Gustavo Galo ambienta bem a poesia em ‘Quarto’, EP em que ‘o violão viola o silêncio da solidão’


Artista dá outro sentido a sucesso de Marina Lima em disco com músicas inspiradas por sensações do isolamento social. Capa do EP ‘Quarto’, de Gustavo Galo
Júlia Rocha com arte de Ciça Góes
Resenha de EP
Título: Quarto
Artista: Gustavo Galo
Edição: Pequeno Imprevisto
Cotação: * * * 1/2
♪ “Na solidão, o violão viola o silêncio”, poetiza Gustavo Galo em verso de Quarto crescente, inédita canção de Galo em parceria com Júlia Rocha. Quarto crescente é a quarta das cinco músicas na disposição do EP Quarto.
Com lançamento programado para segunda-feira, 28 de dezembro, Quarto alude no nome tanto ao fato de o EP ser o quarto título da discografia solo de Galo – artista paulistano revelado como integrante da Trupe Chá de Boldo – como ao espaço físico em que o disco foi idealizado e gravado, no formato minimalista de voz & violão, com produção dividida entre Galo e Otávio de Carvalho.
Esse espaço é o quarto em que Gustavo vive em aparamento situado na região central da cidade de São Paulo (SP). Na obra fonográfica do cantor e compositor, Quarto sucede a trilogia formada pelos álbuns Asa (2014), Sol (2016) e Se tudo ruir deixa entrar o ruído (2019).
Embora esteja longe de ser violonista virtuoso, Galo se acomoda bem com o instrumento e com a poesia das cinco músicas na ambiência cool deste disco editado pelo selo fonográfico Pequeno Imprevisto, aberto em fevereiro deste ano de 2020 por Eduardo Lemos e Otávio de Carvalho.
Inspirada pelas sensações provocadas pela pandemia, a seleção do repertório molda o retrato do artista quando (ainda) jovem – Galo completou 35 anos em junho – e em isolamento social.
Com capa que expõe arte criada por Ciça Góes a partir de foto polaroid de Júlia Rocha, Quarto foca Galo a partir da janela interior do artista, mas com o olhar para fora, mirando o mundo.
Aberto com a regravação de Até amanhã (2018), parceria entre o compositor Peri Pane e o poeta arrudA lançada há dois anos por Pane no álbum Canções velhas para embrulhar peixes vol. 3, o EP de Galo se alimenta da poesia. “Até amanhã / Cheio de vida”, reforça o artista na repetição do verso-síntese da canção que abre o disco.
“São as flores que me mantém são no apartamento em manutenção”, avisa o cantor, no invariável registro cool, na tensão poética de As flores são, parceria de Galo com Peri Pane. Já Queridos dias difíceis – parceria de Galo com o poeta Ricardo Aleixo – embala a angústia com fina ironia.
Fechando o EP, a regravação de Pra começar (1986) – música de Marina Lima e Antonio Cicero gravada por Marina com pegada roqueira para a abertura da novela Roda de fogo (TV Globo, 1986) – soa oportuna porque renova o sentido da letra de Cicero nestes tempos de pandemia.
O velho mundo está em caquinhos, “quebrou, não tem mais jeito”, mas tudo raia na poesia ambientada por Gustavo Galo em Quarto no silêncio violado pelo violão solitário.