Líder sul-coreano tem futuro de desafios após cúpula Trump e Kim

Desde que assumiu governo, Moon prometeu solução para a guerra das Coreias

Desde que assumiu governo, Moon prometeu solução para a guerra das Coreias
Chung Sung-Jun/Getty Images/14.05.2017

Desde que Estados Unidos e Coreia do Norte anunciaram um acordo de total desnuclearização da península coreana e cooperação entre os dois países no último dia 12 de junho, Donald Trump e Kim Jong-un roubaram os holofotes da comunidade internacional. Nos bastidores da reunião histórica, entretanto, a figura de destaque foi o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que prometeu desde o início de seu mandato canalizar esforços para pôr um fim à guerra entre as Coreias.

“Muitas pessoas dentro e fora da Coreia subestimaram as capacidades de Moon Jae-in — o chamavam de frágil ou brando demais para defender suas posições na política. Até certo ponto, estavam certos, porque ele é moderado em sua abordagem, mas nem por isso ela é pouco efetiva. Quanto mais próximo Moon se tornou da Coreia do Norte e quanto mais ele mediou as conversas com os EUA de forma comedida, mais as pessoas perceberam que ele tinha boas qualidades de liderança”, comenta Hannes Mosler, professor assistente no Instituto de Estudos Coreanos na Universidade Livre de Berlim, da Alemanha.

Da infância humilde à presidência

Eleito em maio de 2017 com mais de 41% dos votos, Moon ascendeu ao poder em um pleito suplementar convocado após o impeachment da presidente conservadora Park Geun-hye, envolvida em um escândalo de corrupção, conforme explica Mosler.

“Moon é considerado progressista e venceu seu principal adversário, o conservador Hong Jun-pyo, com uma diferença de mais de 5 milhões de votos. Obviamente, o péssimo desempenho das administrações anteriores causou uma má impressão nos eleitores, o que levou à vitória esmagadora de Moon. Além disso, em termos de conteúdo, o programa dele pareceu refletir melhor o novo espírito do povo coreano, que está passando de uma sociedade conservadora para uma sociedade mais progressista e aberta, com valores cada vez mais liberais.”

Moon Jae-in, de 64 anos, nasceu na ilha de Geoje, na costa sul da província Gyeongsangnam-do, na Coreia do Sul. Seus pais eram refugiados norte-coreanos e, apesar de viver uma infância pobre, Moon sempre se destacou nos estudos e acabou por estudar Direito em uma universidade de Seul nos anos 1970. Ele se tornou um importante advogado de direitos humanos até trabalhar com Roh Moo-hyun — que foi presidente da Coreia do Sul entre 2003 e 2008.

“A própria trajetória de Moon contribuiu para sua vitória nas eleições em 2017. Ele foi secretário presidencial de Roh Moo-hyun no passado e, por isso, ganhou muita experiência com relação aos assuntos de Estado. E ele também concorreu à presidência em 2012 e já sabia jogar o jogo da campanha”, lembra o especialista.

Desafios internos

Negociações com Kim são maior conquista de Moon

Negociações com Kim são maior conquista de Moon
Korea Summit Press Pool/Getty Images/12.06.2018

Assim que assumiu o governo de seu país, Moon prometeu “abrir uma porta para uma nova República da Coreia”. Além da reaproximação com o Norte no campo externo, o líder contava com importantes desafios internamente. Recuperar a confiança da população no gabinete presidencial, após anos de lideranças corruptas, era um deles. A revitalização da economia e a criação de empregos — especialmente para a população jovem — também estavam em pauta.

“O desemprego entre os jovens tem sido um problema socioeconômico muito sério para os últimos três governos na Coreia do Sul, apesar do alto nível de educação da população nesta faixa etária. Os dados anunciados em junho mostram que há 400 mil formados em faculdades desempregados atualmente”, declara Jaewoo Choo, professor no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul.

Para Choo, Moon Jae-in ainda não fez nada de notável para criar empregos ou renovar a economia sul-coreana — o país é o quinto maior exportador do mundo e tem um PIB (Produto Interno Bruto) de 1,4 trilhões de dólares (aproximadamente R$ 5,4 tri), segundo o Banco Mundial. Fora isso, é considerado uma potência na fabricação de automóveis e celulares, sediando empresas como Hyundai e Samsung.

“O que Moon Jae-in fez foi aumentar o salário mínimo em mais de 15% neste ano. Espera-se que o valor suba ainda a 16% até o final de 2018. Isso vai prejudicar pequenas e médias empresas, levando muitas à falência ou à contração de mais dívidas. O preço de serviços públicos como água, transporte público e eletricidade também vai subir em 1º de julho”, avalia Choo.

Índices de aprovação

Presidente sul-coreano tem desafios na economia

Presidente sul-coreano tem desafios na economia
South Korean Presidential Blue House via Getty Images/29.07.2017

Levantamento divulgado nesta quinta-feira (28) pela Realmeter, empresa de pesquisa de opinião da Coreia do Sul, aponta que a aprovação de Moon gira em torno de 70,6% em seu país. O número parece alto, mas representa um declínio de 3,4% em relação à semana anterior — quando as políticas do presidente eram aprovadas por 74% da população. A agência de notícias sul-coreana Yonhap diz que a queda se dá, de fato, pela liderança econômica de Moon Jae-in: estudos recentes mostram que a criação de empregos nos primeiros cinco meses deste ano foi a mais baixa desde 2009.

Na opinião de Mosler, da Universidade de Berlim, seria precipitado analisar o desempenho de Moon na economia. “O aumento repentino do salário mínimo foi recebido de maneira controversa. Mas os desafios no campo econômico não podem ser facilmente resolvidos e exigem uma abordagem sustentável e de longo prazo. É cedo demais para esperar resultados concretos — estamos a pouco mais de um ano do início deste governo.”

O professor acredita que a melhora das relações com a Coreia do Norte e as negociações com os Estados Unidos são as maiores conquistas de Moon Jae-in por ora. “Há ainda quatro anos pela frente e os desafios de verdade começam agora. Tenho certeza de que o presidente deve manter seu estilo de liderança, mas isso pode ser insuficiente em um ambiente doméstico e internacional que não só muda muito rapidamente, como dificulta a implementação de políticas do jeito que Moon as planeja”, conclui.