Edição genética feita em bebês chinesas está associada a menor expectativa de vida, diz estudo


Pesquisador chinês praticou mutação genética em gêmeas para torná-las imunes ao HIV no ano passado, mas manobra pode ter aumentado risco de morte prematura das cobaias. O cientista chinês scientist He Jiankui afirma ter ajudado a criar os primeiros bebês geneticamente modificados no mundo
Mark Schiefelbein/AP
A mutação genética praticada em gêmeas chinesas no ano passado, tornando-as imunes ao vírus HIV, pode reduzir significativamente sua expectativa de vida, disseram cientistas nesta segunda-feira em uma nova advertência contra a edição genética humana.
No ano passado, o pesquisador chinês He Jiankui provocou indignação generalizada entre os médicos ao revelar os resultados de um experimento que ele realizou para alterar o DNA de duas meninas gêmeas, levando as autoridades em Pequim a anunciar uma moratória à prática.
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Ele usou uma ferramenta de edição de genes conhecida como Crispr para inserir uma variante modificada de um gene CCR5 – conhecida como Delta32 – no cromossomo das meninas no estágio embrionário, o que significa que agora elas são imunes ao vírus HIV.
Mas um novo estudo abrangente sobre a composição genética e informações sobre registros de óbitos sugere que indivíduos portadores da mutação D32 enfrentam um risco 20% maior de morte prematura em comparação com a população global.
Pesquisadores da Universidade de Berkeley, Califórnia, examinaram os dados de saúde de 409 mil pessoas de ascendência britânica e analisaram se elas possuíam ou não a mutação, que ocorre naturalmente em cerca de 1% da população, e como e quando morreram.
Eles descobriram que os indivíduos com essa mutação tinham 21% mais chances de morrer antes dos 76 anos do que aqueles que não a possuíam.
A análise também revelou que os portadores da D32 tinham uma probabilidade significativamente maior de morrer de doenças que são muito mais comuns do que o HIV, principalmente a gripe.
“O custo da resistência ao HIV pode ser uma maior suscetibilidade a outras doenças, talvez mais comuns”, escreveram os autores do estudo.
“Não sabemos o suficiente”
A pesquisa, publicada na revista Nature Medicine, não explica porque a mutação aumenta o risco de mortalidade, mas os autores disseram que havia uma clara tendência estatística que deveria desencorajar repetições da experiência de He.
“A introdução de novas ou derivadas mutações em humanos usando a tecnologia Crispr (…) vem com um risco considerável, mesmo se as mutações proporcionarem uma vantagem percebida”, disseram.
A China disse em novembro que ordenou que as pessoas envolvidas no experimento das gêmeas suspendessem suas atividades, determinando que este “viola seriamente” a lei nacional e a ética médica.
David Curtis, professor honorário do Instituto de Genética da University College London, disse que o novo estudo fornece uma visão clara das possíveis consequências não intencionais da edição genética em humanos.
“Há muitos outros exemplos na medicina em que uma intervenção destinada a tratar uma condição causa inadvertidamente grandes problemas inesperados em outros lugares”, disse Curtis, que não participou do estudo.
“Isso nos manda um aviso de que devemos ser extremamente cautelosos em relação à introdução de terapias que envolvam a modificação do código genético”.
Robin Lovell-Badge, líder do grupo no The Francis Crick Institute em Londres, acrescentou: “Tudo isso mostra mais uma vez que He Jiankui foi insensato ao escolher o CCR5 para sofrer mutações em suas tentativas de edição do genoma. Nós simplesmente ainda não sabemos o suficiente sobre o gene”.
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Betta Jaworski/G1