Fabiana Cozza se eleva em álbum em que o canto é reza em louvor da ancestralidade afro-brasileira


Calcada nos toques da percussão e do baixo, a sonoridade criada pelo produtor musical Fi Maróstica valoriza o repertório inédito do disco ‘Dos Santos’. Capa do álbum ‘Dos Santos’, de Fabiana Cozza
José de Holanda
Resenha de álbum
Título: Dos Santos
Artista: Fabiana Cozza
Gravadora: Agô Produções
Cotação: * * * * *
♪ Quando Fabiana Cozza canta em dialeto africano os seis versos de Lemba Kakala, uma das 19 músicas do álbum Dos Santos, é como se sentimento de fé atravessasse séculos de resistência do povo negro – pelo fio invisível da alma – e chegasse ao Brasil de 2020 com a mesma emoção ancestral, reverberada nessa saudação a Oxalá feita pelo compositor baiano Tiganá Santana. O som do alaúde do músico árabe Sami Bordokan se conecta aos vocais da cantora para irradiar o legado de antepassados afro-brasileiros.
No mundo a partir desta sexta-feira, 4 de setembro, Dos Santos é o oitavo álbum de Fabiana Cozza dos Santos. O primeiro inteiramente dedicado a um canto de fé desde sempre professado na discografia da artista paulistana.
Dos Santos é álbum que, no Brasil inflamado de 2020, soa como ato político de resistência por trazer músicas – inéditas, em maioria, e feitas sob encomenda para a cantora por grandes compositores – que louvam divindades das religiões de matrizes afro-brasileiras.
Dos Santos é o álbum de cantora orgulhosamente negra, batizada nos terreiros do candomblé e da Jurema Sagrada, manifestação religiosa de origem indígena. Uma cantora com autoridade vocal e racial para saudar orixás e santos em repertório que por vezes atinge o sublime na louvação dessa ancestralidade em pulsão de criação que já se eleva ao divino na primeira faixa, Oxalá um dia.
Em Oxalá um dia, enquanto os vocais de Mû Mbana – cantor africano nascido em ilha de Guiné-Bissau, na África ocidental – ressoam heranças de tempos imemoriais, Fabiana Cozza recita texto de Tiganá Santana.
Nesse texto, o escritor e compositor baiano fala da força delgada dos ares que não se regem com as mãos, da placenta seminal que vira vento, centelha divina da criação de sonhos e matérias. “Cantar é lembrar que esses ares transmutam-se em sangue, correndo nas veias do que acontece”, sintetiza Cozza na sentença final da faixa.
“O sopro de Nanã re-fecunda minha voz / A vida é coisa vã, cantarei veloz”, rima a cantora, corroborando a sentença, com a voz fertilizada na música Sopro, outra fundamental colaboração do mesmo Tiganá Santana, autor de versos bafejados somente pela percussão de Ari Colares.
É na alta velocidade rítmica de Caboclaria – composição de Alfredo Del-Penho com letra de Luiz Antônio Simas – que Fabiana Cozza fecha o álbum Dos Santos com saudação das folhas sagradas em tema que evoca entidades e tradições indígenas.
Fabiana Cozza alcança aura sagrada quando canta ‘Senhora negra’ e ‘Orin mimo’, destaques do álbum ‘Dos Santos’
José de Holanda / Divulgação
Como os orixás são os senhores dos tempos do disco, há faixas em que o canto acontece em feitio de emocionante oração, como em Senhora negra (Sérgio Pererê, 2017). Single que anunciou em junho o álbum gravado com produção musical e arranjos do baixista Fi Maróstica, Senhora negra é louvação a Aparecida, santa rainha do povo banto, celebrada em gravação de aura sublime, amplificada pelos toques dos violoncelos de Adriana Holtz e Vana Bock.
No mesmo tom solene, Fabiana Cozza oferece prece à rainha dos raios, Iansã, no canto quase a capella de Orin mimo (Sandra Simões), outra faixa de aura sagrada em que, além da voz da intérprete, ouve-se apenas os arcos do contrabaixo acústico de Fi Maróstica.
Além de excepcional músico, Maróstica conduz Fabiana Cozza em direção musical incomum que dá sopro de vitalidade a um gênero bem específico, o afro-samba, que já parecia cristalizado no molde experimentado no antológico álbum de 1966 que deu forma a esse gênero ao apresentar o cancioneiro dos compositores Baden Powell (1937 – 2000) e Vinicius de Moraes (1913 – 1980).
Na vigorosa safra do álbum Dos Santos, sambas como Kabiecilê (Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro) – saudação a Xangô, valorizada pela marcação inebriante da percussão de Douglas Alonso – e Ogã de Ogum (Moyseis Marques e Luiz Antônio Simas) descendem da linhagem afro de Baden sem se configurarem cópias da matriz do compositor e violonista fluminense.
Com sonoridade calcada na interação do baixo de Fi Maróstica com as percussões (de Cauê Silva, Simone Sou e Xeina Barros, além dos já citados Ari Colares e Douglas Alonso), com eventuais acréscimos de violoncelos, como em Bravum de Elegbara (Moyseis Marques e Luiz Antônio Simas), o disco prescinde do violão. Mas incorpora o toque da guitarra de Jurandir Santana, músico baiano residente em Barcelona, na Espanha.
A guitarra de Jurandir faz Oração a Ossain (Pedro Luís e Carlos Rennó) cair no suingue africano e reaparece em Manhã de Obá, primeira parceria de Ceumar com Fabiana Cozza. Manhã de Obá louva a orixá guerreira das águas em arranjo que, na introdução, evoca Morena do mar (Dorival Caymmi, 1972).
Fabiana Cozza abre espaço no disco para o canto da ialorixá Mãe Zezé de Oxum
José de Holanda / Divulgação
Em outra corrente marítima, a cantora derrama delicadeza nas águas de Doce Oxum (Gisele de Santi) e, na sequência, abre alas para que a octogenária ialorixá Mãe Zezé de Oxum dê voz rústica aos Cânticos para Iemanjá com o toque do agogô de coco percutido por essa senhora rezadeira.
Tema de domínio público, Cânticos para Iemanjá se alinha, na costura do disco, com outro tema tradicional, Canto pra Xangô, ouvido em idioma africano na voz de Nega Duda, sambadeira do Recôncavo Baiano.
Também da Bahia, o compositor Roque Ferreira baixa em Dos Santos com o samba de coco Dona do mato, faixa batuqueira que mantém o disco fincado no chão dos terreiros e nas raízes indígenas. Desses terreiros, vieram iguarias como o caruru, uma das comidas relacionadas na bem temperada letra de Batucadinho, delicioso samba de Everson Pessoa e Nei Lopes.
Majestoso samba de Douglas Alonso, Tempo velho reitera que, quando o canto é reza em Dos Santos, Fabiana Cozza se eleva ainda mais.
Dos Santos é álbum como o mesmo padrão de (alta) qualidade da discografia da artista, cuja obra fonográfica inclui títulos primorosos como Quando o céu clarear (2007), Partir (2015) – disco que viajou pela África com escala na Bahia – e Canto da noite na boca do vento (2019), tributo da cantora à nobreza de Dona Ivone Lara (1922 – 2018).
Contudo, o momento político do Brasil em 2020 faz o álbum Dos Santos saltar para um patamar mais elevado pelo significado que há, nesse momento, em saudar orixás para afirmar uma ancestralidade afro-brasileira que precisa ser mantida em alto relevo no país.
E não é por acaso que, em Filhas de Iemanjá (Vidal Assis), Fabiana Cozza saúda Marielle Franco (1979 – 2018), Elza Soares, Dandara dos Palmares (???? – 1694), Nina Simone (1933 – 2003) e a própria Ivone Lara, entre outras divindades negras.
Mesmo que uma ou outra música soe sem a força da maior parte do repertório, caso do samba Mantendo laços, aquém do histórico das compositoras Ana Costa e Zélia Duncan, o álbum Dos Santos se sustenta pelo conjunto político e sonoro da obra.
Pulsando nas veias do que acontece no mundo em 2020, Fabiana Cozza faz do canto uma reza, em Dos Santos, em louvor da ancestralidade afro-brasileira.