‘Lightyear’ mostra Pixar cada vez mais acomodada ao seguir fórmula de aventuras espaciais; g1 já viu


Estúdio abandona busca por inovações em animação previsível. Filme conta história do herói fictício que inspirou boneco de ‘Toy Story’. Por muitos anos desde que lançou o primeiro “Toy Story” (1995), a Pixar conquistou o público com uma busca marcante por inovações artísticas e narrativas. “Lightyear”, filme derivado do grande clássico, é a antítese da marca do estúdio – e deveria servir de alerta para uma empresa cada vez mais acomodada em seu sucesso.
A animação que estreia nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros segue tanto fórmulas de aventuras espaciais e da própria Pixar que mesmo seus melhores momentos não escapam do previsível.
No fim, o Buzz que finalmente estrela o próprio filme está a tantos anos-luz do carisma de seu boneco da franquia original que parece uma cópia genérica – e pouco justifica a existência de mais uma história de origem.
Assista ao teaser de ‘Lightyear’
O favorito de Andy
Antes mesmo da primeira cena, “Lightyear” tenta se explicar. Em “Toy Story”, o garoto Andy ficou muito feliz por ganhar um boneco baseado em um de seus filmes favoritos. A nova animação é, em teoria, este filme.
Por isso, o protagonista não é o mesmo personagem que o boneco (“buzzneco”, se preferir). Até os dubladores foram mudados (nos EUA, Tim Allen dá lugar a Chris Evans, o Capitão América. No Brasil, Guilherme Briggs passa o capacete para Marcos Mion).
A história acompanha o patrulheiro espacial Buzz Lightyear em sua tentativa de salvar toda uma colônia humana após a queda em um planeta hostil, situação causada claramente pela arrogância do próprio.
Cena de ‘Lightyear’
Divulgação
Para isso, ele mergulha em uma jornada por redenção constituída por diversas viagens próximas à velocidade da luz, em busca de um motor para levar todos a salvo para seu destino.
Infelizmente, a relatividade faz com que cada um dos voos dure minutos para o piloto e anos para aqueles na superfície.
Enquanto vê todos os amigos e colegas envelhecerem e viverem suas vidas nas frações de tempo que passa com eles, Buzz se mostra cada vez mais obcecado em consertar tudo sozinho – sem tempo para analisar se sua missão sequer faz sentido.
Cena de ‘Lightyear’
Divulgação
Infinito faltando
Se tivesse sido lançado no começo dos anos 1990, “Lightyear” talvez realmente fosse algo minimamente inovador. No entanto, pega emprestado tantas referências e sequências de filmes das décadas anteriores e posteriores que termina um tanto quanto datado.
Mais do que isso. A animação seria uma ótima oportunidade para explicar o que, exatamente, fazem os patrulheiros espaciais, organização que traz tanto orgulho ao brinquedo original. Ou então, quem sabe, de onde vem o ego sem tamanho que ambos compartilham.
Seria, mas aos poucos o filme se mostra uma sucessão de boas chances perdidas. A maior delas é o sentimento de que talvez a história da melhor amiga de Buzz, mulher que comanda a colônia ao longo dos anos e vive uma vida completa e realizada, seria muito mais interessante.
A frustração se equilibra com inúmeras situações inexplicáveis – como Buzz não sabia que cada teste duraria anos? – e referências tão óbvias que soam como uma mistura apressada de todos os filmes de aventura espacial dos últimos anos.
Cena de ‘Lightyear’
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Acorda, Pixar
O gosto ruim, é claro, é muito mais resultado de uma expectativa alta em público acostumado à excelência dos criadores de “Toy Story”, “Wall-E” (2008) e “Viva – A vida é uma festa” (2017).
“Lightyear” não é ruim, apenas é terrivelmente mediano. Há alguns vislumbres da inventividade da Pixar, como um assistente pessoal no corpo de um gato robótico que rouba todas as suas cenas, mas elas não vão muito longe.
Talvez o estúdio esteja satisfeito com o conforto da liderança sem riscos, enquanto vê novatos como a Sony (responsável por “Homem-Aranha no Aranhaverso”, a melhor animação dos últimos anos) assumirem a vanguarda das inovações.
Mas, para quem cresceu com a lembrança de ver “Toy Story” pela primeira vez no cinema e gostaria de passar a mesma sensação para os filhos, é muito pouco.
Cena de ‘Lightyear’
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