Katana Zero é uma obra de arte que obriga o jogador a fazer escolhas morais

O game independente Katana Zero chegou e traz consigo uma dificuldade insana — além disso, escolhas morais igualmente malucas. O título distribuído pela Devolver Digital é um belíssimo compilado de pixel art com uso da técnica de fotografia aberração cromática (fenômeno que dá um efeito de “borrão” colorido), mas a excelência artística do jogo vai além.

Isso por que a arte de Katana Zero está não apenas no visual, mas também na excelente trilha sonora. Há faixas musicais de distopia cyberpunk que complementam o mundo criado pela Askiisoft, e envolvem o jogador nas sanguinárias missões de execução. É quase inenarrável a maneira como a ambientação do jogo prende a atenção do jogador enquanto lhe entretém.

Continuo: a arte de Katana Zero estende-se ao próprio gameplay. Embora não haja uma continuidade de golpes que culminam em estonteantes combos à la Devil May Cry, cada oponente que encosta em sua espada é uma vitória. Boa parte desta sensação se deve ao sistema de morte em apenas um golpe — tanto para inimigos quanto para você, espadachim conhecido como “O Dragão”. O conceito assemelha-se ao de Hotline Miami, outro título distribuído pela Devolver Digital.

Tal mecânica faz com que seja necessário estudar o ambiente que você vai explorar, e então prosseguir usando as técnicas de combate disponíveis: rolamento, que torna seu espadachim invulnerável por um breve período, desaceleramento de tempo, que pode auxiliar na previsão de golpes e disparos inimigos (e eventualmente no ato de refletir tiros), e os golpes de katana, obviamente. No entanto, fica o alerta: você vai falhar e morrer e, consequentemente, voltar no tempo para refazer aquela etapa da fase.

Neste mérito, há um estranho misto de fúria agonizante e vontade possuidora de dar continuidade à jogatina, mesmo após algumas 20 vezes falhando na mesma tela. Fúria por que a responsabilidade da sua falhas são exclusivamente suas — a única coisa que pode resultar na sua morte é falta de técnica ou estudo para enfrentar o que lhe espera. Vontade de dar continuidade por que o desejo de mostrar a si mesmo que é capaz de superar o mais bem calculado dos desafios é iminente.

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Há uma certa “matemática” envolvida no combate. É preciso tirar proveito das trajetórias dos inimigos para derrotá-los com a maior velocidade e em maior número possível para que tenha mais vantagens contra os outros perigos que ocupam a fase. Por exemplo, derrotar um inimigo estático próximo a uma porta junto com outro que movimenta-se perto dela é vantajoso, já que lhe poupa do risco de ser golpeado, de besteira, caso este estivesse andando longe dela. Além disso, é possível que haja outras ameaças à sua vida, como torretas automáticas cujos tiros podem ser refletidos apenas uma vez — assim, é necessário que você chegue à torreta no menor tempo possível para desabilitá-la e então enfrentar os outros inimigos.

Outro risco são os inimigos que utilizam escopetas — é virtualmente impossível escapar dos disparos destes já que apenas um estilhaço que te atinge vai derrubar o espadachim. Considerando isto, é necessário tentar eliminar os oponentes de shotgun antes de todos os outros que não possuam este tipo de arma de fogo.

Além disso, as lutas contra os chefões são excelentes. O jogo exige do jogador um nível superior de combate e conhecimento das mecânicas para usá-las da melhor maneira contra os oponentes — estes que são os poucos que precisam de mais de um golpe para serem derrotados (no entanto, você ainda cai com apenas um). Relato e confesso sem vergonha: um chefe em específico viu o rosto do Dragão mais de 20 vezes até que eu decorasse com precisão o tempo correto para desviar cada um dos ataques dele, e encontrasse o momento certo para aplicar os meus. O desafio foi imenso, mas a recompensa ainda maior. A satisfação é inenarrável.

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Curiosamente, em meio a um gameplay fluído e genuinamente gostoso, Katana Zero também excede na narrativa. Isso por que o jogo usufrui dos mistérios envolvidos em viagens temporais, o tratamento médico do samurai, guerra, transtorno de estresse pós-traumático e, principalmente, escolhas. Há decisões a serem feitas ao longo do game e elas podem influenciar significativamente no que acontece — deixo claro, não há uma alteração no destino do jogo, mas, sim, nos caminhos até chegar lá. As fases são fixas, mas o aprendizado que você adquire e a forma como seus conhecidos lhe tratam podem evoluir, regredir, ou manter-se paralisado.

Entre as escolhas, há algumas decisões morais que perpassam o personagem e fazem com que você, enquanto ser humano do outro lado da tela, questione-se o que é correto fazer. Particularmente, fiz uma decisão que eu considerava certa, mas o jogo fez bem em me lembrar que eu, Bruno, não existo naquele universo: quem está ali é o Dragão. Então, me vi obrigado a fazer a escolha imoral.

Destaco que ir contra seus princípios no game é no mínimo… Interessante. Enquanto você fatia os centenas e centenas de capangas no seu caminho até chegar no seu alvo de assassinato, há um espaço do seu cérebro que levanta o questionamento: “Por que eu estou fazendo isso?” No entanto, em meio a toda a beleza anteriormente citada, isso é esquecido. A espada corta sem piedade, deixando para trás litros de sangue e corpos desmembrados. Entretanto, o jogo faz questão de, ocasionalmente, te lembrar dos seus feitos, de colocar você no patamar doentio dos seus inimigos, destacando que você não é menos psicótico só por que fala menos do que os outros.

Como se não fosse intrigante o bastante, o título da Devolver termina de maneira misteriosa e horripilante. Aqui, prefiro não estender a explicação para que cada um vivencie o final da sua própria maneira.

De forma geral, Katana Zero pode muito bem ser um dos melhores games do primeiro semestre de 2019. Apesar da breve duração do jogo, que depende unicamente da sua aptidão com as mecânicas, o título entrega exatamente o que propõe e um mais, com uma narrativa verdadeiramente sólida e madura.

Katana Zero está disponível para Nintendo Switch e PC. Você pode adquiri-lo na loja da Nintendo, na Steam, no GOG.com, e no Humble Bundle.

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