Elza Soares faz 90 anos com pleno reconhecimento e com discografia ainda a ser descoberta…


Elza Soares, em foto de 1970, faz 90 anos nesta quarta-feira, 22 de julho de 2020
Reprodução / Capa do disco ‘Sambas e mais sambas’
♪ MEMÓRIA – Nascida efetivamente em 22 de julho de 1930, como consta em antigo RG, Elza Soares completa 90 anos de vida e de luta nesta quarta-feira com pleno reconhecimento da vitória nessa batalha cotidiana para se impor no mundo como mulher, negra e cantora de assinatura vocal pessoal e intransferível. Elza nunca foi tão aclamada como nos últimos cinco anos.
Desde que lançou o impactante álbum A mulher do fim do mundo em 2015, a cantora vive mais uma fase de renascimento artístico que – tudo indica – vai durar, desta vez, até o fim. “Me deixem cantar até o fim”, pediu Elza em verso do samba-título do disco A mulher do fim do mundo.
Pedido aceito pelo público jovem que a consagra desde então, Elza segue moderna, antenada, contemporânea, como nenhuma outra cantora da idade dela.
Contudo, há sutil ironia nesse congraçamento popular. Esse público louva Elza Soares sem conhecer de fato a trajetória da cantora carioca projetada em dezembro de 1959 com regravação retumbante do samba Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, 1938).
Elza renasceu com A mulher do fim do mundo. Mas não nasceu ali, como devem pensar alguns dos muitos seguidores atuais dessa cantora ativa em redes sociais. Falta para esse público de hoje descobrir a Elza Soares de ontem para ligar os pontos da história – e um bom começo pode ser ouvir o podcast sobre os 90 anos da artista:
Falta descobrir a Elza do sambalanço, gênero que norteou a primeira fase da discografia editada pela cantora na gravadora Odeon no período que foi de 1960 – ano das gravações dos álbuns Se acaso você chegasse e A bossa negra, este produzido em outubro de 1960, mas lançado a rigor em janeiro de 1961 – a 1970, ano do álbum Sambas e mais sambas.
Nessa (também) áurea década de 1960, Elza Soares mostrou que tinha telecoteco e que sabia cair no suingue com o bebop e a bossa negra da voz intuitivamente jazzística à moda brasileira. Ouvir álbuns como O samba é Elza Soares (1961), Sambossa (1963), Na roda do samba (1964) e Um show de Elza (1965) é entrar em contato com uma outra Elza Soares, tão importante quanto a Elza do disco Deus é mulher (2018).
Pautada sobretudo pelo suingue da cadência do samba, essa primeira fase áurea da cantora abarca discos gravados por Elza com o cantor Miltinho (1928 – 2014) e com o baterista Wilson das Neves (1936 – 2017). E outras fases vieram, nem todas com o mesmo brilho.
Falta descobrir também a discografia de Elza Soares na década de 1970. Embora tenha menor coesão, sobretudo por conta da irregularidade do repertório do álbum Pilão + raça = Elza (1977), essa fase da carreira fonográfica da cantora – vivida principalmente na gravadora nacional Tapecar – foi voltada para o samba de ritmo mais tradicional (sem tanto bebop e bossa no balanço) e rendeu sucessos como Salve a Mocidade (Luiz Reis, 1974), Bom dia, Portela (David Correa e Bebeto Di São João, 1974), Pranto livre (Dida e Everaldo da Viola, 1974) e Malandro (Jorge Aragão e Jotabê, 1976), samba que continuou associado à voz de Elza.
Elza Soares tem discografia pautada pelo sambalanço na década de 1960
Pedro Loureiro / Divulgação
A artista amargou período de ostracismo na década de 1980 e, quando pensou em desistir de cantar, bateu literalmente na porta de Caetano Veloso, em hotel de São Paulo, para pedir ajuda. O auxílio veio na forma de convite para Elza participar da gravação do samba-rap Língua (Caetano Veloso, 1984), faixa de álbum pop do cantor, Velô (1984).
Essa participação mostrou a bossa negra de Elza Soares a uma nova geração e abriu caminho para que a cantora gravasse e lançasse, em 1985, um álbum menos voltado para o samba, Somos todos iguais, com música de Cazuza (1958 – 1990) e standard do jazz no repertório de conceito mais livre. Nada aconteceu com o LP e, entre idas e vindas, Elza Soares fez vários outros discos sem repercussão.
Dura na queda, a cantora resistiu e, em 2002, sob a direção artística de José Miguel Wisnik, apresentou um dos álbuns mais modernos da vasta obra fonográfica, Do cóccix até o pescoço, disco pautado por modernidade que, mesmo em outro universo musical, se alinha com a contemporaneidade dos discos feitos no rastro da consagração com o álbum A mulher do fim do mundo. No embalo, Elza se jogou na pista com Vivo feliz (2003), disco de arrojada arquitetura eletrônica.
Enfim, Elza Sores faz 90 anos nesta quarta-feira, 22 de julho de 2020, e talvez o melhor presente que o público de hoje possa dar à cantora é ouvir os discos de ontem para entender os caminhos por vezes tortuosos que conduziram a artista ao topo do universo pop.