Estúdios brasileiros de games se adaptam, lançam jogos e até contratam durante quarentena


Empresas como Aquiris, Hoplon e Rogue Snail superam desafios do desenvolvimento remoto e aproveitam crescimento do mercado. Enquanto grande parte da economia sofre com a pandemia do novo coronavírus, o mercado de games tem apresentado crescimento. No Brasil, estúdios desenvolvedores seguem a tendência ao se adaptar ao isolamento social e manter os lançamentos de seus jogos – e chegam a ter vagas abertas para ampliar as equipes.
As vendas de games em março alcançaram US$ 1,6 bilhão, um número 35% maior do que o arrecadado no mesmo período de 2019, segundo a consultoria de mercado NPD.
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O valor elevado ainda não reflete totalmente a mudança de comportamento gerada pelo isolamento, que em países como os Estados Unidos e Brasil começou na metade do mês.
Também não leva em consideração grandes lançamentos seguintes, como “The last of us part 2”.
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Procura-se ajuda
Os três estúdios brasileiros que conversaram com o G1 variam de tamanho e de especializações, mas todos têm em comum o fato de estarem contratando durante a quarentena.
“Em um período difícil para todo mundo, estamos com o privilégio de poder continuar trabalhando”, diz o diretor de negócios da Aquiris Game Studio, Sandro Manfredini.
“Na verdade, estamos até contratando. É um pouco difícil. Sem o contato direto, tem até aumentado o trabalho.”
O estúdio de Porto Alegre lançou em maio uma atualização para seu jogo de corrida para celulares, “Horizon Chase World Tour”, com novas pistas e carros.
Com uma equipe com cerca de 115 pessoas, estão todos trabalhando de casa desde março, em três projetos diferentes.
“A gente nunca tinha imaginado trabalhar todo mundo remotamente. Havia até um preconceito de que isso não pudesse funcionar. E parte desse conceito é porque fazemos uma peça criativa. A coesão é muito importante.”
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Leva para casa
Assim como os colegas do Sul, o estúdio florianopolitano Hoplon observou um crescimento no consumo de seu jogo, o moba (arenas de batalhas multiplayer online) de combate com carros “Heavy Metal Machines”.
“Os usuários jogando mais partidas a gente sentiu muito. Além disso, o mesmo jogador tem enfrentado mais partidas do que antes”, afirma o diretor-executivo Rodrigo Campos.
Com uma equipe de cerca de 70 pessoas, a empresa mandou todos trabalharem de casa na metade de março – o que envolveu um esforço de transporte também de equipamentos, para tivessem as ferramentas necessárias para o desenvolvimento.
“O desafio que as pessoas não esperavam é que no final a gente acaba trabalhando bem mais no home office. Porque no escritório os tempos são bem marcados, agora em casa não tem isso”, diz Campos.
“Então é uma coisa que tem que prestar atenção para não ser algo até prejudicial para a saúde das pessoas. E tem a questão do barulho também, de ter outras pessoas. Nem todo mundo tem um ambiente em casa perfeito para home office.”
Mesmo com a quarentena, a Hoplon manteve o lançamento da nona temporada de seu carro-chefe – sem trocadilho – em maio. E ainda busca preencher vagas abertas desde antes da pandemia.
‘Relic Hunters Zero: Remix’ é nova versão do jogo para Nintendo Switch
Divulgação
Guerrilha com consciência de classe
Já a equipe de 21 pessoas do Rogue Snail não mudou muito de sua rotina. Isso porque o estúdio sempre teve a política de ser totalmente remoto, no que chamam de “desenvolvimento de guerrilha”.
“A gente entende que a indústria do Brasil ainda é muito jovem, então não pode querer brigar de igual para igual com eles (os grandes estúdios estrangeiros), tentar fazer igual esses caras e achar que vai dar certo pra gente”, diz o diretor-executivo do estúdio, Marcos Venturelli.
Com isso, a empresa foi formada com o plano de trabalhar em projetos leves e de forma remota, o que permite a contratação de pessoas dos mais diferentes lugares.
Na equipe, há pessoas de estados como São Paulo, Pernambuco e Tocantins, e de países como Alemanha, Irlanda e Estados Unidos.
“Até porque não tem grandes polos no Brasil. Então às vezes você quer trabalhar com pessoas incríveis que estão a muitos quilômetros de distância. A gente consegue trabalhar com quem a gente quiser no país e no mundo.”
Nessa estratégia o Rogue Snail lançou em maio uma nova versão para o Nintendo Switch de seu jogo principal, “Relic Hunters Zero: Remix”. Por causa dos projetos da franquia, contratou há pouco cinco novos funcionários, e pretende chegar a 30 até o fim de 2020.
Com a experiência no desenvolvimento remoto, Venturelli conta que tem sido procurado para aconselhar estúdios amigos que foram forçados a adotar modelos parecidos.
“A gente tem sido bastante contactado nesse sentido, para resolver problemas, organização. A gente vai dando uma ajuda para a galera, compartilhando esse conhecimento que a gente construiu ao longo do anos.”