Japão facilita entrada de trabalhadores estrangeiros


Diante de grave falta de mão de obra, governo do país facilita regras de visto para emprego. Críticos da medida se dizem preocupados com o impacto de uma imigração em massa. Vista de Tóquio, no Japão
Toru Hanai / Reuters
Novos regulamentos para vistos japoneses entraram em vigor em 1º de abril, permitindo que mais imigrantes entrem no Japão para ocupar algumas das dezenas de milhares de vagas de emprego que estão atualmente esperando serem preenchidas.
Enquanto a comunidade empresarial japonesa acolheu os novos regulamentos com um suspiro de alívio, há muitos no Japão que dizem que o governo cometeu um erro e está colocando em risco os empregos, a harmonia social e até mesmo a segurança nacional.
A legislação, que foi aprovada em dezembro de 2018, inclui importantes revisões do sistema anterior para trabalhadores estrangeiros.
O novo visto tem duas versões, e ambas exigem que um candidato a emprego seja patrocinado por uma empresa japonesa. Trabalhadores em busca de trabalho também devem fornecer evidências de que passaram em vários testes, incluindo um exame de língua japonesa.
Quatorze áreas da indústria, incluindo serviços de alimentação, limpeza, construção, agricultura, pesca, reparação de veículos e operação de máquinas industriais, são cobertas pelo primeiro tipo de visto, destinado a pessoas com habilidades restritas de trabalho.
A permanência do trabalhador seria limitada a cinco anos, com a opção de renovação de visto. Os trabalhadores estrangeiros não poderiam trazer seus familiares para o Japão.
Já o segundo tipo de visto permite que trabalhadores qualificados tragam suas famílias para o Japão, se cumprirem determinados critérios. Críticos afirmam que o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe abriu uma porta para o assentamento permanente de imigrantes no Japão.
O governo insiste que os trabalhadores só permanecerão temporariamente no país e que não são imigrantes.
Mão de obra urgente
Analistas do setor dizem que a escassez de mão de obra do Japão precisa ser resolvida com urgência, embora avisem que os 47,5 mil vistos previstos para serem emitidos no primeiro ano e os 345 mil previstos para serem concedidos dentro de cinco anos ainda ficarão aquém do que as indústrias domésticas demandam.
“As estatísticas do governo e a indústria estão nos dizendo que o mercado de trabalho está completamente esvaziado”, ressalta Martin Schulz, economista sênior do Instituto de Pesquisa Fujitsu, em Tóquio.
“Com o boom no setor de construção antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, as empresas estão ficando desesperadas”, acrescenta, em entrevista à DW. “Estão achando muito difícil cumprir os requisitos de seus atuais projetos e se recusando a aceitar novos contratos.”
“As empresas que querem se mudar para novos escritórios estão sendo aconselhadas a esquecer isso nos próximos dois anos”, afirma, complementando que a situação é semelhante em praticamente todos os setores, até mesmo na agricultura.
Talvez o indicador mais sério de falta de trabalhadores possa ser visto nas onipresentes lojas de conveniência 24 horas do Japão.
Os detentores de licenças de funcionamento estão com dificuldades, trabalhando longas horas para conseguir manter suas portas abertas por todo esse tempo e atender aos requisitos de seus contratos de franquia.
Nos últimos anos, o Japão tem visto mais mulheres entrarem no mercado de trabalho, juntamente com um número crescente de pessoas idosas, quer adiando a aposentadoria ou retornando para suas antigas empresas, porque são requisitadas pelo mercado de trabalho. Apesar disso e das novas regras de visto, Schulz aponta que muitas vagas permanecem vazias.
Indústria elogia medida
Nobuyoshi Aoyama, um alto funcionário da Câmara de Comércio e Indústria do Japão, elogiou as ações do governo em uma coletiva de imprensa realizada pouco antes da entrada em vigor da nova regulamentação sobre vistos.
“Apreciamos o novo sistema, que aborda a questão da escassez de mão de obra”, sublinhou ele, acrescentando que também é vital para o país promover a “integração harmoniosa de estrangeiros” aos locais de trabalho e às comunidades.
No entanto, Schulz diz que há muitas pessoas críticas à ideia, citando manifestações em frente ao Ministério do Trabalho e protestos em empresas.
“Há muita resistência dentro do Partido Liberal Democrata, atualmente no governo, e em seus distritos eleitorais, onde há preocupação com o impacto que milhares de estrangeiros terão em suas comunidades”, ponderou, acrescentando que o Japão “não tem escolha” senão abrir sua portas para trabalhadores estrangeiros.
“Mesmo com mais automação e robôs, simplesmente não há pessoas suficientes.”
“Eu vejo essa medida [novas regras para vistos] como um teste para o país, enquanto eles experimentam as novas regulamentações e a integração de estrangeiros na sociedade japonesa”, diz. “Se essas pessoas conseguirem se encaixar, talvez as regras sejam relaxadas ainda mais no futuro, e mais estrangeiros possam vir com suas famílias.”
Barreiras à integração
Yoichi Shimada, professor de Relações Internacionais da Universidade da Província de Fukui, observa que a escassez de mão de obra está “paralisando” muitos setores industriais, enquanto a queda da taxa de natalidade e o envelhecimento da população do Japão indicam que é improvável que haja uma solução de curto prazo para o problema.
“É compreensível que a indústria tenha pressionado o governo a aprovar essas novas regulamentações sobre vistos, e que as empresas estejam aliviadas de que alguns de seus problemas de pessoal venham a ser resolvidos”, afirma. “Mas nada está sendo feito para responder às preocupações sobre tantos estrangeiros que chegarão ao Japão.”
Além dos problemas de assimilação social ou questões de barreira linguística, Shimada diz estar mais preocupado com o país de origem dos trabalhadores, acrescentando que apoia uma triagem cuidadosa dos candidatos estrangeiros.