Harley-Davidson sem ronco: veja como anda a primeira moto elétrica da história da marca


LiveWire deve chegar ao Brasil em 2020 como primeira elétrica de uma grande montadora. Aceleração e agilidade surpreendem, mas preço estimado em R$ 120 mil é alto. Harley-Davidson LiveWire elétrica: G1 avalia o modelo
Por mais de 115 anos, a Harley-Davidson evoluiu suas motos, mas sempre mantendo uma característica fundamental: o ronco dos motores. Como a cor da Coca-Cola ou o sabor do Big Mac, aquele som especial estava lá, tanto que se criou a expressão “barulho de Harley”.
Atrás de pioneirismo e de um novo público, a empresa está prestes a lançar sua primeira moto elétrica. Sem marcha e câmbio, ela abandona o som ritmado dos pistões dos tradicionais V2 da Harley. No lugar, tem um zunido que lembra o de um avião, mas bem mais suave.
O quanto roda, onde recarregar, custo… como é o dia a dia com carros elétricos
A LiveWire começa a ser vendida nos Estados Unidos no mês que vem. O G1 foi a Portland, nos Estados Unidos, para experimentar a moto que custa US$ 29.799 — o que equivale a R$ 118 mil na cotação atual.
A expectativa é que a LiveWire desembarque no mercado brasileiro em 2020 por um valor estimado de R$ 120 mil.
Se vier, provavelmente ela não terá concorrentes num primeiro momento. Mesmo nos EUA, são poucas as opções elétricas. O segmento está nas mãos de startups e a americana Zero aparece entre as marcas mais consolidadas.
Harley-Davidson LiveWire e Zero SR/F
Guilherme Pinheiro/G1
Elétricas ainda ‘engatinham’
Por que a Harley quis investir nesse nicho? O fator “inovação” foi altamente importante: a famosa marca de motos busca uma nova imagem, mais tecnológica, mas também está atrás de novos consumidores.
Nos primeiros seis meses de 2019, as vendas da Harley-Davidson caíram 6,6% globalmente. Para reverter esta situação, a empresa planeja também lançar um modelo aventureiro e até motos de baixa cilindrada.
Com a LiveWire, a Harley se torna a primeira grande montadora a investir em uma moto elétrica — um mercado que ainda está restrito basicamente a scooters de pequeno porte ou bicicletas elétricas, que têm a China como grande mercado.
Harley-Davidson LiveWire é primeira elétrica da história da marca
Rafael Miotto/G1
Motor tem ‘pulsação’
Com chave presencial, basta tocar em dois botões do lado direito da manopla da LiveWire, um para ligar a interface da moto e outro para fazer o motor funcionar.
Assim que ela é ligada, silêncio. O que acontece é uma leve pulsação proposital que vem do motor, parecida com um telefone celular vibrando.
A sensação é um pouco estranha, mas é realmente importante para a segurança: serve para saber que o moto está ligada e evitar acelerar sem querer. Essa foi uma das evoluções em relação ao protótipo de 2014, que o G1 também avaliou.
Nesse ponto a moto está pronta para rodar. Como é comum nos veículos elétricos, o torque chega quase instantaneamente. Ao girar o acelerador você já tem disponível os 11,83 kgfm de torque máximo, que se mantém todo o tempo.
Mas a aceleração é bem dosada, na hora da partida. Isso faz a moto ser mais dócil na saída.
É mais uma evolução em relação ao conceito, mesmo a versão de produção sendo mais potente — a moto passou dos 74 cv de 5 anos atrás para 110 cv agora.
Aquelas manobras em baixa velocidade feitas com o uso da embreagem também não são problema na LiveWire. Isso acontece, novamente, graças ao afinamento dado ao acelerador, que permite fazer “slalons” mesmo sem a alavanca no lado esquerdo do guidão.
Mas como é o barulho?
Ao pilotar, a sensação a de estar em um veículo futurista. A Harley elétrica vai de 0 a 100 km/h em 3 segundos e “pula” para os 130 km/h em mais 1,9 segundo, o que a torna digna de comparação com a Ferrari F8 Tributo.
O zunido que lembra o de um jato de avião foi afinado pela Harley para ser impactante — e realmente chamou a atenção dos passantes nos cerca de 100 km rodados pelas ruas e estradas de Portland.
Harley-Davidson LiveWire
Rafael Miotto/G1
Pode ser que os puristas não gostem desse som, mas ele não deve em nada ao barulho tradicional — com sua característica própria, é claro. Além disso, o som da elétrica não é tão intrusivo como os das motos tradicionais, o que é bem vindo ao meio-ambiente.
Quando a moto para, o silêncio é absoluto, tornando viagens em grupo mais agradáveis. Outra característica essencial é o baixíssimo nível de vibração, algo que está anos-luz à frente de motos movidas à combustão.
Harley esquenta? Não mais com a LiveWire. Era um dia de quase 30 ºC em Portland, na volta para a cidade nem o engarrafamento fez a moto esquentar. No máximo, motor e bateria ficam meio mornos.
Uma Harley que gosta de curvas
Claro que a maior expectativa sobre a LiveWire era sobre seu motor por quebrar um paradigma centenário da marca, mas ela vem para romper com outro estigma. É de conhecimento geral que as motos Harley-Davidson não são tão ágeis em curvas.
Isso tem a ver com o peso, que em certos modelos convencionais passa dos 300 kg, e o próprio estilo da marca, focado em motos grandonas, dos segmentos custom e touring.
Mais compacta, a LiveWire é uma verdadeira naked – como são conhecidas motos esportivas, e sem carenagens. Ela é capaz de fazer curvas como nenhuma outra Harley, além de ser a mais ágil da marca também.
Harley-Davidson LiveWire roda pelas estradas de Portland, nos EUA
Divulgação
Mas ainda é uma moto pesada: são 249 kg. Uma Honda CB 1000R, por exemplo, que é uma naked tradicional movida a combustível, tem 199 kg.
As motos elétricas ainda têm muito a evoluir neste sentido, principalmente por causa das baterias, que são extremamente pesadas. Mesmo assim, a LiveWire é mais leve que a Harley Sportster 883, por exemplo, que tem 256 kg e é a moto de entrada da montadora no Brasil.
Harley-Davidson LiveWire tem suspensões com multiplas regulagens
Rafael Miotto/G1
Apesar de não poder ser considera leve, a moto tem o peso bem centralizado na bateria e motor, o que ajuda na estabilidade em curvas. Com a ajuda de um sistema de suspensões bem ajustado, a LiveWire não é tímida na hora de inclinar.
Na dianteira, possui suspensão do tipo invertida “Big Piston Fork”, enquanto a traseira conta com monoamortecedor – ambos da marca Showa e com múltiplas regulagens.
Harley-Davidson LiveWire rodando pelas ruas de Portland
Divulgação
Freio motor ajuda na pilotagem
Com a aceleração brutal durante o trajeto e todo este peso, parar a LiveWire poderia ser preocupante.
O modelo conta com freios ABS, com atuação em curvas, e dois discos de 300 mm, na dianteira, e disco de 260 mm, na traseira. Mas o que faz grande diferença é o freio motor.
Em muitas ocasiões, nem é preciso beliscar os freios antes das curvas, porque o trabalho de reduzir a velocidade é feito ao tirar a mão do acelerador.
Além de tornar a pilotagem mais segura, o recurso ajuda na regeneração da bateria. A aceleração contundente, somada à desaceleração do freio motor e à estabilidade da moto, faz você se sentir como se estivesse nos trilhos de uma montanha-russa, mas extremamente controlada.
G1 avalia a Harley-Davidson LiveWire em Portland, nos Estados Unidos
Divulgação
Com a ajuda dos modos de pilotagem, que são 7 no total, a experiência ainda pode mudar. Além de alterar o impacto da aceleração, os “mapas eletrônicos” modificam o funcionamento do ABS, controle de tração e até do freio-motor.
Desde o mais esportivo “Sport”, até os modos “Rain”, para pisos molhados, ou “Range”, onde a autonomia é priorizada. Depois de rodar os 100 quilômetros com a LiveWire, metade da bateria ainda estava cheia.
O quanto roda com uma carga?
De acordo com a montadora, a moto é capaz de rodar até 235 quilômetros com uma carga completa da bateria em percursos urbanos. Em uso misto, com ciclos urbanos e na estrada, são cerca de 152 km.
Harley-Davidson LiveWire sendo recarregada
Divulgação
Esse foi um problema resolvido em relação ao protótipo, que tinha autonomia de apenas 85 km.
Mesmo assim, ainda não dá para fazer longas viagens com segurança de que a carga vai durar.
A bateria leva 40 minutos para carregar 80% e 1 hora para chegar aos 100%, no sistema de recarga rápida. Em uma tomada convencional, o conjunto de baterias leva 12,5 horas para completar a carga.
A entrada do carregador na LiveWire é do “tipo 2”, considerada a mais comum para carros elétricos, o que deve facilitar a operação. Ela é a mesma do Chevrolet Bolt, por exemplo.
Painel da Harley-Davidson LiveWire
Rafael Miotto/G1
Visual ficou mais equilibrado
Ao avistar a LiveWire depois de 5 anos, o primeiro detalhe a chamar atenção foi ver como o visual mudou. Apesar de manter a essência de 2014, agora a moto parece de fato uma Harley-Davidson.
O farol dianteiro ganhou carenagem que remete a outros modelos da empresa, como recém-chegada FXDR, além de o tanque falso que segue bem o estilo da marca fazer lembrar que ali está uma H-D.
Como era a LiveWire em 2014
Peter Reitzfeld / Divulgação
Ainda na dianteira, os retrovisores passaram para cima do guidão, o que melhora a visualização. No protótipo, eles ficavam abaixo da linha do guidão.
Mas as semelhanças com o tradicional começam a parar por aí. Seu estilo é esportivo de uma verdadeira naked. O conjunto óptico traseiro fica em um suporte fixado na roda traseira, o que mostra outra mudança em relação ao protótipo.
Carenagem dianteira da Harley-Davidson LiveWire
Rafael Miotto/G1
Em 2014, a LiveWire ainda trazia a luz de freio na rabeta, enquanto apenas as setas ficavam abaixo. Apesar de menos revolucionário, o visual ficou mais equilibrado na moto. A nova dianteira serviu para deixá-la mais harmonizada, já que no centro da moto a grande bateria rouba a atenção.
Harley-Davidson LiveWire
Rafael Miotto/G1
Concorrente de peso
Como a Harley divulgou por diversas vezes quando lançaria sua elétrica, sua principal concorrente nos Estados Unidos se antecipou.
A Zero Motorcycles, que atua no segmento das elétricas há mais de 10 anos, apresentou no início de 2019 a SR/F, que parece ser uma resposta clara contra a LiveWire.
Zero SR/F
Divulgação
Como atrativos, a motos traz valor mais acessível, partindo de US$ 18.995, além de uma ficha técnica com alguns dados superiores ao da Harley.
O futuro das motos será elétrico?
Com o lançamento da LiveWire, a tendência é que outras fabricantes de peso mostrem suas motos elétricas em breve. Sua chegada é um ponto de transição na história das motos, que devem seguir o caminho elétrico.
Mas a mudança é ainda maior para a Harley-Davidson, que corre um risco saindo de sua zona de conforto. O resultado foi a criação do melhor modelo já feito pela fabricante em termos mecânicos.
O valor ainda é alto e acaba sendo impeditivo para que a LiveWire se torne uma moto popular, mas essa não é a intenção da Harley. A montadora promete ter toda uma linha de motos elétricas no futuro, com scooter e bicicletas, deixando a moto como seu modelo mais luxuoso desse tipo.
G1 rodou com a Harley-Davidson LiveWire elétrica em Portland
Divulgação