Guto Graça Mello relembra bastidores das trilhas de ‘Gabriela’, ‘Pecado Capital’ e ‘Estúpido Cupido’


Diretor musical e produtor tem 520 discos no currículo. Ele fala da rotina de trabalho, dos imprevistos e de tema de abertura que teve que tirar do ar. G1 conta histórias das trilhas da Globo. Guto Graça Mello produziu trilhas de novelas e trabalhou na parte de produção musical da Globo de 1972 a 1989
Renato Velasco_Memória Globo
Uma visita para tirar dúvida de Dorival Caymmi na abertura de “Gabriela”, um final de semana agitado antes da estreia de “Pecado Capital” e um encontro inesperado que ajudou a definir o rumo de “Estúpido Cupido”.
Essas lembranças são de Guto Graça Mello, produtor e diretor musical da Globo e da Som livre nos anos 70 e 80, e foram contadas no G1 Ouviu sobre trilhas de novelas. Ouça podcast abaixo.
Nesta semana, o G1 revela os bastidores das trilhas sonoras das novelas, por meio do relato de diretores musicais que passaram pela emissora.
Augusto César Graça Mello entrou na Globo como produtor musical no programa de entrevistas de Marília Pêra, “Viva Marília”, em 1972.
A primeira trilha de novela foi “Cavalo de Aço” (1973), em parceria com Nelson Motta. Mas o produtor, que tinha passado os anos anteriores morando entre Estados Unidos e México para tocar com Edu Lobo, diz que não gosta do trabalho de estreia.
“Eu odeio essa trilha com todas as forças até hoje, porque ela era 100% equivocada. Eu não tinha noção de como era fazer novela”, conta Graça Mello ao G1. O produtor de 72 anos diz que depois de a novela entrar no ar, nunca mais ouviu aquela trilha.
O começo pode ter sido meio traumático, mas depois o produtor foi contornando a falta de experiência na TV e selecionou o repertório para novelas de grandes sucessos como “Gabriela” (1975), “Pecado Capital” (1975) e “Estúpido Cupido” (1976).
Ao longo da carreira, Graça Mello produziu 520 discos entre eles muitos sucessos da MPB, como discos de Rita Lee, Roberto Carlos, Maria Bethânia e o primeiro disco da Xuxa.
Trilhas originais e trabalho na Som Livre
“Véu de Noiva” (1969), novela de Janete Clair, foi a primeira a ganhar trilha especialmente para a trama. Ela foi produzida por Motta e pelo diretor Daniel Filho.
Nos primeiros anos, as trilhas eram encomendadas a um ou a uma dupla de compositores e outros artistas gravavam. Isso só mudou em “Pecado Capital” (1975), quando as músicas inéditas de todas as gravadoras passaram a ser cogitadas para o repertório das tramas.
O trabalho de Graça Mello na Globo sempre foi próximo do que fazia na Som Livre, que surgiu em 1969 com a função de produzir e vender as trilhas de novelas. Ele começou na gravadora como produtor, mas chegou ao cargo de gerente geral.
Guto Graça Mello e Daniel Filho nos bastidores de ‘Mulher 80’; eles trabalharam juntos em muitas novelas e programas
Acervo Grupo Globo
Assim, ele era o homem que aprovava a trilha que a Som Livre produzia. “Eu era as duas pontas, era responsável por entregar a trilha sonora e também por receber. Minha cabeça pirou com isso.”
“O meu pavor era diminuir a qualidade da obra, entendeu? Eu pensava que isso era muito fácil, porque eu vendia para mim mesmo”, explicar ao se definir como “muito perfeccionista”.
Por outro lado, o produtor não nega que usava o alcance da Globo para lançar artistas e músicas.
“O meu barato era fazer o casting, era pegar os artistas e usar a estrutura toda da Globo e das novelas que a gente tinha para explodir esses artistas. E eles explodiam mesmo nessa época”, destaca Graça Mello.
Dúvida de Caymmi
Sônia Braga foi a protagonista de ‘Gabriela’ (1975); Juliana Paes interpretou a personagem no remake de 2012
TV Globo
Graça Mello encomendou o tema de abertura de “Gabriela” (1975), novela de Walter George Durst, à Dorival Caymmi. A sugestão foi do próprio Jorge Amado, escritor do romance que inspirou a novela.
Antes de entregar a versão final, o compositor baiano chamou Graça Mello em sua casa em Rio das Ostras para tirar uma dúvida sobre a nota da palavra “Gabriela”, em “Modinha para Gabriela”. Escute as duas opções no podcast G1 Ouviu.
Outra música que o diretor musical destacou foi “Alegre Menina”, gravada por Djavan e tema de Gabriela. Ela é, na verdade, um poema do livro de Jorge Amado.
“Falei ‘cara, isso tem que ser musicado’. Procurei o Djavan e ele fez maravilhosamente bem”, conta.
Gabriela – 1ª versão (1975): Abertura
Como parte do processo de produção, Graça Mello fez viagens à Bahia e passou horas sentado em bares para ver como a cidade funcionava.
“Não é a trilha mais famosa, não é a que mais vendeu, mas foi a melhor para mim. Foi o melhor trabalho de pesquisa que eu fiz.”
Para o diretor musical, esse aspecto de entender o contexto a história, é fundamental para a seleção da trilha: “Funcionava melhor era quando eu acertava na alma da personagem, no sentimento da personagem”.
Trilha de última hora em ‘Pecado Capital’
Betty Faria e Francisco Cuoco em ‘Pecado Capital’ (1975)
Acervo Grupo Globo
O responsável pela trilha da novela de Janete Clair era Nelson Motta, mas houve uma mudança de planos inesperada. Graça Mello conta que estava em seu escritório em Botafogo, bairro do Rio, na sexta-feira antes da estreia em 1975, quando foi chamado para uma reunião na Globo.
“Eu entrei na Sala de Sonorização da Globo e estava o Boni, o Nelsinho Motta, o Daniel Filho e o sonoplasta. Entrei, não entendi nada e perguntei o que que houve”, lembra o diretor.
“O Boni disse: ‘O Nelsinho fez a trilha, mas se equivocou, ele não entendeu. Ele fez uma trilha de rock com grupo Vímana, com grupos da época, mas não tem nada a ver com a novela. Essa novela é passada no subúrbio carioca, é outra leitura'”, continua.
Resultado: Graça Melo teve que produzir a trilha da novela em 3 dias. Com o tempo curto, ele aproveitou para mudar algo que sempre quis na Globo: fazer a seleção do repertório com músicas de artistas de todas as gravadoras, não só de um compositor.
Ele fez um tour pelas companhias naquela tarde de sexta-feira e deu a sorte de encontrar as inéditas “Juventude Transviada”, de Luiz Melodia, e “Você Não Passa de uma mulher”, de Martinho da Vila.
Pecado Capital – 1ª versão (1975): Abertura
A única música encomendada foi “Pecado Capital”, tema de abertura na voz de Paulinho da Viola. A cena final com o dinheiro voando foi a inspiração para o cantor carioca escrever “Dinheiro na mão é vendaval”, que abre a música.
Paulinho compôs a música na frente de Graça Melo em algumas horas, não porque costumasse escrever assim, pelo contrário, foi pura pressão do executivo da Globo. Ele lembra que quando Paulinho perguntou para quando era, a resposta foi na lata:
“É para agora, tem que ser hoje, e expliquei para ele todo o drama”, conta Graça Melo. “Ele abriu com isso ‘Dinheiro na mão é vendaval…’ e a música saiu inteira, parece coisa de Deus mesmo”.
Inspiração na ponte aérea
Foi dentro de um avião que Graça Melo teve a ideia que resolveu a trilha sonora de “Estúpido Cupido” e ainda deu o nome à novela. Ele sentou por acaso ao lado de Tony Campello, irmão de Celly Campello.
O produtor perguntou pela cantora e descobriu que ela estava em Campinas, cuidando dos filhos, mas que topava voltar a cantar se algo aparecesse. Era tudo que ele precisava saber.
Estúpido Cupido (1976): Abertura
“Cheguei para o Boni e falei: ‘[A novela] vai se chamar ‘Estupido Cupido’, a gente usa essa música na abertura e vamos trabalhar com esse segmento, com esses artistas dessa época toda daí”, lembra. “Não deu outra, vendeu na época cerca de 1,2 milhão de discos em uma trilha nacional”.
O produtor destaca a boa vendagem para trilha nacional, porque normalmente os números das trilhas internacionais eram muito superiores. Ele explica isso com o cenário das rádios na época e o jabá das gravadoras.
“As rádios, principalmente as FMs, tinham um certo distanciamento da música nacional. Para tocar era muito difícil e a música internacional entrava muito forte”, diz. “A única a arma que nós tínhamos era a novela para poder entrar”.
Troca de tema de abertura
Apesar de ter grandes sucessos, Graça Mello lembra de uma abertura que teve que tirar do ar. Era o tema de “Saramandaia” (1976) com “Pavão Mysterioso”, do cearense Ednardo.
“O Boni me chamou e falou ‘Nós temos que tirar essa música, porque ela ficou insuportável, ninguém aguenta mais ouvir”, conta.
Saramandaia – 1ª versão (1976): Abertura
“O Ednardo não deve me perdoar até hoje, mas eu segui ordens. E, depois, concordei com o Boni. Todo mundo estava comentando, e estava começando a prejudicar a própria novela”. A saída foi colocar uma música instrumental.
Apesar da decisão, a música ficou em 10º entre as mais tocadas no ranking anual das rádios em 1987, e é um dos grandes sucessos de Ednardo.
Graça Mello deixou os cargos na Globo e na Som Livre em 1989, e, além do trabalho na TV, também fez trilhas para mais de 30 filmes como “O Beijo no Asfalto”, “Se Eu Fosse Você” e “Cazuza”.
Mesmo sem trabalhar diretamente com isso hoje, o diretor diz que continua assistindo às novelas. “Virei um noveleiro de primeira. Assisto a quase todas, sempre para ver a trilha, mas não para criticar, eu curto”, finaliza.
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