Força da delicadeza de Alaíde Costa impulsiona documentário sobre álbum da cantora com José Miguel Wisnik


Filme estreia em 8 de julho com imagens da gravação do disco ‘O anel’, recém-editado em CD. ♪ Lançado em 8 de dezembro de 2020, dia do 85º aniversário de Alaíde Costa, o álbum O anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik ainda gera frutos. Além de ter ganhado recente em edição em CD, produzida com esmero pelo Selo Sesc, o disco se desdobra em documentário.
Média-metragem de 53 minutos, filmado sob direção de Daniel Augusto durante duas semanas de outubro de 2020, o documentário entra em cartaz na quinta-feira, 8 de julho, exatos sete meses após a edição do disco, dentro do projeto Cine Sesc em casa.
A rigor, trata-se de alentado making of do álbum produzido por Alê Siqueira. O filme abre os bastidores da gravação do álbum, dentro dos limites da intimidade consentida pelos artistas. É como se, durante quase uma hora, o espectador estivesse dentro do estúdio com Alaíde Costa e José Miguel Wisnik.
Entre um take e outro e entre imagens do arquivo pessoal da artista, Wisnik contextualiza o encontro e Alaíde recorda histórias do início da carreira, como o fato de ter debutado como cantora aos 10 anos, defendendo Quero voltar (Custódio Mesquita, Sadi Cabral e Vicente Celestino, 1940) – música que conhecera na voz do cantor carioca Vicente Celestino (1894 – 1968) – em concurso de calouros promovido por circo armado no subúrbio carioca, onde a artista nasceu e se criou.
Mesmo pontuado por eventuais histórias do passado, o documentário escapa do formato biográfico, estando focado no presente.
O que impulsiona o filme – como Wisnik sublinha algumas vezes ao longo dos 53 minutos de projeção – é a força da delicadeza de Alaíde Costa. A mesma cantora de convicções firmes (“Não há Cristo que faça eu cantar uma música que eu não queira”, avisa) é vista em lágrimas no estúdio durante a gravação da música-título do álbum.
“O anel mexeu muito comigo”, justifica a artista, emocionada pelo fato de Wisnik aludir na letra da composição inédita, feita para o disco, a uma atitude sensível de Alaíde que marcou, em 1968, o primeiro encontro da cantora com o então debutante compositor.
Ao fim do filme, Daniel Ribeiro esboça o retrato de cantora de personalidade forte o suficiente para enfrentar a noção racista, em voga na indústria fonográfica brasileira até os anos 1980, de que cantores negros tinham que gravar samba. “A neguinha aqui até canta samba, mas tem que ser samba”, enfatiza Alaíde, com entonação que sinaliza a predileção por composições de harmonias requintadas.
Em um mundo desagregador, como sublinha Wisnik, o filme sobre o álbum O Anel documenta o reencontro de Alaíde Costa e José Miguel Wisnik na gravação de álbum que se impôs de imediato como um dos grandes discos de 2020.