Filhos na pré-escola: veja dúvidas sobre máscara e idade, distanciamento nas aulas e uso de brinquedos do parquinho


Precisa tomar banho ao chegar em casa? Como vai ser na hora do lanche? 11 especialistas respondem sobre riscos de transmissão da Covid-19 na educação infantil.
Ilustração: Wagner Magalhães/Arte G1
A volta às aulas traz muitas dúvidas sobre o coronavírus para pais e responsáveis por crianças que estão em creches e pré-escolas. Na educação infantil, os alunos ainda precisam de mais orientação e participação dos professores.
Neste tira-dúvidas, 11 especialistas respondem questões como:
Máscara: crianças pequenas devem usar a partir de que idade? Qual máscara protege mais? Meu filho não gosta de usar, o que faço? É necessária uma proteção extra como escudo facial (face shield)?
Dentro da escola: é possível manter distanciamento entre crianças pequenas? Brinquedos dos parquinhos podem ser compartilhados? Há risco no contato dos professores ao ajudar os alunos? E na hora do lanche? Como analisar se uma sala tem ventilação adequada?
Fora da escola: precisa tomar banho ao chegar em casa? Quais são os riscos no transporte e no deslocamento? Acho arriscado para pessoas da casa o meu filho ir à escola. O que fazer?
Respondem as dúvidas:
Beatriz Abuchaim, gerente de conhecimento aplicado na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, especializada em primeira infância
Daniel Lahr, professor do Instituto de Biociências da USP
Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Isaac Schraastzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19
Jamal Suleiman, infectologista do Instituto Emílio Ribas
Luciano Pamplona, epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC) com experiência na área de Saúde Coletiva e epidemiologia das doenças transmissíveis
Luiz Miguel Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime)
Raquel Stucchi, médica infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunização e presidente do departamento de imunização da Sociedade Brasileira de Pediatria
Vitor Mori, doutor em engenharia biomédica pela USP e pesquisador da Universidade de Vermont
Na próxima terça (2), o G1 faz um programa ao vivo às 19h sobre essas e mais dúvidas. Você pode deixar a sua nos comentários.

Ilustração: Wagner Magalhães
A partir de que idade a criança deve usar máscara?
A recomendação é que a máscara seja usada só a partir dos 2 anos, por causa do risco de sufocamento. De 2 anos a 6 anos, deve haver supervisão constante.
Qual o modelo de máscara recomendado para crianças pequenas?
Pode ser de tecido tricoline ou com dupla camada de algodão, mas não de tricô. Modelos como N95 são restritos para situações muito especiais no contexto de Covid. O mais importante é que a máscara esteja bem adaptada ao rosto, cobrindo bem o nariz e a boca, sem frestas nas laterais. E é fundamental que seja confortável e que não dê coceira. Não se esqueça de mandar máscaras extras para troca durante a aula: a de tecido, após 3 horas e muito úmida, perderá sua função. E crianças tendem a se sujar mais.
É necessário usar um face shield?
Confecção de face shields no Distrito federal
BMC/ Divulgação
Na prática, qualquer proteção a mais é bem-vinda. Mas, se a criança se incomodar, ela poderá passar a encostar com frequência no face shield e levar as mãos à boca ou aos olhos depois. O que era para ser um cuidado extra acabaria se tornando um risco maior. Distanciamento social, uso de máscaras e presença de poucas pessoas na sala de aula garantem defesas mais efetivas.
Meu filho não gosta de usar máscara, o que faço?
A recomendação é investir na “alfabetização sanitária”. A família precisa explicar que é importante usar a máscara em qualquer lugar como proteção contra o coronavírus. O ideal é associar tudo isso a momentos lúdicos. Cores e estampas podem ser uma estratégia. De qualquer forma, haverá necessidade de supervisão maior, porque as crianças têm menos autonomia, e é natural que se esqueçam do protocolo.
Se a máscara cai no chão e o professor pega para recolocar no rosto do aluno, há algum risco de transmissão?
Desde que o adulto higienize as mãos, antes e depois, não há problema. Não é indicado encostar diretamente na boca e no nariz da criança. Se a máscara cair no chão, o ideal é ter uma nova para substituir. Para os professores, o indicado é usar máscaras mais robustas, principalmente aqueles que terão contato com bebês e crianças menores.
É possível garantir distanciamento entre crianças pequenas nas escolas?
A educação infantil é conhecida pelo seu espaço de brincadeira e interação. Na prática, é difícil evitar 100% do tempo o contato entre os colegas. Recomenda-se focar em lavar as mãos com frequência, controlar o número de crianças na sala e manter os ambientes higienizados. Atividades ao ar livre são sempre mais indicadas, quando forem possíveis.

Ilustração: Wagner Magalhães
Brinquedos dos parquinhos podem ser usados?
Idealmente, não. Tocar nos brinquedos aumenta, sim, o risco de contato com superfícies contaminadas. Dessa forma, o melhor seria limpar toda hora tanto o parquinho quanto as mãos dos alunos. Soluções intermediárias também citadas são optar por brinquedos individuais, não misturar grupos diferentes de alunos (para evitar a propagação em caso de registro de Covid em uma turma) e limitar o número de crianças em um espaço.
E na hora do lanche?
É, de fato, um momento de risco para a transmissão do vírus, já que as crianças estarão sem máscara. Os especialistas sugerem:
lanche em espaços abertos;
divisões de acrílico nas mesas;
recreio em turnos;
ambientes bem ventilados;
distanciamento mínimo de 1,5 m;
uma pessoa só servindo os pratos, sem compartilhar talheres.
Mas há o reconhecimento de que muitas escolas brasileiras não dispõem dessa infraestrutura.
Meu filho ainda toma mamadeira. Como proceder?
O risco da hora da mamadeira não é considerado muito maior do que os demais. O adulto que supervisiona a criança deve fazer a higiene constante das mãos.
E o deslocamento até a escola? Quais são os riscos no transporte público ou numa perua escolar?
É importante manter as janelas abertas o tempo todo. O ideal é ter a menor ocupação possível, o máximo de distanciamento e o uso de máscara por todos. Para o deslocamento em transporte público, a dica é ter máscara de boa qualidade, bem ajustada, e, se possível, sentar perto da janela, além de higienizar as mãos. Em carros de aplicativo ou táxi, o ar-condicionado pode ser ligado, mas as janelas precisam seguir abertas.
É recomendável trocar de roupa ou de sapatos ao entrar na escola ou chegar em casa?
O risco de transmissão por contato de superfícies e objetos, como sapatos, é considerado baixo. Banhos e trocas de roupa são bem-vindos, de modo geral, mas não por causa especificamente da Covid — crianças se sujam, e a higienização é importante até para evitar trazer bactérias para casa. No contexto de pandemia, o essencial mesmo é lavar as mãos sempre que possível.
Como saber se a ventilação da sala da criança está adequada?
Janelas devem ficar abertas, com fluxo cruzado — o ar entra por um lugar e sai por outro. O ar-condicionado só deve ser ligado com a janela aberta. Um ventilador na janela, apontando para fora, ajuda a jogar o ar de dentro da sala para o ambiente externo. Algumas escolas particulares estão usando um equipamento que mede CO2. Se a sala não estiver bem ventilada, o gás carbônico se acumula, sinal de que há pessoas respirando o mesmo ar expelido.

Ilustração: Wagner Magalhães
Qual é o índice de infecção e de mortes por Covid entre crianças?
As crianças transmitem menos, têm menos sintomas e adoecem com menor gravidade. Segundo a Vital Strategies, organização internacional voltada a estratégias de políticas de saúde pública, os brasileiros de até 10 anos representam menos de 1,5% das hospitalizações e de 0,3% das mortes pela doença no país. É importante lembrar que também existem fatores de risco na infância, como diabetes, transplantes e cardiopatias.
Qual problema associado à Covid alunos menores podem desenvolver?
Eles podem ter a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), uma grande resposta inflamatória que, em casos graves, acomete diversos órgãos e sistemas do corpo. Os principais atingidos são o sistema cardiovascular e o trato digestivo, e também há alterações na pele e nas mucosas.

Ilustração: Wagner Magalhães
Qual o risco das novas variantes para as crianças?
Não há indicações, neste momento, de que as variantes britânica, brasileira ou africana sejam mais perigosas para crianças. Elas parecem ser mais transmissíveis – em todas as idades.
Já há previsão para vacinação das crianças?
Não. A tendência é que fiquem por último, por serem de um grupo com menos riscos em relação a outros.
Não sinto segurança de mandar meu filho para escola. Posso fazer isso?
A partir dos 4 anos, a presença na escola é obrigatória pela lei, mas está sendo observada, em geral, uma flexibilização por conta do alcance da pandemia. Autoridades municipais têm autonomia para decidir sobre o funcionamento de atividades ao avaliar as condições sanitárias locais.
Especialistas afirmam que cabe à família decidir sobre isso com base nos fatores de risco envolvidos. Questionado sobre um entendimento amplo a respeito da questão, o Ministério da Educação não respondeu.
Como procedo caso alguém de casa ou que teve contato com o meu filho for infectado? Devo avisar imediatamente a escola?
As crianças que tiveram contato com alguém contaminado não devem ir para a escola e precisam ficar isoladas por ao menos 10 dias. A escola precisa ser avisada imediatamente.
VÍDEOS: Educação
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