Humor tipo exportação: como comédias brasileiras foram refilmadas na Coreia e México


Remakes de ‘Até que a sorte nos separe’, ‘Candidato honesto’ e ‘De pernas pro ar’ emplacaram fora do Brasil. Roteirista explica adaptações que podem ir parar nos EUA, Alemanha, Índia… Veja como comédias brasileiras foram refilmadas na Coreia do Sul e México
Campeões de bilheteria se tornaram “películas taquilleras”. Viraram também “블록버스터 영화”. Campeões de bilheteria em coreano, é claro.
Três franquias de comédias brasileiras foram parar na Coreia do Sul e no México (veja trailers acima). Podem parar também na Alemanha, Espanha, Itália e Índia. Juntos, esses filmes levaram mais de 25 milhões de pessoas aos cinemas do Brasil.
A história de uma família que ganha na loteria e perde tudo é contada em “Até que a sorte nos separe” (2012) e ganhou versão mexicana com “Pobre Familia Rica” (2020);
E se políticos não pudessem mentir? A pergunta foi respondida em “O candidato honesto” (2014) e em sua versão sul-coreana, de 2020;
Mas o campeão de adaptações é “De pernas pro ar” (2010). A saga de uma executiva que reinventa a carreira com um sex shop foi recontada no México (“Loca Por El Trabajo”, 2018) e na Coreia do Sul (“Woking-geol”, 2015).
As três versões do filme ‘De Pernas pro Ar’: brasileira (2010), sul-coreana (2015) e mexicana (2018)
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“De pernas pro ar” também deve ganhar uma adaptação alemã. Produtoras dos Estados Unidos, Espanha, Itália e Índia estão em negociação para levar aos cinemas locais as peripécias da personagem vivida por Ingrid Guimarães, segundo a revista “Variety”.
Paulo Cursino é roteirista desses três filmes adaptados. Ele já escreveu piadas para a TV (“Sai de baixo”, “A Grande Família”), mas os maiores sucessos da carreira são as comédias estreladas por Leandro Hassum.
“O cinema brasileiro tem potencial para competir com ideias de fora”, diz Cursino ao G1. “A gente está cumprindo a função de levar o humor brasileiro, a pegada brasileira para fora.”
Ponte aérea Brasília-Seoul
Leandro Hassum em ‘O candidato Honesto’ e Ra Mi‑ran em cena da versão sul-coreana do filme
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Leandro Hassum já interpretou três vezes o político João Ernesto. Tal qual seu colega brasileiro, a congressista Joo Sang-sook descobre que não pode mentir, durante a campanha em busca de um novo mandato.
A versão sul-coreana de “O Candidato Honesto” tem cenas iguaizinhas às do original e chegou ao topo da bilheteria local em 2020.
Mas nem sempre o roteiro é tão parecido com o original brasileiro. “De pernas pro ar” mudou muito nas versões gringas. Há cenas idênticas, como aquela do orgasmo com o coelho vibrador (veja as cenas no vídeo do topo), mas a trama tem mudanças.
“Na Coreia do Sul, eles aproveitaram a ideia central e aumentaram o personagem do marido”, compara o roteirista.
Já o mexicano “Loca por el trabajo” tem cenas mais absurdas e escrachadas do que o filme brasileiro, como a que a protagonista anda de montanha-russa com um coelho gigante de pelúcia.
Carrey, Hassum & Ra Mi-ran
‘O Candidato Honesto’ (2014) e a versão sul-coreana lançada em 2020
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“O ‘Candidato Honesto’ é um case bem curioso”, lembra o roteirista. “A ideia de não poder mentir já tinha sido explorada, como no clássico do Jim Carrey, ‘O mentiroso’. Depois que a gente fez, a gente descobriu que a primeira ideia era ser com político. Mas usaram advogado, porque político ‘não tinha salvação’.”
O sucesso de “Candidata Honesta” no mercado sul-coreano, com Ra Mi-ran no papel principal, fez com que uma segunda parte entrasse na pauta. O filme compensou o pouco tempo no cinema, por causa da pandemia, com boa performance no streaming.
“Nesse caso, foi a nossa produtora, Camisa Listrada, que negociou diretamente um contrato com compradores internacionais. Eles ficam em busca de projetos de sucesso para adaptação”, explica Cursino.
São comuns os eventos em que filmes são apresentados para produtoras de outros países interessadas em remakes.
‘Hasta que la suerte nos separe’
‘Até que a sorte nos separe’ (2012) e a versão mexicana ‘Pobre Familia Rica’ (2020)
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A adaptação mexicana de “Até que a sorte nos separe” iria se chamar “Hasta que la suerte nos separe”. O nome acabou mudando para “Pobre familia rica”.
O filme saiu no segundo semestre de 2020, com distribuição da Diamond Films e Silvia Navarro no elenco. A atriz mexicana conquistou fãs no Brasil com novelas como “Quando Me Apaixono”, “Meu Coração é Teu” e “Amanhã é Para Sempre”.
“Ele é muito parecido, é muito igual [ao original]. Tudo depende da criatividade, do valor da produção. Da nossa parte, não temos controle nenhum.”
Há cenas idênticas. Os cartões do protagonista ex-milionário são recusados um a um e ele tenta a sorte como instrutor de academia. O sobrepeso, no entanto, o faz parecer inadequado para o trabalho.
Humor com conceito
Cartaz da franquia ‘Até que a sorte nos separe’
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Cursino costuma citar uma expressão em inglês para explicar o sucesso das comédias que ele roteiriza: “high concept”.
“É aquela ideia que quando você conta pra alguém, a pessoa vê o potencial de um filme, já vem um trailer na sua cabeça”, resume.
“Essas comédias têm uma ideia que traz uma novidade dentro de uma familiaridade. A pessoa pensa: ‘eu já sei o que vou ver e o que quero ver’.”
Cursino cita a trilogia “De volta para o futuro” como um bom exemplo de “high concept”. “Junta a ideia de máquina do tempo, que já tinha sido explorada, mas no universo do adolescente, do rock. Mistura a familiaridade com a novidade.”
‘Just Another Christmas’
Leandro Hassum em ‘Tudo bem no natal que vem’
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O mais novo candidato a remake gringo roteirizado por Cursino é “Tudo bem no natal que vem”. A comédia estreou na Netflix no fim de 2020. Uma produtora americana entrou em contato para fazer uma versão em inglês.
A performance na plataforma de streaming chamou a atenção: ele chegou a ficar entre os dez mais vistos dos Estados Unidos.
“A gente trabalhou um formato clássico de natal, com uma temática universal, mas com cara brasileira. Ninguém pode dizer que ele não é bem brasileiro.”
Talvez por isso, nem todo mundo entendeu de primeira os personagens do filme estrelado por Hassum. “Teve um comentário que um espectador do Irã enviou pra gente: ‘Achei que vocês falam muito alto e se tocam demais’.”
Tá, mas isso já aconteceu antes?
‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’ (1976) e a versão americana ‘Meu Adorável Fantasma’ (1982)
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Antes, o caso de adaptação de comédia brasileira mais conhecido era o de “Dona Flor e seus dois maridos”, baseada no livro de 1996 escrito por Jorge Amado.
A trama rendeu um filme americano (“Meu Adorável Fantasma”, de 1982, com Sally Field) e uma novela mexicana na Televisa, em 2019.
No Brasil, foram dois filmes e uma minissérie. A mais recente, exibida nos cinemas de 2017, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Sempre ele.