‘Katypédia’: G1 analisa todas as eras de Katy Perry até chegar ao novo ‘Smile’


‘Enciclopédia’ dos discos da cantora compara teor das letras, ‘dançabilidade’ e sentimentos mais comuns em cada música em duas décadas, do romantismo ao deboche; entenda em gráficos. Katy viu, Katy vê… A cantora que lança nesta sexta-feira (28) o seu sexto disco, “Smile”, mudou muito nos quase vinte anos de carreira. Katy Perry já foi cristã, debochada, tarada, séria, engajada e, agora, atormentada.
Para explicar cada era, o G1 organizou uma “Katypédia”. A análise usa algorítimos que identificam termos positivos ou negativos nas letras, e também classifica arranjos pelo teor dançante e elementos tristes – segundo métricas do Spotify.
Ouça acima o podcast G1 Ouviu, que repassa os seis álbuns, clique para ler a crítica completa do novo ‘Smile’ e veja abaixo a análise da carreira:
Todos os discos de Katy Perry, da esquerda, de cima: ‘Katy Hudson” (2001), “One of the Boys” (2008), “Teenage Dream” (2010), “Prism” (2013), “Witness” (2017), “Smile” (2020)
Divulgação
‘Katy Hudson’ (2001) – Devota, mas cansada
As palavras mais usadas no disco ‘Katy Hudson’ (2001)
G1
A frase “seu passado te condena” mete medo em muito artista. Mas, para Katy Perry, dá para dizer que o passado liberta e perdoa – no caso, perdão divino mesmo. O primeiro disco que ela lançou é de pop rock cristão.
Ela ainda assinava com seu nome real, Katy Hudson, quando lançou esse disco aos 16 aninhos. O som parecia uma mistura de Alanis Morissette e Diante do Trono. É bem diferente dos álbuns seguintes.
‘Arco-íris de sentimentos’ em Katy Hudson (2001), baseada na repetição de termos positivos ou negativos nas letras
G1
Como todo som gospel, o álbum tem um tom de expurgo. A análise das letras mostra um sentimento mais negativo, mas com uma busca por redenção. A palavra chave é “tired”, ou “cansada”, repetida mil vezes na música “My own monster”.
O disco ganhou alguns breves elogios na imprensa dos Estados Unidos, mas foi um fracasso de público. Ele vendeu 200 cópias e hoje é uma raridade entre os fãs. E um ponto totalmente fora da curva da carreira dela.
‘One of the boys’ (2008) – Quero garotos (e garotas)
Palavras mais comuns no disco ‘One of the boys’ (2008)
G1
Katy já se reinventou algumas vezes, mas a maior virada, de longe, foi com o segundo disco. É outra artista – até porque ela mudou o nome de Katy Hudson para Katy Perry. Mas a transição radical aconteceu aos poucos. Foram sete anos entre um disco e outro.
Nesse tempo, ela se mudou para Los Angeles, ficou amiga do Glenn Ballard, um produtor de pop-rock que era parceiro da Alanis Morissette, assinou contrato e depois foi abandonada pelo selo Columbia.
Depois, ela se aproximou de outro produtor, bem mais pop, Dr. Luke. E no caminho menos cristão, Kate compôs come ele a música “I kissed a girl”. A música sobre beijar uma garota de batom com gosto de cereja foi seu primeiro grande pecado e sua estreia no topo das paradas.
‘Arco-íris de sentimentos’ no disco ‘One of the boys’ (2008). , baseado em repetição de palavras positivas ou negativas nas letras
G1
Depois de sete anos penando nos bastidores musicais de Los Angeles, Katy finalmente conseguiu causar e chegar ao 1º lugar do Hot 100 da Billboard. Esse disco também rendeu outro grande single que chegou ao topo do top 40 adulto da Billboard, “Hot n cold”.
O índice de termos positivo nas letras aumenta (mesmo que ainda não predomine). Mas a mudança no som é ainda maior. A métrica do Spotify mostra bem como o disco inaugura a grande “fase feliz” da carreira de Katy Perry, com arranjos mais alegres. Só seria superado pelo seguinte…
O “índice de tristeza”, chamado de valência no algoritmo do Spotify, indica a predominância de arranjos mais tristes no espectro roxo, e menos tristes no espectro alaranjado. O primeiro disco, “Katy Hudson”, não está na análise pois não entrou no Spotify. O segundo e o terceiro discos, “One of the boys” e “Teenage dream”, são os que chegam mais longe na alegria e ficam aquém na tristeza
G1
‘Teenage dream’ (2010) – Califórnia com pimenta
Palavras mais comuns no disco ‘Teenage dream’ (2010)
G1
Um dado que ajuda a dar o tom apimentado do terceiro disco de Katy Perry é a palavra mais repetida nele: cock. “Peacock”, nome da faixa em questão, quer dizer “pavão”. Mas “cock”, repetida sozinha 34 vezes, é uma referência ao órgão sexual masculino.
O disco mais ousado foi também o mais ouvido. “Teenage dream” foi o primeiro álbum de uma cantora com cinco músicas em primeiro lugar na história parada principal de singles da “Billboard” nos EUA: “California gurls”, “ET”, “Teenage Dream”, “Firework” e “Last Friday Night”.
‘Arco-íris de sentimentos’ do disco ‘Teenage dream’ (2010), baseado em repetição de palavras positivas ou negativas nas letras
G1
O fenômeno rendeu três anos de divulgação, com direito a um marcante show no Rock in Rio 2011. Foi lá que rolou o inesquecível beijo no Júlio, de Sorocaba.
Katy Perry lança documentário sobre sua vida e turnê de 2011
‘Prism’ (2013) – Ando meio madura
Palavras mais comuns no disco ‘Prism’ (2011)
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Todo mundo tem que crescer e amadurecer. Para Katy, um suposto amadurecimento veio com o disco “Prism”, de 2013. A análise do Spotify mostra muito bem como ele tem arranjos menos felizes. Mas não chega a ser para baixo, como indica seu fator médio de “dançabilidade”.
Algoritmo do Spotify indica, a partir das batidas das músicas, os discos de Katy Perry que têm músicas mais dançantes (em laranja) ou menos dançantes (em azul)

E o principal é que ele continua com a mão forte dos produtores Max Martin e do Dr. Luke. Mesmo um pouco menos irreverente, ele tem músicas certeiras.
Um pop cativante que rendeu ainda dois hits no primeiro lugar nos EUA: “Dark Horse” (que incorporou as batidas arrastadas do trap lá em 2013, quando isso ainda não era tão clichê) e a colante “Roar”.
Entre um disco e outro, ela ainda emplacou no topo “Part of me”, do álbum “Teenage Dream: The Complete Confection”.
‘Arco-íris de sentimentos’ do disco ‘Prism’, de 2013, baseado em repetição de palavras positivas ou negativas nas letras
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‘Witness’ (2017) – Dançando no escuro
Palavras mais comuns no disco ‘Witness’ (2017)
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O quinto disco surpreendeu muita gente: era a Katy Perry de cabelo curto, com um discurso consciente. Mas ela segue a linha que já vinha traçando As músicas são ainda mais sérias, até sombrias, e ao mesmo tempo mais dançantes.
O grande exemplo disso, a música-chave do disco, é “Chained to the Rhythm”. Ela chamou esse single de “pop com propósito”. Era uma crítica a quem fica preso nas correntes do sistema e não questiona o mundo.
Katy se envolveu nas eleições de 2016. Ela subiu no palanque da Hillary Clinton, e estava empolgada com a perspectiva de ter a primeira presidente mulher dos EUA. Mas, assim como a campanha de Hillary, o álbum foi uma decepção de público. Não teve nenhum primeiro lugar.
Katy Perry canta em São Paulo em 2018
Celso Tavares/G1
Todo o ambiente era negativo. Para começar, o Dr. Luke, que foi importante na carreira da Katy, não participou. Já tinham rolado as denúncias de assédio da Kesha contra ele. E não dava mais para a Katy associar sua imagem ao produtor.
Mas a grande treta foi com a Taylor Swift. Elas trocaram muitas alfinetadas. O início parece ridículo, e é. Uma acusou a outra de roubar os dançarinos de turnê. E isso foi crescendo até a Katy dizer que a Taylor tentou destruir a reputação dela com os fãs.
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Taylor tinha lançado uma música que todo mundo entendeu como um ataque a Katy , “Bad Blood”. E, em “Witness”, a Katy gravou uma parceria com a Nicki Minaj, outra que não se bicava muito com a Taylor, chamada “Swish Swish”.
A análise do sentimento das letras capta essa “bad vibe”: pela primeira vez após dois discos de predomínio positivo, as letras voltam a ter mais termos negativos.
‘Arco-íris de sentimentos’ do disco Witness (2017), baseado em repetição de palavras positivas ou negativas nas letras
G1
‘Smile’ (2020) – A era atormentada
As palavras mais repetidas em “Smile”
G1
Katy Perry é uma palhaça triste não só nas fotos de “Smile”. Seu mundo colorido já foi desconstruído em baladas emotivas e no documentário “Part of Me”, mas agora ganha um álbum feito com essa intenção.
Katy Perry em fotos do álbum ‘Smile’
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Veja abaixo como a foto de divulgação do disco, acima, reflete os arranjos do disco, abaixo. As métricas do Spotify, baseadas nas primeiras faixas lançadas, mostram o álbum com o maior alcance emocional de todos: tem tanto arranjos alegres (campo laranja) quanto bem tristes (campo roxo).
O “índice de tristeza”, chamado de valência no algoritmo do Spotify, indica a predominância de arranjos mais tristes no espectro roxo, e menos tristes no espectro alaranjado. O primeiro disco, “Katy Hudson”, não está na análise pois não entrou no Spotify. O segundo e o terceiro discos, “One of the boys” e “Teenage dream”, são os que chegam mais longe na alegria e ficam aquém na tristeza
G1
A análise das primeiras letras tem uma armadilha. Ela mostra um sentimento positivo, mas há um porém: o algoritmo não é capaz de identificar ironias e metáforas.
O próprio “sorriso” do título é, na verdade, uma reflexão sobre a grande “fase feliz” dos discos de 2008 e 2010. Hoje, a cara de palhaça engana. Dá para dizer que Katy quer ser positiva. Mas ela nem sempre consegue… Leia a resenha completa.