Linn da Quebrada vai do fundo do poço à ‘profundidade do posso’ na narrativa branda do álbum ‘Trava línguas’


Capa do álbum ‘Trava línguas’, de Linn da Quebrada
Wallace Domingues
Resenha de álbum
Título: Trava línguas
Artista: Linn da Quebrada
Edição: Edição independente da artista
Cotação: * * * 1/2
♪ Dois dias antes de Luísa Sonza se mostrar vulnerável em Doce 22, álbum apresentado no domingo, 18 de julho, Linn da Quebrada também revelou fragilidades ao disparar míssil confessional nos aplicativos de música.
Em rotação desde sexta-feira, 16 de julho, o segundo álbum de Linn, Trava línguas, flagra a artista paulistana em processo de questionamento, emergindo do fundo do poço para a “profundidade do posso”, como poetiza a intérprete em verso cantado sobre a batida eletrônica de Onde (Linn da Quebrada), uma das 11 músicas do disco orquestrado sob direção artística da própria Linn da Quebrada.
A propósito, na narrativa sonora de Trava línguas, Linn caminha em direção diferente do álbum antecessor Pajubá (2017), grito inicial de resistência da artista em mundo que oprime travestis e transexuais.
Harmonizados pela direção musical de BadSista (nome artístico da DJ paulistana Rafaela Andrade, produtora e arranjadora do disco), feita com a colaboração da percussionista Dominique Vieira, o discurso e o som de Linn da Quebrada estão mais brandos em Trava línguas.
A sonoridade de Medrosa – música criada pela cantora e compositora a partir de versos e falas da poeta e empregada doméstica Stela do Patrocínio (1941 – 1992), mantida involuntariamente internada em instituições psiquiátricas por cerca de 30 anos – ronda a praia da bossa nova, sem mergulhar de fato nas águas plácidas do som carioca.
Em Medrosa, aliás, Linn lista fragilidades na letra, em sintonia com o conceito reflexivo do disco, já esboçado em dezembro no tom de Quem soul eu (Linn da Quebrada, 2020), segundo single de álbum anunciado em novembro do ano passado com o lançamento da faixa Mate & morra (Linn da Quebrada, 2020).
Linn da Quebrada reúne onze músicas no segundo álbum, ‘Trava línguas’
Wallace Domingues / Divugação
Balada conduzida por toque de piano e aclimatada em ambiência íntima pelo sopro do trompete de Estefane Santos, Tudo (Linn da Quebrada) reitera a proximidade da artista com o universo da MPB mais orgânica, embora faixas como Cobra rasteira (Linn da Quebrada) situem o álbum Trava línguas no universo do pop eletrônico.
A propósito, Pense & dance (Linn da Quebrada e Rodrigo Polla) é música assumidamente formatada para a pista.
A pegada eletrônica do álbum ganha toque de latinidade em Dispara, música que flerta com o reggaeton e que tem versos em espanhol na voz de Luiza Nascim, vocalista da banda potiguar Luísa e os Alquimistas. Luiza assina a composição em parceria com Dominique Vieira.
Se descolado da sólida produção musical de BadSista, o repertório essencialmente autoral do álbum Trava línguas também revela fragilidades, embora soe harmonioso no conjunto da obra. Eu matei o Júnior, música composta e gravada por Linn com o toque da cantora e escritora baiana Ventura Profana, resulta insossa, por exemplo, do ponto de vista melódico.
A melhor música do disco, Amor amor, traz a assinatura de Linn como autora da melodia. Espécie de tecnomacumba que abre o álbum, Amor amor tem letra de Castiel Vitorino Brasileiro – criador da bela arte visual do álbum Trava línguas – e baixa no terreiro para elevar a autoestima de Linn da Quebrada com versos como “Eu amei, não fui amada, hoje sei o meu valor”.
Ao longo do álbum Trava línguas, Linn da Quebrada se confronta no espelho com Linna Pereira, cidadã nascida com o nome de Lino Pereira em 18 de julho de 1990 e revelada há cinco anos, já como Linn, com o single Enviadescer (2016).
Aos 31 anos, completados no domingo, Linn da Quebrada parece gostar do que vê no espelho, a julgar pela narrativa de Trava línguas, álbum em que a artista transita do fundo do poço para a “profundidade do posso”.