará a retomada da parceria de Lô com o irmão Marcio Borges, com quem já compôs três músicas – o artista de 68 anos seja mais rigoroso na criação das melodias para evitar o desperdício de energia que emperra o álbum Dínamo.