‘Halloween Kills’ traz mais sangue e menos suspense para a franquia de terror; g1 já viu


Sequência traz elementos dos dois primeiros filmes da série, mas tropeça ao não escapar de clichês do estilo. Jamie Lee Curtis é pouco aproveitada e tem pouca relevância na trama. A proposta do “Halloween” de 2018 era interessante: esquecer todas as continuações (muitas delas realmente descartáveis) e se concentrar no embate entre Laurie Strode (Jamie Lee Curtis, de “True Lies”) e o psicopata Michael Myers (James Jude Courtney /Nick Castle). Eles voltariam a se enfrentar 40 anos depois do primeiro filme.
Além disso, a ideia era manter o clima do clássico dirigido por John Carpenter. A ideia agradaria fãs de longa data, mas também poderia inserir elementos e atrair o público que não conhecia o assassino que inspirou outros ícones do cinema de terror, como o Jason de “Sexta-feira 13”.
Assista ao trailer do filme “Halloween Kills: O terror continua”
O resultado dividiu opiniões, mas conseguiu seu intento de dar um novo fôlego à franquia, deixando muita gente na expectativa de ver uma possível sequência.
É uma pena, no entanto, que “Halloween Kills: O terror continua” acrescente pouca coisa de relevante tanto para a mitologia de Michael Myers quanto para produções do gênero. O filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira (14).
A trama começa alguns minutos depois do filme de 2018, quando Laurie, sua filha Karen (Judy Greer) e sua neta Allyson (Andi Matichak) acreditam ter acabado com Michael Myers de uma vez por todas numa casa em chamas. Elas vão para um hospital cuidar dos ferimentos da matriarca.
Michael Myers volta a atacar numa cena de “Halloween Kills”
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Só que Myers acaba escapando e continua sua matança desenfreada na cidade de Haddonfield. Para impedi-lo, um grupo de moradores liderado por Tommy Doyle (Anthony Michael Hall), uma das crianças que sobreviveu aos ataques do psicopata há 40 anos, resolve caçá-lo antes que ele cause mais mortes. Mas o que eles vão descobrir é que isso não será nada fácil.
Volta às raízes
Uma sacada interessante de “Halloween Kills” foi se valer de efeitos visuais e truques de montagem para trazer de volta o Dr. Loomis, o principal adversário de Myers.
Imortalizado pelo já falecido Donald Pleasence, são usadas cenas dos dois primeiros filmes da franquia, além de novos elementos. É uma homenagem interessante. Curiosamente, ela contradiz a proposta original de só se valer do clássico original como referência das novas produções.
Michael Myers ataca mais uma vítima em “Halloween Kills”
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O filme, na verdade, dá a impressão de que é um remake disfarçado de “Halloween II”. Ainda mais porque boa parte de sua trama se passa num hospital enquanto Laurie se encontra enfraquecida pelo confronto contra o assassino mascarado, assim como na sequência de 1981.
A única diferença é que, desta vez, o local não está praticamente deserto, uma das críticas feitas sobre o terror na época.
Agora, tem gente até demais na unidade de saúde, que gritam, correm de um lado para outro e intensificam a sensação de caos e pânico que nunca gera o efeito esperado. A não ser distrair o público do que muitos querem ver no filme, que é Michael Myers matando e escapando da morte de maneiras diversas.
Allyson (Andi Matichak) tenta fugir de um assassino em “Halloween Kills”
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Sem sutilezas
Falando no modus operandi de Myers, um dos pontos positivos do filme é que as cenas dos assassinatos são bem elaboradas, embora tenham perdido a sutileza que o diretor David Gordon Green tentou imprimir no primeiro filme.
O cineasta, que também comanda essa continuação, decidiu apostar mais nas mortes com muito mais sangue e tripas das vítimas do assassino, como o público atual gosta de ver. No entanto, Green deixou de lado a vontade de criar um clima maior de suspense, rendendo-se a sustos fáceis e “telegrafados”, o que tira um pouco da graça.
Além disso, o roteiro escrito pelo diretor e mais dois parceiros peca em não conseguir fugir dos clichês do terror. A aposta é em personagens pouco expressivos, como o casal homossexual que mora na antiga casa de Michael Myers. Eles são responsáveis pelo humor pouco inspirado que aparece na tela.
Isso sem falar na tentativa desastrada de relacionar a psicopatia de Myers à agressividade que as pessoas passam a ter em seus cotidianos, tornando-as tão monstruosas quanto o Bicho Papão que as amedronta.
Jamie Lee Curtis vive Laurie Strode mais uma vez em “Halloween Kills”
Divugação
Desperdício da ‘Final Girl’
O maior crime do filme, no entanto, foi rebaixar a Laurie Strode de Jamie Lee Curtis a uma mera coadjuvante da trama, na qual pouco tem a fazer a não ser fazer pose de durona, porém sem maior função.
Embora a atriz continue a defender bem a sua personagem, dá a impressão de que se ela não estivesse em cena, não faria a menor diferença se fosse totalmente descartada da história.
A trama fica mais centrada em sua filha e sua neta, bem menos interessantes do que a lendária “final girl” da franquia. Um verdadeiro desperdício, tão ruim quanto o que fizeram com Curtis no pavoroso “Halloween: Ressurreição”, de 2002.
Cena do filme “Halloween Kills: O terror continua”
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Pensado como a segunda parte de uma trilogia, que deve ser encerrada em 2022, “Halloween Kills” poderia ajudar a fortalecer a imagem de Myers como um dos personagens mais assustadores do terror de todos os tempos.
Do jeito que ficou, não mudou muito a sua relevância entre os fãs do terror. Pelo menos, a música-tema do filme, composta pelo diretor John Carpenter (um dos autores da trilha sonora) continua marcante. As músicas são capazes de despertar pesadelos no público. Quem sabe na próxima vez, os cineastas e roteiristas consigam a mesma coisa.