Duda Beat segue fiel ao amor sofrido no 2º álbum: ‘Sempre vou escrever sobre sofrência’


‘Te amo lá fora’ tem mistura de ritmos que reforça identidade da cantora pernambucana, famosa pelo hit ‘Bixinho’. Ao G1, Duda explica faixas e diz que está ‘menos iludida’ na vida e na música. Duda Beat se questionou se o que estava cantando no novo álbum era “suficiente” diante da dor que a pandemia tem causado no mundo há mais de um ano. A dúvida é válida, mas a resposta é sim, não só suficiente, como necessário.
“Te Amo Lá Fora” é o segundo disco da cantora pernambucana, radicada no Rio, e está disponível nas plataformas de streaming desde a noite desta terça (27).
Sofrer por amor, característica tão presente em “Sinto Muito”, disco de estreia de Duda em 2018, segue como tema predominante na nova leva de músicas.
“Sempre vou escrever sobre sofrência. Foi muito tempo vivendo nesse lugar de não ser correspondida”, explica Duda ao G1.
Isso fica claro em versos como “Eu estava lá tão bonitinha, você passou e me olhou, se lembrou que eu te amava, seguiu em frente, deu em nada” de “Game”.
Ou “Nem um Pouquinho”, uma das faixas mais interessantes do disco, em que canta “Sei que você não vale nem um pouquinho, mas mesmo assim quero te dar o meu carinho, para poder, até que enfim, satisfazer a nossa solidão”.
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Duda Beat segue fiel ao amor sofrido no disco ‘Te Amo Lá Fora’
Divulgação/Fernando Tomaz
Mas, Duda defende que há um amadurecimento no assunto, até por estar casada com Tomás Tróia, um dos produtores do disco ao lado de Lux, há quatro anos.
“Me vejo muito mais madura, não só tecnicamente, como emocionalmente. Sinto que nesse segundo álbum rola, da minha parte, um afastamento sobre os meus sentimentos”, continua.
Ela destaca “Meu Pisêro” como uma das que marcam essa volta por cima e “Decisão de Te Amar” como uma que representa um amor correspondido. A música, inclusive, foi feita para Tomás.
Um dos pontos altos do disco, além das composições de Eduarda Bittencourt, é a mistura de ritmos que contribuem para marcar ainda mais a identidade da cantora de 33 anos na cena brasileira.
Nas 11 faixas, aparecem elementos do coco de roda, maracatu, piseiro, reggae, trap, pagode baiano que se misturam a sintetizadores, samples de coral de igreja americano e até arranjos de cordas.
Tudo junto com a “cara” da Duda para chegar até a música pop que Duda é nome forte na cena alternativa, mas ela quer mais. Quer ampliar o público e tocar nas rádios, campo ainda pouco explorado e difícil, mas que não parece impossível para a pernambucana.
Na entrevista abaixo, Duda Beat fala sobre o fato de lançar um trabalho sem poder sair em turnê, além de contar os bastidores de músicas que certamente vão animar as casas de muitas pessoas em quarentena, enquanto os shows não voltam a acontecer:
G1 – Muito se fala do segundo disco, rola muita pressão pelo continuidade de um trabalho bem sucedido. Qual era o seu desafio em “Te Amo Lá Fora”?
Duda Beat – O maior desafio é fazer um disco e não poder fazer show depois… Tenho pensado muito nisso, mas também quando ele vier, vai ser muito lindo, tenho certeza.
G1 – Mas foi um processo prazeroso ou você ficou tensa?
Duda Beat – Vou dar um contexto para responder… Fiz o último show em 6 ou 7 de março de 2020 em João Pessoa e depois já tinha programado passar 20 dias na serra [no Rio de Janeiro] com a banda para fazer uma imersão no disco.
Quando a gente foi, ainda não estava rolando pandemia. Voltamos para passar o ano trabalhando no disco.
Nesse sentido, foi muito prazeroso, mas, confesso que muitas vezes, parava e pensava se o que estava falando era realmente suficiente diante da dor que o mundo está vivendo, diante desses problemas que a gente está passando no mundo.
Ao mesmo tempo, pensava que precisava colocar o disco no mundo para as pessoas ouvirem, para levar um pouco de alegria para as casas das pessoas.
Duda Beat no clipe de ‘Meu Pisêro’
Divulgação/Caíque Silva
G1 – O amor é uma marca forte do ‘Sinto Muito’ e segue como tema predominante nesse segundo disco. Não dá para falar que a sofrência foi superada, né?
Duda Beat – Não dá [dá uma risada]… Acho que sempre vou falar disso, sempre vou escrever sobre sofrência. Foi muito tempo vivendo nesse lugar de sofrer, de não ser correspondida.
Hoje em dia, sou correspondida, estou casada e feliz, mas sinto que ainda tem muita coisa para falar sobre esse tema na vida assim.
Tem sofrência, mas também tem música de amor de correspondido. “Chega” foi para o Tomás e agora fiz “A Decisão de Te Amar”. É uma música que eu estou feliz, até boba de tanto amor, sabe?
G1 – Qual é a diferença no seu jeito de cantar o amor agora, fazendo uma comparação com 3 anos atrás?
Duda Beat – Me vejo muito mais madura, não só tecnicamente, como emocionalmente. Sinto que nesse segundo álbum rola da minha parte um afastamento sobre os meus sentimentos.
Em “Meu Pisêro”, primeira faixa que trabalhei do disco, eu falo no final: “Tá tudo perdoado, ninguém é obrigado a me amar”. Nessa frase eu sintetizo tudo que vem nesse disco, estou mais madura mesmo e enxergando tudo isso de fora.
Consigo perceber que tudo bem, que essa pessoa ter passado na minha vida foi importante de certa forma, então está tudo certo. Nesse álbum, me sinto menos iludida do que há 3 anos atrás.
Como diz Tomás, desilusão é bom porque é o momento que a gente caí na realidade e percebe que alguma coisa precisa mudar. Acho que é por aí…
G1 – Falando mais da parte musical, queria que contasse um pouco desses gêneros todos que estão no disco.
Duda Beat – É um disco super eclético, até mais que o primeiro. Quis colocar ritmos que eu gosto de ouvir pessoalmente, que me completam. Trouxe maracatu, coco, pagode baiano, piseiro. Quis trazer pq é o que eu gosto de ouvir. É um disco tão honesto que reflete a minha playlist, as coisas que gosto de escutar.
G1 – E resumidamente, o que tem nessa playlist?
Duda Beat – Primeiro tudo que vem de Pernambuco, Dona Cila do Coco [é uma das duas participações do disco], dona Selma do Coco e outras tantas que marcaram minha vida nesse sentido. Maracatu, frevo, baião, forró, piseiro. Lenine, Alceu, Nação, Caetano, Gil, Djavan, Ivete.
Partindo pro mundo, não poderia deixar de citar a minha musa Lady Gaga, que sou apaixonada. Acho uma artista completa, fiel à ela e não tem medo de ser ela.
Também citaria Rosalía, Kali Uchis, Rihanna, Beyoncé e um disco que ouvi bastante “Suddenly” [do canadense Dan Snaith]. Disco muito, muito bonito que queria recomendar.
Duda Beat no estúdio carioca Frigideira
Reprodução / Instagram Duda Beat
G1 – O disco tem elementos eletrônicos, mas também vai pro reggae, pagode baiano, coco de roda, tem arranjo de cordas em “Meu Coração” e até um pop mais sintético em “Tocar Você”. Você quis mostrar várias Dudas ou foi algo que aconteceu naturalmente?
Duda Beat – Foi orgânico mesmo, reflete o que eu gosto de ouvir, mas também acaba mostrando que eu posso passear por vários ritmos, acho que isso é ser pop também. Quando você pode ir para o pagode, reggae, reggaeton, coco, maracatu.
G1 – Seu primeiro disco estava mais associado a uma sofrência indie. Depois, você também fez alguns singles ligados ao brega. Dá para falar que você faz uma música brega mais cult, mais gourmetizada?
Duda Beat – Olha, tem referências de brega na minha música, mas não acho que faço brega mesmo. Acho que tem a referência ali em “Bédi Beat”, que é ao mesmo tempo um reggae. Tenho referências sim, mas não me vejo nesse lugar de uma cantora de brega ou que tem tanto de brega.
Me vejo mais pop, mas principalmente pelo fato de dialogar com vários ritmos, nesse lugar. Minhas letras são de fácil compreensão, são simples nesse sentido. Consigo dialogar com diversos ritmos. Acho que é mais sobre isso.
G1 – O tom melancólico de ‘Sinto Muito’ parece que foi meio superado. O objetivo era incendiar as casas das pessoas e depois os shows?
Duda Beat – Sem dúvida, um dos objetivos era esse. Arrasta o móvel da sala, dança, ouve a letra e quando o show chegar, a gente vai arrasar.
Duda Beat com os produtores Lux&Troia
Reprodução/Instagram/DudaBeat
G1 – Você abre o disco “Tu e Eu” com a participação da dona Cila do Coco. É uma forma de marcar suas origens?
Duda Beat – Essa faixa é uma homenagem ao meu país Pernambuco, que amo tanto. Já tinha vontade de fazer um maracatu e a participação de Dona Cila é muito importante, não é um sample qualquer, é ela ali cantando comigo.
G1 – “Nem um Pouquinho”, por exemplo, começa bem eletrônica, depois vira pagode baiano e depois ainda tem rap com o Trevo, artista baiano. Conta um pouco sobre essa faixa.
Duda Beat – Essa é uma faixa que tenho desde antes de lançar o “Sinto Muito”, acredita? A parte inteira que eu canto, já tenho escrita há um tempo. A gente deixou ali no celular e quando foi em 2020, a gente começou a pegar nela de novo.
Os meninos [Lux&Tróia, produtores do disco] falaram que poderia ser um pagodão baiano e eu achei que tinha tudo a ver.
A gente costuma brincar que é um pagotrap, um pagode com trap. Tinha que ser o Trevo para gravar isso, que é um artista que admiro muito. É uma faixa muito rica, tem até um sample de coral de igreja americana.
G1 – “50 Meninas” é uma música bem reggae. Você já tinha vontade de fazer uma música mais voltada para esse ritmo?
Duda Beat – Sim, já escrevi na intenção de ser um reggae. A “Decisão de te Amar” também é um “xote reggae”, porque a clave rítmica é muito parecida. No “Sinto Muito”, eu tenho a “Bolo de Rolo” que é um reggae também.
Já flerto com reggae tem um tempo, escuto, tenho um super desejo de fazer um feat com a Koffee ou com Chronixx. Espero que um dia role.
Quando a música foi concebida, já falei com os meninos que queria dançar como um reggae. Nossa comunicação é muito sobre isso, como eu quero dançar, como quero que essa música venha para o mundo.
G1 – Legal essa relação com a dança. É uma coisa que vocês realmente pensam e elaboram em cima disso?
Duda Beat – Sim, super, porque eu não toco nenhum instrumento. Então falo como quero dançar, como gosto do ritmo… é bem assim a nossa comunicação.
Duda Beat foi uma das atrações da 23ª edição do Cultura Inglesa Festival neste domingo (9), em São Paulo
Celso Tavares/G1
G1 – No lado oposto, “Meu Coração” é aquela para chorar embaixo das cobertas. Precisava dar atualizar a preferida daqueles que sofrem demais, né?
Duda Beat – “Meu coração” é uma faixa que eu amo, fiz tomando banho. É uma curiosidade isso, mas dizem que quando você está super relaxado vem a inspiração. Escrevi ela inteira na minha cabeça, saí do banho e gravei inteira a letra.
A gente não sabia qual instrumento ia me acompanhar no início, tinha vontade de ter uma orquestra na música. No final das contas, acabou que essa é a única música que não tem beat, então é uma “Duda Beatless”.
É super legal pontuar, porque é uma faixa muito única. A gente tem os arranjos de cordas do Felipe Pacheco, meu parceiro em “Todo Carinho” também. A faixa veio para chorar, para sofrer e para pensar também.
Duda Beat
Caíque Silva / Divulgação
G1 – Você já estreou conquistando um espaço na música brasileira com ‘Sinto Muito’. O que quer com esse novo disco?
Duda Beat – Quero que muita gente escute, também pelo fato de querer que as pessoas recebam o recado que as músicas têm. Quero atingir outros públicos, mudar a vida das pessoas. Isso é o grande e verdadeiro significado de sucesso: quando você escrever alguma coisa e aquilo toca na pessoa que está ouvindo.
Quero tocar na rádio também, uma coisa que ainda não consegui muito. Quero que elas olhem pra mim e pensem “posso tocar Duda Beat aqui”.
G1 – Essa mistura mais eletrônica com elementos brasileiros é um estilo, que faz sucesso fora do Brasil. A gente tem a Céu como um exemplo de artista da MPB, que faz uma música que é consumida muito bem lá fora. Você pensou nisso durante a produção desse disco?
Duda Beat – Não pensei em fazer algo voltado para o [mercado] internacional. A gente realmente seguiu o nosso feeling sobre o que cada música precisava, mas é uma vontade minha, com certeza.
Tenho vontade de lançar um EP em inglês, quem sabe? Mas ainda não tem data, nem comecei as músicas ainda, mas continua sendo uma vontade.
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