Gonzaguinha, morto há 30 anos, segue postumamente na luta por um Brasil melhor


Obra militante do compositor carioca é saudada em disco, live e show teatralizado para lembrar o legado do artista. Gonzaguinha na capa de álbum de 1983
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♪ MEMÓRIA – Se um acidente de carro não tivesse tirado Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 – 29 de abril de 1991) de cena há exatos 30 anos, Gonzaguinha – como o Brasil conhecia o cantor e compositor carioca – ainda poderia estar por aí, lutando por um país com mais justiça social e com mais vacinas.
Nessa cotidiana batalha política, a arma de Gonzaguinha era a obra musical militante, composta por 294 canções, de acordo com levantamento do Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais, o Ecad.
Revelado em 1968 na era dos festivais, Gonzaguinha nunca fugiu à luta. E pagou preço alto por isso. Colecionou inimigos, inclusive na imprensa musical, porque nunca fez questão de ser simpático para seguir códigos sociais. Disse e escreveu – nas letras das músicas, quase todas compostas solitariamente, sem parceiros – o que realmente pensou.
Por tal aguda sinceridade e pela força das canções, Gonzaguinha se faz presente na música brasileira 30 anos após a morte do artista. Discos (como o vindouro Afeto e luta, da cantora Bruna Caram), shows teatralizados (como o feito por Rogério Silvestre às 19h30m de hoje, 29 de abril de 2021, no Teatro Rival Refit) e lives (como a agendada pela cantora Leila Pinheiro para sábado, 1º de maio) mantém a obra de Gonzaguinha na pauta.
Munida de atualidade, como exemplificou o samba É (1988), veiculado até há pouco tempo na abertura da novela Amor de mãe (TV Globo, 2019 / 2021), essa obra resiste bem ao tempo por ter sido construída com solidez, calcada no amor e na política. No afeto e na luta, como poetiza o título do álbum preparado por Bruna Caram.
A origem carioca do moleque criado no Morro do Estácio, berço de bambas seminais, gerou o apego ao samba, ritmo de obras-primas como Comportamento geral (1972) e Geraldinos e Arquibaldos (1975).
Mesmo sincopado, esse samba por vezes soou tenso. Nos álbuns iniciais de Gonzaguinha, sobretudo os do período 1973-1975, a tônica foi densidade que, muita vezes, pode ter sido confundida com rancor.
A partir de 1976, ano do álbum Começaria tudo outra vez…, disco marcado pelo bolero que lhe dá nome e por canções afetuosas como Espere por mim, morena, Gonzaguinha foi se enternecendo, sem perder a dureza necessária para lutar por um Brasil mais justo.
O amor deu o tom, sob prismas sempre originais. Foi a era da exaltação do amor a dois, da louvação da vida e da reverência ao dom de cantar. Não por acaso, a partir da segunda metade dos anos 1970 e até o início da década de 1980, Gonzaguinha se tornou um dos compositores mais requisitados pelas cantoras do Brasil. Maria Bethânia, Simone, Nana Caymmi, Elis Regina (1945 – 1982), Joanna… Quase todas deram vozes a Gonzaguinha.
Talvez amolecido pelo aval popular, Gonzaguinha começou nesse período a erguer a bandeira branca para o pai, Gonzagão, Luiz Gonzaga (1912 – 1989), com quem sempre tivera relação ideologicamente conflituosa, embora jamais tenha negado a herança musical, como atestou a parcela da obra de Gonzaguinha com sotaque nordestino.
Enfim, Gonzaguinha continua por aí. A voz se calou há 30 anos, mas a obra – eternizada em álbuns como Moleque Gonzaguinha (1977), Recado (1978), Gonzaguinha da vida (1979), De volta ao começo (1980) e Coisa mais maior de grande – Pessoa (1981) – ainda fala por si só.
E, se esse cancioneiro passa de geração para geração, é porque, ao compô-lo, Gonzaguinha parece ter seguido tão somente os caminhos do coração, como sinalizou no título de álbum de 1982. Viva Gonzaguinha!