Hiperinflação, tombo de 60% do PIB em 6 anos, crise do petróleo: entenda o colapso econômico da Venezuela


FMI e Banco Mundial projetam queda de 25% no PIB da Venezuela em 2019. Já a inflação do país deverá chegar até o final do ano em 10.000.000%. A Venezuela vive a maior recessão de sua história. Já são mais de 5 anos de retração econômica, em meio a um cenário de hiperinflação, caos políticos, aumento da pobreza e de êxodo de venezuelanos para países vizinhos como o Brasil.
Em 2018, o PIB venezuelano caiu 18%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial projetam que o Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela irá recuar 25% em 2019. Com isso, a queda acumulada do PIB venezuelano deverá chegar a 60% em 6 anos.
Já a inflação do país deverá chegar até o final do ano em 10.000.000%, segundo as estimativas dos órgãos internacionais. Isso significa você multiplicar por 100 mil o preço de um produto.
Em relatório publicado no começo de abril, o Banco Mundial atribuiu a “implosão” da Venezuela à gestão da economia, além da queda nos preços internacionais do petróleo.
O presidente Nicolás Maduro atribui a crise à “guerra econômica” dos Estados Unidos e das empresas, mas críticos do governo e economistas dizem que as distorções se devem ao modelo de controles estatal e a má administração.
Confira a seguir os principais fatores que ajudam a explicar o colapso econômico da Venezuela:
Protestos se multiplicaram na Venezuela por causa de interrupções nos serviços de água e luz
Federico Parra/AFP
Crise do petróleo
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo – e o recurso é praticamente a única fonte de receita externa do país.
Até 2014, o governo venezuelano, que controla a exploração, foi beneficiado pela valorização do produto, que permitiu inclusive o financiamento de obras e projetos. Naquele ano, porém, o preço do barril no mercado internacional despencou, reflexo da demanda menor que a esperada na Europa e na Ásia, entre outros fatores. A Venezuela, portanto, passou a receber menos dinheiro pelo produto.
No início daquele ano, depois de ter alcançado um pico de US$ 138,54 em 2008, o preço do barril de petróleo era negociado a cerca de US$ 100 dólares e caiu pela metade no fim do ano, mantendo essa queda significativa até este ano. Atualmente, tem sido negociado ao redor de US$ 75.
A produção de petróleo no país caiu fortemente devido, em parte, à falta de recursos disponíveis para investimentos. Em 1999, a Venezuela produzia 3 milhões de barris por dia. No final do ano passado, eram cerca de 1,5 milhão, o volume mais baixo em 33 anos. Em março, encolheu para 960 mil barris.
“O país perdeu com a derrocada do petróleo e com o erro, dos governos Chávez e Maduro, de não diversificar as fontes de receita”, disse em entrevista ao G1 o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Juliano da Silva Cortinhas.
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A queda da produção é atribuída principalmente pela má gestão da PDVSA, a Petróleos de Venezuela, estatal que gere a exploração do recurso no país com exclusividade. Em 2007, Chávez ordenou que todas as empresas estrangeiras cedessem a maior parte do controle de suas atividades de exploração ao Estado venezuelanos. Companhias com o a Exxon não aceitaram, tiveram seus bens confiscados e batalhas jurídicas por indenizações se desenrolam até os dias atuais, segundo mostrou reportagem da BBC Brasil.
Imagem mostra quantos bolívares eram necessários para comprar um frango na Venezuela em meados do ano passado
Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Hiperinflação
Com a queda do preço do petróleo e uma redução no fluxo de divisas, o governo passou a imprimir mais dinheiro para cobrir o rombo nas contas públicas e isso foi gerando cada vez mais inflação.
Em agosto de 2018, numa tentativa para tentar conter a inflação, o governo de Nicolás Maduro um corte de cinco zeros da moeda local, que passa a se chamar bolívar soberano. Mas se naquele ano a inflação era estimada em 1.000.000%, para 2019 passou a ser projetada em 10.000.000% ao ano.
A hiperinflação fez com que faltassem até cédulas de dinheiro circulando, já que as pessoas passaram a precisar de muito mais dinheiro para comprar qualquer coisa.
Com a deterioração da situação, o chavismo adotou uma espécie de controle artificial da inflação: obrigava os comerciantes a adotarem um preço abaixo do que eles gastavam para produzir, porque precisavam importar os insumos. Então, indústrias e comerciantes começaram a quebrar.
A hiperinflação provocou uma pulverização da renda e a pobreza aumentou. Em 2017, o índice de pessoas na linha da pobreza no país de 30 milhões de habitantes chegou a 87%, um aumento de 40 pontos percentuais em três anos, segundo levantamento da Universidade Católica Andrés Bello, citado por reportagem da BBC.
O Estado também viu seus gastos públicos aumentarem para conseguir manter os programas sociais, o que complicou ainda mais a situação fiscal do país. A dívida externa aumentou em cinco vezes, com estimativa do FMI de bater os US$ 159 bilhões neste ano, segundo a BBC. Em 2015, a dívida era de US$ 31 bilhões, segundo estimativas do FMI.
Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante apresentação de nova moeda do país
Palácio Miraflores/Divulgação via Reuters
Desabastecimento e sanções
Com o controle de preços, o setor privado foi levado a substituir a produção própria pelas importações mais baratas, subsidiadas pelo governo.
A Venezuela passou a depender mais e mais de importações – de alimentos e medicamentos até pneus e peças de reposição para o sistema de metrô das grandes cidades. Nos dois últimos anos, com menos dinheiro para importação, a questão do desabastecimento – e, consequentemente, da fome – se agravou.
Mais recentemente, a população também passou a sofrer com apagões e falta de água. Em março, uma sequência de blecautes paralisou boa parte da Venezuela durante ao menos 11 dias. Foi o mais longo da história do país. Por causa disso, grupos favoráveis e contrários a Nicolás Maduro convocaram grandes manifestações pelo país.
Já bastante fragilizada, a economia sofreu outro grande abalo em 2018, quando os EUA impuseram sanções ao país e a alguns de seus cidadãos. O governo Trump proibiu a realização de transações com títulos da dívida da Venezuela e de outros ativos. A medida, adotada após a reeleição de Maduro para a presidência.
Em março, os Estados Unidos impuseram novas sanções à Venezuela, elevando a pressão sobre o governo Maduro.
O governo Trump foi o primeiro a reconhecer Juan Guaidó como presidente autoproclamado da Venezuela. Em janeiro, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou uma declaração em que não reconhece a legitimidade do novo mandato de Nicolás Maduro.
Família venezuelana é expulsa por brasileiros que vivem em Pacaraima, ao Norte de Roraima
Inaê Brandão/G1 RR
Fome e êxodo
Desde 2015, quando o colapso econômico na Venezuela se intensificou, venezuelanos cruzam diariamente a pé a fronteira com o Brasil em busca de melhor qualidade de vida.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) prevê mais de 5 milhões de imigrantes da Venezuela em 2019, um fluxo migratório equiparado aos provocados por guerras como a da Síria e do Afeganistão. Os imigrantes da Venezuela estão majoritariamente na Colômbia (1,2 milhão), Peru (700.000), Chile (265.800), Equador (250.000), Argentina (130.000) e Brasil (100.000)
O relatório da OEA apontou que 87% dos lares venezuelanos estão abaixo da linha da pobreza, contra 50% em 1996, e informa que a pobreza extrema supera 60%.
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