Garimpo ilegal degrada área igual a 200 campos de futebol na Terra Yanomami em três meses; FOTOS


Levantamento feito pela Hutukara Associação Yanomami foi apresentado nesta terça-feira (25). Relatório nomeou resultado da exploração ilegal na área indígena como a nova “Serra Pelada”, no Pará, conhecido como maior garimpo a céu aberto do mundo. Canteiro de garimpo no Uraricoera
Divulgação/Christian Braga/Greenpeace
O garimpo ilegal na Terra Yanomami, localizada na região Norte de Roraima, degradou cerca de 200 hectares de floresta — o equivalente a 200 campos de futebol — somente no primeiro trimestre deste ano. A informação foi divulgada pela Hutukara Associação Yanomami (HUY), por meio de relatório apresentado nesta terça-feira (25).
Imagens aéreas na região mostram áreas devastadas pelo avanço do garimpo ilegal. Segundo o documento, que o G1 teve acesso, foram registradas “crateras profundas, acampamentos colados a aldeias e até restaurante de garimpeiros”.
Ao total, imagens de satélite indicam cerca de 2.430 hectares destruídos pelo garimpo. A associação nomeou o resultado da exploração ilegal na área indígena como a nova “Serra Pelada”, lugar que ficou conhecido como o maior garimpo a céu aberto do mundo, localizado no Sudeste do Pará.
Canteiro de garimpo no rio Novo
Divulgação/Christian Braga/Greenpeace
As imagens foram registradas durante dois sobrevoos realizados nos dias 7 e 9 de abril, informou a Hutukara. O relatório, que contém 47 páginas, também detalhou o registro de:
Fotografias de alta resolução de acampamentos e canteiros;
Fotos panorâmicas do impacto do garimpo no alto curso dos rios Catrimani, Mucajaí e Parima;
Documentação da “currutela” — nome dado ao local onde ocorrem venda de bebida alcoólica e prostituição — do alto Catrimani;
Identificação de uma pequena balsa em atividade no rio Ajarani;
Verificação da continuidade da atividade garimpeira em zonas que receberam operações recentes;
Flagrantes do uso de pistas comunitárias por parte dos garimpeiros nas regiões de Homoxi e Kayanau.
Acampamento de garimpeiros às margens do rio Uraricoera
Divulgação/Christian Braga/Greenpeace
O documento também detalha todos os pontos da região onde há indícios evidentes da atividade mineradora ilegal. A primeira rota foi direcionada à porção central da Terra Yanomami, sobre os rios Apiaú, Catrimani e Ajarani e na Serra da Estrutura.
Já a segunda rota sobrevoou as comunidades de Aracaçá, Homoxi, Kayanau, Palimiú, Papiú, Parima, Waikás e Xitei.
A Terra Yanomami é palco de diversos ataques há anos. Em 1993, garimpeiros promoveram uma chacina contra os Yanomami, na qual 16 indígenas morreram. O episódio ficou conhecido como o Massacre de Haximu, tendo sido o primeiro caso de genocídio reconhecido pela Justiça brasileira.
Em junho do ano passado, outro conflito na Terra resultou na morte de dois jovens indígenas, de 20 e 24 anos. De acordo com o Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-Y), os jovens estavam em um grupo de cinco indígenas quando se depararam com dois garimpeiros armados próximo a uma pista clandestina para pouso de helicóptero.
“Currutela” no alto Catrimani, além de pista de pouso clandestina, aeronaves dão suporte à atividade.
Divulgação/HAY
Neste mês de maio, a região mais uma vez sofreu diversos ataques de garimpeiros armados. O caso, que iniciou no dia 10, teve dez dias seguidos de conflitos. Na ocasião, três garimpeiros morreram e quatro ficaram feridos, além de um indígena baleado de raspão na cabeça, na comunidade Palimiú, às margens do rio Uraricoera.
Segundo a HAY, o conflito teria sido em retaliação, após os Yanomami instalarem uma barreira sanitária, para impedir que os garimpeiros usassem o rio Uraricoera para chegar a um de seus acampamentos.
Cinco dias após esse ataque, líderes indígenas relataram a morte de duas crianças Yanomami, de 1 e 5 anos. Conforme informação divulgada pela Hutukara, os corpos das vítimas foram encontrados boiando no rio, no dia 12 de maio.
Helicóptero em outra pista clandestina no alto Catrimani. Ao lado esquerdo, há cerca de 4,8 hectares degradados.
Divulgação/HAY.
Em nota divulgada à impressa, a associação acredita que, após os tiros, muitas crianças correram assustadas para se proteger, se perderam no mato e ficaram desaparecidas. A informação foi relatada, inclusive, ao Ministério Público Federal (MPF).
A estimativa é que mais de 20 mil garimpeiros atuam infiltrados na Terra Yanomami. A área é o maior território indígena do país dividido entre Roraima e o Amazonas. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há 26.780 indígenas vivendo na região.
Para a organização, essas invasões de garimpeiro às Terras só serão controladas se houver operações “mais abrangentes e eficientes na destruição da estrutura de apoio à atividade ilegal”.
A Hutukara sugere como métodos eficazes, a explosão de pistas e destruição de currutelas, inutilização do maquinário como motores, balsas, aeronaves, helicópteros e quadriciclos, além da “descapitalização” de investidores do setor.
“Não se trata de um problema sem solução. O estado possui todas as condições para fazer valer a lei e promover a neutralização dos crimes praticados pelo garimpo contra os indígenas da TI Yanomami e o restante da sociedade brasileira”, reforçou o relatório.
Registro de canoa transportando insumos para o garimpo
Divulgação/Christian Braga/Greenpeace
Ainda conforme o relatório, “a crise econômica e o preço do metal estimulam os garimpeiros à atividade exploradora”. A organização afirma que a presença dos garimpeiros na região, promove o desmatamento, a contaminação dos rios por mercúrio, a violência contra homens, mulheres e crianças indígenas e a disseminação da Covid-19 no território indígena.
Conforme o último boletim da Secretaria de Saúde (Sesau) dessa segunda-feira (24), já são 5.739 indígenas infectados e outros 83 mortos por conta do vírus. Os dados são dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Leste e Yanomami.
Regiões sobrevoadas sublinhadas em amarelo e roxo. Os pontos vermelhos representam as áreas de garimpos encontradas e em cinza a área já desmatada
Divulgação/HAY