Grupo Samba de Dandara se eleva em álbum altivo e ativista que exalta a força ancestral da mulher


Capa do álbum ‘Samba de Dandara’, do grupo paulistano Samba de Dandara
Arte de Elifas Andreato
Resenha de álbum
Título: Samba de Dandara
Artista: Samba de Dandara
Edição: Edição independente do grupo
Cotação: * * * *
♪ “Eu vim da mãe África / Eu vim do Quilombo / Já fizeram tanto para eu tombar / Mas eu não tombo”. Os versos resistentes de Quilombo (Maíra da Rosa e Jackeline Severina) abrem a terceira das 14 faixas do álbum Samba de Dandara nas vozes de Fabiana Cozza e Maíra da Rosa antes de o arranjo insinuar um calango na introdução desse samba de terreiro.
Pela altivez, tais versos traduzem a ideologia e o som do álbum ativista que, após quatro singles, chega ao mercado fonográfico na sexta-feira, 7 de maio, com capa assinada por Elifas Andreato, nome referencial na arte gráfica de discos de sambistas como Martinho da Vila e Paulinho da Viola.
Essencialmente feminina, essa ideologia já está reforçada na própria incorporação do nome de Dandara dos Palmares (16?? – 1694) – líder guerreira que se destacou na luta pela liberdade do povo negro escravizado no Brasil colonial – na designação desse grupo originário de roda de samba formada por mulheres na cidade de São Paulo (SP).
Gravado entre outubro e novembro de 2019, sob direção musical de Samuel Silva e produção musical de Laís Oliveira, o álbum Samba de Dandara exalta a força ancestral feminina, em especial a da mulher afro-brasileira.
Na roda de Dandara, a mulher é agente das transformações sociais, senhora do ofício de cantar samba, como celebra a vocalista Maíra da Rosa na interpretação de Samba à toa, samba-canção de autoria da própria Maíra que alude espirituosamente a verso de Trem das onze (Adoniran Barbosa, 1964) para mostrar que as mulheres são senhoras dos próprios destinos e madrugadas.
A propósito, na letra de Para Amélia e Emília (Maira Ranzeiro), faixa valorizada pelo toque luminoso do cavaco de Camila Silva, o grupo Samba de Dandara corrige distorções históricas na abordagem da mulher por compositores de tempos idos.
Sim, Ana Lia Alves (percussão), Kamilla Alcântara (percussão), Laís Oliveira (cavaco), Laurinha Guimarães (violão), Maíra da Rosa (voz), Mariana Rhormens (flauta e percussão) e Tati Salomão (percussão) marcam firme posição nas 14 faixas desse disco abençoado na introdução pela oração afro-brasileira feita com o canto falado de Maria Helena Embaixatriz em A força de Mulemba.
“Não vamos desviar / Nem mudar para calçada de lá / Vamos seguir em frente / Sem dar marcha à ré / Um passo meu, um passo seu / Um passo de outra mulher / E assim se chega onde quer”, canta Maíra Rosa em Pé de moça (Felipe Matheus, Maíra da Rosa e Mariana Rhormens), indicando caminho em que o samba também serve de escudo na luta, como o grupo reforça nos versos de Canta (Carol Nascimento).
Samba de Dandara olha para frente sem deixar de reverenciar as guerreiras pioneiras que abriram caminhos para as mulheres ocuparem espaços cada vez maiores nas rodas. O samba rural Estrela negra (Laís Oliveira, Karina Adorno e Renato Dias) homenageia Dona Anicide Toledo, matriarca do batuque de umbigada, manifestação cultural do interior do estado de São Paulo.
Grupo Samba de Dandara canta sambas em que a mulher é a protagonista do enredo
Daniel Oliveira / Divulgação
Aliás, as narrativas das letras do álbum Samba de Dandara são protagonizadas por mulheres de hoje com referências reverentes às de ontem, com exemplifica Pranto de Carnaval (Aninha Batucada, Lucas Laganaro e Renato Dias).
Por isso mesmo, cabe lamentar que o encarte da caprichada edição em CD do álbum Samba de Dandara – disco viabilizado com patrocínio obtido no edital Natura Musical – traga as fichas técnicas das músicas sem as letras.
Afinal, são músicas que têm o que dizer, casos de Estação crise (Laurinha Guimarães), samba que versa sobre a corda no pescoço no país do desespero, e do samba-enredo Entre o Ayê e o Orum, celebração do pão e do espirito em versos que nomeiam divindades afro-brasileiras da realeza negra.
Nesse universo mítico, Xaxado pra Iansã (Alisson Lima e Mariana Rhormens) traz a roda do Samba de Dandara para a nação nordestina, seguindo o chamado do toque da sanfona de Cimara Fróis, instrumentista convidada da faixa. Já Artimanhas, samba gravado com a participação da compositora Raquel Tobias, mantém a mulher no salto ao incursionar por enredo amoroso.
Assentado em baticum aliciante, Menina guerreira (Felipe Matheus, Maíra da Rosa e Mariana Rhormens) também põe a autoestima feminina no topo da ladeira mencionada na letra.
No fecho emocionante do álbum, em sintonia com a ideologia desse grupo de samba que também transita pelo ijexá, Dandaras, filhas de Akotirenes (Maíra da Rosa e Mariana Rhormens) saúda os quilombos urbanos e o Carnaval paulista com reivindicação do direito de ocupar a rua e todos os espaços, em gravação reforçada com as mulheres do bloco afro Ilú Obá de Min.
Conceitual, o álbum Samba de Dandara eleva o grupo que lhe empresta o nome. Ao cantar as lutas da ancestralidade negra feminina, Samba de Dandara expõe a força das mulheres nos dias de hoje.
Tire o machismo renitente do caminho que Samba de Dandara vai passar a partir de 7 de maio com álbum altivo e ativista que põe a mulher no devido lugar de honra nas rodas e na sociedade de um Brasil ainda manchado por arcaicos rincões patriarcais.