Joyce Moreno celebra a arte do encontro de Áurea Martins e João Senise no álbum ‘Quase 50’


Texto da compositora contextualiza o disco em que a cantora de 81 anos se irmana com o artista de 32 anos na abordagem de músicas de Dorival Caymmi, João Donato e Tom Jobim. ♪ “A vida pode ser a arte do encontro, mas a arte também pode ser um encontro de vidas”, conclui Joyce Moreno, ao fim do texto escrito para o encarte da edição em CD do álbum Quase 50 – Áurea Martins encontra João Senise.
Ainda de acordo com Joyce, o encontro dos cantores cariocas – ele com atuais 32 anos completados em janeiro, ela com 81 anos festejados em junho – já estaria justificado somente pela abordagem de rara joia do cancioneiro de Johnny Alf (1929 – 2010), Gesto final (1982), entre as 13 músicas que compõem o repertório do disco gravado em fevereiro de 2020 e posto no mercado fonográfico pela gravadora Fina Flor neste ano de 2021, com edição em CD à venda através das redes sociais de Áurea Martins e de João Senise.
Gravado sob direção musical do pianista Gilson Peranzzetta, criador dos refinados arranjos, o álbum Quase 50 irmana Áurea e João entre solos e duetos.
A reunião das vozes acontece nas gravações de músicas como A rã (João Donato e Caetano Veloso, 1974), o buliçoso samba A vizinha do lado (Dorival Caymmi, 1946), o standard do jazz Just friends (John Klenner e Sam M. Lewis, 1931), Água de beber (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) – faixa em que a flauta de Mauro Senise procura outros caminhos harmônicos para o pioneiro afro-samba – e o samba-canção Sucedeu assim (Antonio Carlos Jobim e Marino Pinto, 1957), além da já mencionada Gesto final, a música de Genialf.
João Senise e Áurea Martins driblam no disco os quase 50 anos de diferença de idade entre os cantores cariocas
Marcelo Castello Branco / Divulgação
Sozinho, João Senise segue a trilha ruralista da toada-canção Tocando em frente (Almir Sater e Renato Teixeira, 1990), solando também Eu sei que vou te amar (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) e Obsession (Dori Caymmi, Gilson Peranzzetta e Tracy Mann, 1987).
Já Áurea cai sozinha no samba Bodas de ouro (Ivone Lara e Paulo César Pinheiro, 1997) e põe a voz maturada em todos os versos de Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011), além de dividir com Gilson Peranzzetta – com o pianista em rara aparição vocal – o canto de Alma no olhar, música inédita composta por Peranzzetta com Nelson Wellington para celebrar a voz e a existência dessa cantora diplomada na noite carioca.
Alma no olhar fecha Quase 50, disco de ótimo acabamento instrumental em que Áurea Martins e João Senise driblam as cinco décadas de diferença de idade entre os cantores para se irmanarem na abordagem de repertório de valor atemporal, em um encontro de vidas unidas pelo amor à música.