Letras de músicas inéditas de Belchior são retratos da juventude do ‘Pessoal do Ceará’


Há pelo menos dez composições nunca gravadas do compositor, sendo que algumas também trazem as assinaturas de Fagner, Ednardo e Fausto Nilo. ♪ ANÁLISE – O baú de Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017) já começa a se revelar sem fundo, tal como o baú de Raul Seixas (1945 – 1989). Sabe-se que existem, pelo menos, dez letras de músicas inéditas em disco e creditadas ao compositor cearense, algumas em parceria.
Em entrevista ao jornal cearense Diário do Nordeste, o compositor piauiense Jorge Mello – parceiro de Belchior em músicas como Canção de gesta de um trovador eletrônico (1984) – revelou guardar cópias autenticadas de manuscritos de três letras inéditas de Belchior, escritas entre março e junho de 1968, em Fortaleza (CE).
Trata-se de Cateretê, O bailinho da ironia e Pobre rima, pobrezinha. Os manuscritos originais estão em poder da família de Belchior, tendo sido entregues pelo próprio Jorge Mello após a morte do compositor de Paralelas (1975).
Contudo, a descoberta mais substancial do baú de Belchior veio a público esta semana e foi feita por Renato Vieira, pesquisador musical que encontrou no acervo digitalizado do Arquivo Nacional nada menos do que sete letras de músicas inéditas creditadas a Belchior, sendo cinco assinadas com parceiros (Augusto Pontes, Ednardo, Fagner e/ou Fausto Nilo) e duas de autoria somente do autor de A palo seco (1973).
Enviadas para a censura federal entre 1971 e 1979, essas músicas jamais foram gravadas, embora a submissão delas à Divisão de Censura de Diversões Públicas indique que houve pelo menos intenções iniciais de registrar as composições em disco.
Letra de ‘Alazão’ (1972), música de Belchior, Fagner e Fausto Nilo
Reprodução
A descoberta dessas letras – alardeada por Renato Vieira na mídia a partir da publicação de nota na coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo – reacendeu a chama já alta do culto a Belchior, artista que teve a grandeza da obra corretamente dimensionada somente depois que morreu.
Ednardo revelou em rede social que pretende lançar ainda em 2021 a gravação de Bip… bip… (1971), parceria do compositor cearense com o conterrâneo Belchior relacionada entre as sete letras inéditas. Bip… bip… seria o primeiro single de álbum de inéditas de Ednardo.
Já Fagner expôs em entrevistas a intenção de gravar em disco as duas parcerias com Belchior que vieram à tona, Alazão e Posto em sossego, sendo que Alazão também tem a assinatura do poeta e letrista cearense Fausto Nilo. Ambas foram presumivelmente compostas em 1972, ano em que foi lançada a obra-prima da parceira de Fagner e Belchior, Mucuripe.
Uma análise das sete letras inéditas, quase todas escritas entre 1971 e 1972, em cidades como Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), mostra de antemão que nenhuma delas tem cacife para ombrear com os standards da obra angustiada de Belchior, cujo auge artístico aconteceu ao longo da década de 1970. Por isso mesmo, talvez tenham permanecido no baú há cerca de 50 anos.
Letra da música ‘Adivinha’ (1971), de Belchior
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Creditada somente a Belchior, Adivinha (1971) é flash de paixão juvenil por “menina linda demais” do qual ninguém sabe o nome. Já Alazão (Belchior, Fagner e Fausto Nilo, 1972) exala nostalgia, possivelmente do Ceará, terra natal do trio de compositores da música. A letra pode crescer se ganhar melodia melancólica.
Bip… bip… (Belchior e Ednardo, 1971) reproduz mensagem de telegrama, possivelmente enviado do Rio de Janeiro para alguém do Ceará na ficção dos versos. Com música, o recado de Bip… bip… pode vir a fazer mais sentido poético…
Já Baião de dois de vinte e dois (Belchior e Fausto Nilo, 1972) é música aquém da obra de Belchior e da poesia musical de Fausto Nilo, que ainda dava os primeiros passos como letrista no início dos anos 1970.
Com versos repletos de alusões ao universo religioso cristão, em sintonia com o fato de Belchior ter sido seminarista antes de desistir de ser padre para seguir a carreira artística, Fim de mundo (1972) é parceria do compositor com Augusto Pontes que cita na letra a cidade natal de Belchior, Sobral (CE).
Por fim, Outras constelações (Belchior), música de 1979, parece mais rascunho de versos do que letra finalizada. Talvez por isso tenha sido esquecida pelo autor que, na época, já era uma estrela.
Letra da música ‘Outras constelações’ (1979), de Belchior
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Desigual, a safra de letras inéditas de músicas de Belchior talvez gere frutos com as duas parcerias com Fagner e com a música feita com Ednardo, mas, em essência, retrata flashes juvenis do pessoal que descobrira a vida, a música e a poesia no Ceará.
Um pessoal talentoso que, entre 1971 e 1972, já tendo migrado para o Rio de Janeiro e São Paulo, queria mostrar ao mundo que existia. E mostrou.
Juntos ou separados, Belchior, Ednardo, Fagner e Fausto Nilo construíram obras imponentes na música popular do Brasil. Obras às quais essas letras inéditas nada acrescentam de realmente relevante, ainda que seja inegável o alto valor documental da descoberta do pesquisador Renato Vieira.