Escritores africanos dominaram os prêmios literários em 2021


Prêmio Nobel, o Booker Prize e o Goncourt estão entre as vitórias deste ano. Abdulrazak Gurnah posa para foto em sua casa em Canterbury, Inglaterra, nesta quinta-feira (7)
Frank Augstein/AP
Os escritores africanos ganharam, este ano, três grandes prêmios internacionais: o Prêmio Nobel, o Booker Prize no Reino Unido e o Goncourt na França.
“Vemos um renascimento da atenção do mundo literário sobre a África”, declarou à AFP Xavier Garnier, professor de Literatura Africana francófona e suaíli na universidade Sorbonne Nouvelle. Um fenômeno “singular”.
Historicamente, os escritores africanos são sub-representados no cenário internacional.
Mas neste ano o senegalês Mohamed Mbougar Sarr se destacou, aos 31 anos, como o primeiro escritor da África Subsaariana a levar o Prêmio Goncourt, o Graal da literatura francesa, pelo seu livro “La plus secrète mémoire des hommes” (“A mais secreta memória dos homens”, em tradução livre).
No mesmo dia, o sul-africano Damon Galgut ganhou o Booker Prize, o prêmio máximo para os romances escritos em inglês.
E a coroação aconteceu com o Nobel de Literatura concedido ao tanzaniano Abdulrazak Gurnah.
Mas a lista não acaba: o Booker Prize International coroou o franco-senegalês David Diop, o renomado Prêmio Neustadt (Estados Unidos) foi atribuído ao senegalês Boubacar Boris Diop e o Prêmio Camões (que premia um autor de língua portuguesa) foi vencido pela moçambicana Paulina Chiziane.
Esses prêmios chegam após o “renascimento da literatura africana nos últimos dez anos”, explica à AFP Boniface Mongo-Mboussa, doutor em Literatura Comparada.
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Ecologia e afrofuturismo
A literatura africana está cada vez mais dominada por “escritores profissionais, o que não aconteceu com nossos antecessores”, explica este especialista.
Outro fenômeno coincidente: “a entrada em cena das mulheres”, como Tsitsi Dangarembga (Zimbábue), Paulina Chiziane (Moçambique) ou a já premiada várias vezes Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria).
Os assuntos também mudaram, explica Mongo-Mboussa, escritor e crítico literário.
Mohamed Mbougar Sarr, premiado com o Goncourt, “escolheu falar de literatura” em seu livro, o que significa “tomar distância” dos temas mais comuns das histórias africanas “que falam por exemplo de violência, guerra, das crianças soldados”.
O feminismo, a homossexualidade, a ecologia, o afrofuturismo (corrente da ficção científica) também aparecem na produção literária do continente.
No entanto, no mundo francófono persiste a distinção entre literatura francófona e francesa, destaca Boniface Mongo-Mboussa.
Vários escritores africanos levaram o prêmio Renaudot, outro grande prêmio literário francês. O franco-congolês Alain Mabanckou deu aulas no prestigioso Collège de France.
Mas os escritores francófonos africanos continuam sendo vistos como “produtos do antigo Império” e não realmente como atores no mesmo patamar, acrescenta este doutor em letras.