Jorge Portugal, mestre das letras, deixa obra relevante para a ‘massa dos homens normais’


Morte do compositor e poeta baiano traz à tona um cancioneiro banhado em ancestralidade afro-brasileira e entranhado na discografia de Maria Bethânia a partir dos anos 1980. ♪ OBITUÁRIO – Nada mais justo do que o compositor, poeta e professor baiano Jorge Portugal (5 de agosto de 1956 – 3 de agosto de 2020) ter carregado no nome o país da língua de Luís de Camões (1524 – 1980), também poeta, mas de além-mar.
Para citar verso de música do conterrâneo Caetano Veloso, o santa-amarense Jorge Portugal não somente roçou a língua de Camões com maestria, como a dominou com a força mansa dos poetas. Embora o cancioneiro do artista esteja essencialmente associado à Bahia, a obra de Jorge Portugal como compositor tem – ou pelo menos deveria ter… – dimensão nacional.
Não somente porque muitas das letras escritas pelo mestre para melodias de Roberto Mendes – compositor também nascido na interiorana cidade de Santo Amaro da Purificação (BA) – foram gravadas por Maria Bethânia, voz nobre vinda e projetada da mesma terra baiana para todo o Brasil. Mas porque, e sobretudo, a obra musical de Jorge Portugal é relevante, fundamental, e jamais deve ser minimizada pelo etnocentrismo carioca e paulista.
A morte de Jorge Portugal – ocorrida em hospital de Salvador (BA), em decorrência de problemas cardíacos, na noite de segunda-feira, 3 de agosto, dois dias antes do artista completar 64 anos – enluta a Bahia, mas deveria ser motivo de profunda tristeza em todos os recantos do Brasil.
A dor da gente com a tão precoce saída de cena de Portugal é a dor de nem poder (ou querer) chorar essa morte com a devida comoção porque a massa brasileira de “mansos meninos domados, massa de medos iguais” talvez nem tenha ciência da importância da obra desse poeta letrista cujos versos chegaram primeiramente aos ouvidos do Brasil, não pelas chulas e sambas de roda gravados por Bethânia a partir de 1983, mas pela voz do cantor e compositor baiano Raimundo Sodré, parceiro de Portugal na composição A massa.
Apresentada por Sodré no festival MPB-80, exibido pela TV Globo em 1980, os versos engenhosos da letra da música A massa já expuseram em escala nacional a poesia vivaz de Portugal.
Dali em diante, Jorge Portugal esculpiu e modelou poesia, em forma de letras de música, para a nem sempre atenta “massa dos homens normais”.
Maria Bethânia é a principal intérprete das letras de Jorge Portugal, a maioria escrita para músicas de Roberto Mendes
Jorge Bispo / Divulgação
Banhada pelas águas do mar da Bahia, a obra musical de Jorge Portugal – sobretudo a criada em parceria com Roberto Mendes, com toques caribenhos – poetizou a cultura afro-brasileira de todos os santos e orixás em músicas que, em maioria, encontraram o destino ideal na voz de Maria Bethânia quando a cantora começou a revolver memórias das águas e dos sons que a embalaram na infância santa-amarense.
Filosofia pura (1983), A beira e o mar (1984), Yorubahia (1986), Vida vã (1992), Iluminada (1996), Memórias das águas (2006), Memórias do mar (em parceria com Vevé Calazans, 2006) e Amor, festa e devoção (com Saul Barbosa, 2010) são músicas com letras de Jorge Portugal que encharcaram a discografia de Bethânia de baianidade nagô amorosa, festiva, devota da ancestralidade que enriquece e alimenta diariamente a cultura da Bahia que “está viva ainda lá”, como sentenciou Dorival Caymmi (1914 – 2014), pioneiro desbravador dos mares baianos.
Pelos depoimentos gratos e emocionados dos alunos do professor Jorge Portugal, postados em redes sociais assim que se espalhou a notícia da morte do poeta, o letrista de Alegria da cidade – música feita em parceria com Lazzo Matumbi e lançada em 1988 na voz de Margareth Menezes – foi mesmo uma alegria na cidade de Salvador (BA), onde o professor se formou em letras pela Universidade Federal da Bahia.
Para quem dá o devido valor à cultura produzida na Bahia com justificado orgulho negro, a existência do poeta e compositor Jorge Portugal, mestre das letras, foi uma benção dos deuses à “massa dos homens normais”.