Gal Costa ‘faz o dia renascer’ ao revisitar ‘Avarandado’ com Rodrigo Amarante


‘Hermano’ evoca João Gilberto em dueto com a artista na regravação da canção composta por Caetano Veloso e lançada em 1967. Capa do single ‘Avarandado’, de Gal Costa e Rodrigo Amarante
Divulgação / Biscoito Fino
Resenha de single
Título: Avarandado
Artistas: Gal Costa e Rodrigo Amarante
Compositor: Caetano Veloso
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
♪ As gravações do ainda inédito álbum em que Gal Costa revisita o próprio repertório – na companhia de dez cantores de gerações posteriores – podem ser analisadas sob dois pontos de vista quase antagônicos.
Um, cruel, é se basear somente em comparações do canto e das intenções atuais da artista com os registros originais das dez músicas que compõem o álbum que será lançado em fevereiro nos formatos de LP e CD pela gravadora Biscoito Fino após as edições paulatinas das dez faixas em singles.
Outro, mais justo, é avaliar Gal como uma senhora cantora de 75 anos que continua andando na estrada, com a voz e a maturidade dos dias de hoje. Sob esse prisma, há beleza e significados a serem desvendados em Avarandado, um dos dois singles que chegam ao mercado fonográfico na sexta-feira, 13 de novembro, como amostras iniciais do álbum produzido sob direção artística de Marcus Preto.
O hermano carioca Rodrigo Amarante – atualmente residente em Los Angeles (EUA) – é o convidado de Gal na revisitação de Avarandado. Canção de autoria de Caetano Veloso, Avarandado foi lançada em 1967 no álbum Domingo, dividido por Gal com Caetano.
Disco feito antes da Tropicália, embora lançado no ano em que o movimento foi organizado, Domingo é o primeiro álbum de Gal e de Caetano, então jovens artistas ainda em busca de lugar para “fazer o sol levantar”, como diz verso da letra embebida em lirismo poético.
Na distribuição do repertório do LP de 1967, produzido por Dori Caymmi, Avarandado é música cantada somente por Gal com alta dose de melancolia, potencializada pelas cordas orquestradas por Francis Hime, arranjador da faixa.
Na época, o canto contido de Gal ainda identificava a artista com a Gracinha, a discípula baiana do conterrâneo João Gilberto (1931 – 2019). E dessa devoção, partilhada por Caetano, surge o simbolismo da participação de Amarante na gravação de 2020.
Sem forçar imitação que poderia soar até risível, o canto de Amarante – ouvido logo após o primeiro dos quase quatro minutos do fonograma – evoca conscientemente as intenções de João Gilberto na gravação de Avarandado feita pelo cantor baiano em álbum de 1973. Essa evocação conecta a gravação de 2020 ao registro original de 1967, mas em outro universo musical.
Sem a densidade das cordas orquestradas por Francis Hime, os violinos e violas tocados e arranjados pelo coprodutor Felipe Pacheco Ventura – com a adição dos violoncelos de Marcus Ribeiro – se afinam com a leveza do arranjo de base criado por Amarante, produtor musical da faixa.
Esse arranjo harmoniza vários instrumentos tocados pelo próprio Amarante – violões, bandolim, baixo e percussão – e cai em suingue sereno que, na introdução da faixa, dá a impressão de remeter curiosamente ao balanço do arranjo da gravação original de Barato total (Gilberto Gil, 1974), feita por Gal para o álbum Cantar (1974).
Afinado com a dinâmica da faixa, o canto de Gal contribui para a harmonia geral deste registro de Avarandado que, se escutado com os ouvidos de 2020, sem nostalgia de modernidades de outrora, também é capaz de “fazer o dia renascer”, parafraseando verso poético da letra de Caetano Veloso, condutor da cantora nas melhores andanças da já longa estrada de Gal Costa.