Enem: alunos ‘nota mil’ na redação ganham milhares de reais com redes sociais, aulas particulares e vídeos no Youtube


Após ganharem destaque por fazerem parte de um restrito grupo de candidatos com a nota máxima na dissertação, jovens conciliam aulas na faculdade com carreira de influenciadores. Lucas Felpi comemora a marca de 500 mil inscritos em seu canal do Youtube
Arquivo pessoal
Lucas Felpi, de 20 anos, destacou-se no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 ao mencionar a série “Black Mirror” na redação – e ainda tirar nota mil.
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Depois disso, tornou-se um “influencer” tão relevante nas redes sociais que foi até citado por outros candidatos em textos do Enem 2019 (veja exemplos abaixo). Impossível não dizer: “Nossa, isso é muito Black Mirror”.
Trechos de redações do Enem 2019 em que Lucas Felpi foi citado. O tema era a democratização do acesso ao cinema no Brasil.
Reprodução/Inep
Lucas Felpi saiu da posição de aluno para virar referência na área. Ele grava vídeos com dicas sobre a prova e comemora, neste mês, a marca de 500 mil inscritos em seu canal do Youtube.
Já fechou parcerias e produziu conteúdos patrocinados para marcas como: Quero Bolsa, SAS Plataforma de Educação, Estácio, Sistema COC de Ensino, Salão do Estudante, Me Salva, Curso Anglo, Deezer (aplicativo de música), Lojas Americanas, Club Social…
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“Imagino que muita gente pense no influenciador como alguém que encontrou uma boa forma de ganhar dinheiro. Mas não foi por isso que entrei no ramo. Eu queria ajudar as pessoas”, conta Felpi.
“E foi muito bom ver que eu poderia ter um retorno financeiro com meus conteúdos, mesmo sem cobrar nada dos estudantes.”
Todo o material fornecido pelo jovem para ajudar os candidatos do Enem é gratuito – apostilas anuais com a íntegra das redações que tiraram nota máxima, vídeos no Youtube, aulas on-line e posts com orientações de estudo no Instagram e no TikTok.
O dinheiro que ele arrecada é por meio de inserções comerciais, stories (vídeos curtos) sobre campanhas específicas de alguma empresa e posts patrocinados.
Ele prefere não mencionar valores, mas relata que a remuneração padrão para um post no Instagram é de no mínimo R$ 5 mil. No Youtube, “é bem mais do que isso”.
Como Felpi costuma receber os pagamentos em dólares, o retorno “está valendo muito a pena”, conta. É suficiente para arcar com as despesas de alimentação e moradia nos Estados Unidos, onde ele estuda ciências da computação, e ainda comprar passagens aéreas para visitar o Brasil.
O jovem deve concluir o curso na Universidade de Michigan em 2023. Mesmo fazendo tudo sozinho (gravações de vídeos, roteiros, edição, legendagem para o público surdo e postagem nas redes sociais), ele consegue dar conta das aulas e dessa “carreira paralela” de influenciador.
“Eu ouvia de alguns que seria só um mês de fama. Fui sem expectativas, para ajudar mesmo, mas o canal cresceu e tomou proporções que eu não imaginava”, conta.
“Fui me profissionalizando – no começo, gravava com o meu celular, no ângulo errado; falava muito rápido, tinha a luz ruim. Agora, comprei câmera profissional, aprendi técnicas de edição e de áudio e consegui trazer mais qualidade nos conteúdos que ofereço para os alunos.”
Mais de 1 milhão de visualizações no TikTok
Aline Soares virou produtora de conteúdo depois de tirar mil na redação do Enem
Arquivo pessoal
No Enem 2020, Aline Soares ficou no seleto grupo de 28 candidatos que alcançaram a nota máxima na redação.
Assim que ela gravou um vídeo no TikTok contando a novidade, percebeu que havia um interesse grande do público por suas dicas de estudo – o post bombou tanto que ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações.
“Comecei a postar mais materiais no Instagram e escolhi um nome fácil para o meu perfil: ‘Ensina Aline’. Falo de como organizar a rotina, estudar para o Enem e escrever um bom texto”, diz.
“Em 5 meses, já atingi mais de 10 mil seguidores no Insta e 30 mil no TikTok. É muita dedicação e esforço para cada post. Fico muito feliz de estar ajudando pessoas – recebo muitas mensagens de gente agradecendo, principalmente alunos de escola pública”, conta.
Aline estuda direito na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e, nos intervalos das aulas, investe nas redes sociais. Sua intenção é contratar uma equipe especializada para aumentar a frequência de postagens.
“Fui procurada pelo Instagram depois de colocar no meu perfil que sou criadora de conteúdo. Em setembro e outubro, fiz várias lives patrocinadas pelo Insta e consegui monetizá-las”, diz. “Estou estudando bastante sobre algoritmos, engajamento e interação. Quero me desenvolver ainda mais.”
Aulas particulares e correções de redação (R$ 90 por texto)
Larissa Cunha prepara posts no Instagram sobre redação e dá aulas particulares
Arquivo pessoal
Larissa Cunha, de 22 anos, também tirou mil na redação do Enem 2020 e montou uma página no Instagram com dicas para escrever a dissertação: “Jaleco Informativo”, em referência à sua aprovação em medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ela também vende e-books com dicas de repertório cultural para os alunos usarem em suas dissertações (R$ 60 cada) e dá aula e/ou corrige redações de 40 alunos.
Atualmente, ela cobra os seguintes valores para os pacotes de Enem:
4 aulas mensais, em grupo: R$ 100 por pessoa
4 aulas mensais, particulares: R$ 200 reais por pessoa
Correção de redação, com comentários detalhados sobre cada frase: R$ 90 por texto
“A maioria dos alunos me conheceu pelas redes sociais”, diz Larissa. “Meus posts demandam muito tempo. Preciso caprichar na ideia do conteúdo e no design. Até tentei contratar um social media, mas não deu certo – prefiro tudo do meu jeito.”
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Mais de 1.300 alunos
Duda abriu um curso de mentoria para a redação do Enem, após tirar nota mil
Arquivo pessoal
Outra jovem que tirou mil na redação do Enem e virou influenciadora e professora foi Duda Andrade, de 20 anos, moradora de Maceió. Ela alcançou a nota máxima quando era treineira, em 2017.
Logo depois de saber o resultado, já passou a fazer posts nas redes sociais com dicas de estudo. No ano seguinte, publicou um livro sobre redação do Enem, com dicas de repertório cultural (filósofos e músicas que podem ser citados no texto, por exemplo).
Mas o que faz mais sucesso mesmo são suas “mentorias”: Duda já teve mais de 1.300 alunos, que compraram uma das modalidades de seu curso (valores que vão de R$ 77, para correções e aulas, a R$ 207, com consultorias individuais e plantões de dúvida).
Para conseguir conciliar as aulas de direito, o estágio e as mentorias, Duda contratou uma equipe que a auxilia nas correções das redações.
“Minha renda, atualmente, vem do curso, das divulgações que faço no Instagram e dos produtos que vendo, como um e-book com estratégias para chegar à nota mil. Na pandemia, a procura aumentou bastante”, diz.
Ela ainda não sabe até quando seguirá a carreira de influenciadora. “Por enquanto, está dando muito certo.”
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