Jards Macalé volta para curtir em live feita com violão, estranhezas e irritações


Jards Macalé em live solidária em favor da causa ‘#unidos pela música brasileira’
Reprodução / Vídeo
Resenha de live – Festivais Carambola e SeRasgum
Artista: Jards Macalé
Data: 2 de maio de 2020, das 22h20m às 23h05m
Cotação solidária: * * * * *
♪ “Fala alto, porra!”, se irritou Jards Macalé, quando começara a cantar o samba Antonico (Ismael Silva, 1950), ao ficar sem entender a instrução que lhe estava sendo passada de interlocutor oculto nos bastidores da primeira live do artista carioca.
“Falta cinco minutos?! !Esse negócio mal começou…”, dissera momentos antes para o mesmo interlocutor ao ser informado de que em breve teria que encerrar a apresentação que fazia na noite de sábado, 2 de maio, dentro da programação conjunta dos festivais Carambola e SeRasgum.
Diante do embaraço, Macalé nem terminou de cantar Antonico, o samba com o qual iria reforçar o incentivo de doações para profissionais sem renda por conta da paralisação do mercado de shows.
Sem fazer tipo ou gênero na primeira live da carreira, transmitida de Penedo, bairro do município fluminense de Itatiaia (RJ) onde o artista está em isolamento social, Macalé encarnou o anjo torto mencionado na letra de Let’s play that (Jards Macalé e Torquato Neto, 1972), uma das 13 músicas encadeadas pelo cantor no roteiro de live feita com voz, violão e as estranhezas e irritações típicas desse artista orgulhosamente desafinador do coro dos contentes.
Macalé em live feita no formato voz & violão na noite de sábado, 2 de maio
Reprodução / Vídeo
Aberta com Só morto (Burning night) (Jards Macalé e Duda Machado, 1969) e encerrada com citação de verso do samba Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973), a live de Macalé transcorreu no tom dissonante do artista.
Entre golpes rudes no toque do violão, marca de músicas como Hotel das estrelas (Jards Macalé e Duda Machado, 1970), Macalé reconstruiu o movimento rítmico dos barcos em Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e remoeu Mal secreto (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) antes de abrandar o canto e o toque do violão para apresentar Corcovado (Antonio Carlos Jobim, 1960) em registro melodioso.
Antes, quando foi cantar músicas do álbum Besta fera (2019), Macalé revelou que a gestação do disco começara justamente na casa de Penedo em que se confinou para evitar a contaminação pelo covid-19. Do repertório do álbum, o anjo torto deu voz a Trevas (música dos anos 1970 finalizada pelo autor para ser gravada em Besta fera) e a Obstáculos (Jards Macalé, 1969), composições sombrias, em sintonia com o estado de espírito do mundo diante da pandemia do coronavírus.
Na sequência, Macalé pediu para o público invisível aos olhos do artista fazer coro no refrão de Revendo amigos (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972), música de pegada nordestina evocada pelo toque do violão do músico.
“Estou ouvindo as palmas do alto da montanha. Não mereço tanto…”, gracejou, espirituoso, ao fim do número. Eterno anjo torto, Jards Macalé voltou para curtir na primeira live da carreira.