Felipe Poeta embasa o rap com citações e batidas de samba em EP que abre caminhos para o artista


Com cinco músicas e levadas de R&B, o disco autoral ‘Creation’ marca a estreia do cantor, compositor e produtor musical no mercado fonográfico. Capa do EP ‘Creation’, de Felipe Poeta
Reprodução
Resenha de EP
Título: Creation
Artista: Felipe Poeta
Edição: Tha’ House Records
Cotação: * * * *
♪ Não fosse pelo nome do artista, Felipe Poeta, escrito em bom português, a música Next steps poderia ser ouvida como se fosse de um cantor norte-americano. Composição escrita em inglês, Next steps mixa a sintaxe do rap com a levada do R&B contemporâneo que dá o tom de boa parte do universo pop dos Estados Unidos.
Next steps é a música que abre o EP Creation (2020), disco autoral que marca a estreia do cantor, compositor e produtor musical carioca Felipe Poeta no mercado fonográfico.
Na sequência das cinco faixas do EP produzido pelo próprio artista, U and me suaviza o clima, sinalizando que há bossa no boom bap formatado por Poeta com mix de boas influências musicais norte-americanas e brasileiras.
À medida que o disco avança, o produtor vai inserindo elementos nacionais em balança sonora que equilibra essas influências, mas que tende a cair no suingue black dos EUA, destino do artista no segundo semestre de 2021, ano em que Poeta pretende se aprimorar no estudo da composição e no ofício de produtor musical e diretor artístico da gravadora The House Company, recém-aberta para abrigar cantores associados ao universo do hip hop.
Terceira música do EP Creation, Ressaca se insinua na cadência bonita do samba com letra em português que remói memórias de canções antigas lembradas de frente para o mar. O samba evolui e se transmuta na faixa com batidas de R&B e rap, portos seguros de Poeta nesse mar de influências.
Citando o exagero de Cazuza (1958 – 1990) na letra em português que também embute versos alusivos aos sambas Desde que o samba é samba (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1992) e Não quero mais amar a ninguém (Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda, 1936), este em referência à gravação feita por Paulinho da Viola no álbum Nervos de aço (1973), Felipe Poeta experimenta mistura que dá o tom do disco.
Tanto que o artista volta a citar Cartola (1908 – 1980) em Two steps, música bilíngue que parte do samba em português para cair na batida do rap escrito em inglês, alternando cadências ao longo dos dois minutos e 21 segundos da faixa.
No arremate do EP Creation, Felipe Poeta encena o drama da violência urbana em The drama effect, citando Jay-Z, rapper influente dos anos 1990 e 2000.
Mesmo sem reinventar roda que, no Brasil, sempre girou em torno da miscigenação antropofágica, o EP Creation abre caminhos e aponta futuro para Felipe Poeta.