Festivais on-line podem amenizar os prejuízos do cinema de arte?


Produtores e distribuidores explicam soluções para amenizar crise com pandemia da Covid-19. Filmes pequenos e independentes tentam se fortalecer com streaming e patrocínios. Festival de Cannes
Joel C Ryan/Invision/AP
Os grandes festivais de cinema de arte que agitavam Cannes, Veneza, Toronto e outras cidades migraram para a internet durante a pandemia da Covid-19. Mas um dos objetivos ainda é o mesmo: dar visibilidade aos filmes que ficaram prontos no primeiro semestre, mas não chegaram aos cinemas.
São produções independentes ou de pequenas produtoras em busca de uma chance de serem vistas e compradas por exibidores de todo o mundo.
A ida para o streaming é parte do rearranjo da indústria do cinema para enfrentar a crise de salas fechadas. O distanciamento impacta produtores, distribuidores e exibidores. Até o Oscar mudou suas regras e, pela primeira vez, vai aceitar concorrentes só exibidos na internet.
Passar pelo crivo dos festivais é crucial para filmes que não são blockbusters ou feitos por grandes estúdios.
“É preciso ter essa curadoria. Os filmes independentes largam sem força na disputa pela atenção das pessoas. Quando é selecionado por um festival importante, ele melhora suas chances com o público”, explica Jean-Thomas Bernardini, da distribuidora Imovision. Ele é dono do Reserva Cultural, cinema de São Paulo.
Além disso, os festivais on-line ajudam a aproximar o cinema das pessoas em casa. “É melhor ficar em contato com cinema do que não ficar”, diz Jean Thomas.
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Para André Sturm, curador do cinema Petra Belas Artes, em São Paulo, também é importante promover os filmes que não ficaram tempo suficiente em cartaz.
“Para os distribuidores e exibidores, é um prejuízo que não tem como recuperar. Eu espero que tenhamos, quando os cinemas voltarem, uma demanda reprimida, de gente com muita vontade de sair de casa, com saudades de ir ao cinema.”
O Festival Varilux de Cinema Francês criou uma versão para a internet, enquanto seus organizadores estruturam o festival para os cinemas, com previsão para antes do final do ano.
“Conseguimos apoio da embaixada da França, sem ela não teríamos conseguido realizar. Mas fizemos por questão de solidariedade, para ajudar as pessoas e amenizar a situação”, conta Christian Boudier, um dos organizadores.
Filmes em cartaz no Festival Varilux de cinema francês
Divulgação
Uma parte do orçamento foi utilizada para pagar os direitos dos filmes às distribuidoras durante os quatro meses em que eles ficarão no ar. “É uma pequena forma de ajudá-las em um momento tão difícil, mas a maior parte de sua receita vem do cinema”, diz.
O financiamento da Lei Rouanet recebido pelo festival no final do ano passado vai ajudar a aliviar o pagamento das contas. Segundo Boudier, ele representa 40% do orçamento da mostra: “Estamos com perspectiva de perder 50% do financiamento tradicional do festival.”
Quanto menor, mais difícil
O streaming pode aparecer como solução parcial para absorver o grande número de títulos que ainda estavam em cartaz. A Imovision disponibilizou parte de seus filmes no Globoplay, e o Belas Artes abriu sua plataforma, O Belas Artes à la Carte, em abril.
O serviço teve 50 mil acessos durante o período em que ficou aberto. Segundo a assessoria de imprensa do cinema, o número foi muito superior ao registrado normalmente.
Imovision disponibilizou parte de seus filmes no Globoplay
Divulgação
Mas a luta de filmes independentes por atenção nos serviços sob demanda ainda é a principal dificuldade das distribuidoras, diz Jean Thomas.
Ele explica que para conseguir ter força em uma plataforma com um catálogo amplo, os filmes precisam investir em marketing. “É diferente do cinema, quando você vai a uma sala, que geralmente conhece e gosta da programação, e tem uma pequena seleção à disposição.”
Para Sturm, o impacto é diferente para o segmento independente: “O cinema de arte é feito, em geral por empresas pequenas, que têm menos capital de giro e sofrem mais com zero receita. Mas os gastos também são menores.”
Uma saída tem sido o crowdfunding (as populares vaquinhas on-line). “Abrimos uma campanha de financiamento coletivo. Muitas pessoas contribuíram. Em troca, oferecemos filmes para ver na internet, ingressos para quando o cinema reabrir e brindes”, diz Sturm.
Na luta pelo financiamento, velhos hábitos ganharam força: a venda de DVDs e os cinemas drive-in. No Brasil, a Imovision voltou a vender títulos que fizeram sucesso no Brasil em DVD e blu-ray. Jean Thomas diz que é uma aposta, mas foi muito estudada.
“Na primeira semana, vendemos mil [cópias]. É muito animador. Não sei se vai continuar, mas eu sei que já ganhamos essa aposta. Mantém a cumplicidade com o público e, quem sabe, a gente ganha um lucro com isso”, diz.
Os cinemas drive-in, em que as pessoas assistem aos filmes dentro de seus carros, aparecem como alternativa para ver filmes nas telonas. No Brasil, uma cinema do Distrito Federal voltou a funcionar neste final de semana após um decreto do governo distrital. Segundo a imprensa americana, o formato também ganhou força nos Estados Unidos, que ainda tem mais de 300 cinemas do tipo.
Reabertura requer cuidados
Para exibidores e distribuidores, a reabertura das salas não vai significar, imediatamente, a recuperação do cinema como negócio. “A questão é quando vamos reabrir e quando o público vai aceitar entrar de novo em um cinema. A reabertura é muito complicada e complexa”, pondera Boudier.
Espera-se que as pessoas ainda fiquem com medo de frequentar cinemas mesmo após a reabertura oficial, por ser um local fechado, com aglomeração e ar condicionado.
Além disso, as salas precisarão se readequar e diminuir sua capacidade. E os cinemas precisarão aumentar gastos com higienização.
Jean Thomas diz que o governo terá que intervir para dar força aos filmes independentes. “O governo vai precisar lutar contra a pirataria e limitar a exibição de blockbusters, para impedir que um filmes ocupe 80% das salas como já ocorreu.”
Lista de festivais on-line:
We Are One: A Global Film Festival
Festival Varilux em casa
É tudo verdade
Visions du réel