Guilherme Arantes vence a cruzada interior travada no campo épico que gerou o álbum ‘A desordem dos templários’


Aos 68 anos, artista lança disco de inspiração medieval que transita entre o rock progressivo, o ‘synth-pop’ e as apaixonadas baladas para piano. Capa do álbum ‘A desordem dos templários’, de Guilherme Arantes
Arte de Daniel Miguez
Resenha de álbum
Título: A desordem dos templários
Artista: Guilherme Arantes
Edição: Coaxo do Sapo
Cotação: * * * 1/2
♪ Álbum lançado por Guilherme Arantes nesta quarta-feira, 28 de julho de 2021, dia do 68º aniversário do artista paulistano, A desordem dos templários se situa entre o rock progressivo, o synth-pop e as baladas apaixonadas para piano, alinhando sonoridades e referências que reiteram a magnitude da obra construída pelo compositor a partir dos anos 1970.
Ainda que a safra inteiramente autoral composta por dez músicas dispostas em 12 faixas resulte menos imponente no conjunto da grandiosa obra, o álbum A desordem dos templários se revela um dos títulos mais ambiciosos da discografia de Arantes.
Como sinaliza a ilustração criada por Daniel Miguez para a capa, já pensada para a edição do álbum em LP, A desordem dos templários é disco por vezes épico, de inspiração medieval potencializada pelo cenário de Ávila, município da Espanha, onde o artista se abriga desde o fim de 2019.
Foi entre as muralhas de Ávila que, com exceção da já pré-existente balada Nossa imensidão a dois (2018), Arantes concebeu e gravou ao longo de 2020 o repertório do álbum A desordem dos templários no estúdio que montou na própria casa.
Primeira música da safra espanhola, El rastro abre o disco, introduzida por cordas de arquitetura barroca que evocam os salões europeus do séculos atrás. É pista falsa para faixa que evolui em levada fluente, mais leve, com versos imagéticos escritos em bom português.
Na sequência do álbum, a amorosa canção A razão maior traz, além de refrão insinuante, lampejos do compositor brilhante projetado em 1976 justamente com balada calcada no piano, o que fez na época o artista ser carimbado com o rótulo intencionalmente elogioso, mas redutor, de “Elton John brasileiro”.
Guilherme Arantes em Ávila, município da Espanha onde criou e gravou o álbum ‘A desordem dos templários’
Márcia Gonçalez / Divulgação
Decorridos 45 anos, o mundo de Guilherme Arantes se mostrou com tanta a coisa a mais do que baladas que a comparação soa até descabida, exceto pelo fato de o cancioneiro do artista brasileiro ter alcançado potência pop similar à do repertório do astro inglês.
Afinal, Elton John jamais cavalgaria sobre o universo épico das cruzadas medievais na pisada do baião, como Arantes faz em várias passagens da música-título A desordem dos templários, cuja gravação totaliza sete minutos e meio.
Nessa faixa, a partir da guerra medieval, o compositor move o “pêndulo imerso em escuridão” em direção à treva que ameaça encobrir o século XXI, com “cruzadas interiores travadas na alma da humanidade”, como o artista enfatiza no longo texto em que repisa os caminhos que o levaram à criação do álbum A desordem dos templários.
Na sequência do disco, Nenhum sinal de sol – balada amaciada com cordas em arranjo que remete a sons medievais – aponta o amor como a única luz capaz de dissipar a treva.
Fecho do lado A da edição em LP, a Vinheta dos templários se revela tema autônomo, com dois minutos que reiteram o caráter épico do disco, fazendo com que a faixa extrapole a função de elo entre Nenhum sinal de sol e A cordilheira.
Exemplo da habilidade de Arantes no universo do synth-pop, A cordilheira ressurge ao fim do álbum em fluente versão em inglês – Across the abyss, tão ou mais sedutora do que a gravação em português – e em registro instrumental, apontando outro resquício do talento superlativo do compositor.
Com brilho potencializado pelas cordas orquestradas pelo maestro Arthur Verocai, Estrela-mãe é o jorro emocional do artista em acerto afetivo de contas com a mãe, Hebe, que teve tempo de ouvir a canção, em estado embrionário, antes de partir para outra dimensão.
Guilherme Arantes assina sozinho todas as 10 músicas dispostas nas 12 faixas do disco
Márcia Gonçalez / Divulgação
Ao longo de seis minutos, Toda a aflição do mundo caminha com naturalidade do rock de levada oitentista até a suavidade da bossa nova – coisa do Brasil, somente possível de ser feita por compositor nascido e criado na miscigenação rítmica do país do suingue.
Com voz bem colocada no disco, embora já sem o viço de outrora, Guilherme Arantes é esse compositor – surgido na era áurea do rock progressivo – que se provou fundamental para a criação do pop feito no Brasil.
Tema instrumental introduzido por coro sacro, Kyrie é o exemplar de prog rock que conecta o artista ao início da carreira como integrante do grupo Moto Perpétuo. Kyrie é peça fundamental na engrenagem de A desordem dos templários, álbum que mostra que o pulso criativo de Guilherme Arantes ainda pulsa, evocando o passado do artista, mas procurando heroicamente inserir o cantor no momento presente de mercado já refratário a melodias, letras e arranjos épicos.
Nesse sentido, A desordem dos templários é álbum totalmente fora da ordem mundial. Só que o tempo-rei costuma fazer justiça a artistas que permanecem fiéis à própria alma musical, sem dançar conforme o ritmo do momento. Aos 68 anos, Guilherme Arantes vence a cruzada interior travada no campo épico que gerou o audacioso álbum A desordem dos templários.