Documentos vazados sugerem que Facebook sabia da radicalização de usuários mas demorou a tomar uma atitude, diz imprensa


Conjunto de jornais americanos investigou uma série de relatos de funcionários que alertaram à empresa sobre como os algoritmos da rede social facilitavam a disseminação de informações falsas. Imagem ilustrativa mostra o logo do Facebook
REUTERS/Dado Ruvic/Illustration/File Photo
Uma série de documentos vazados sugerem que o Facebook sabia da radicalização de usuários na rede social mas demorou a tomar uma atitude, segundo reportagens da imprensa americana publicadas neste sábado (23).
Um conjunto de jornais dos Estados Unidos investigou relatórios internos da companhia em que funcionários alertaram sobre como os algoritmos facilitavam a disseminação de informações falsas.
Os relatórios são os mesmos que foram apresentados pela delatora Frances Haugen, ex-funcionária da empresa, ao Congresso americano para corroborar sua fala durante um comitê da Casa.
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Os documentos, obtidos pelo “The Washington Post”, “The New York Times”, NBC, CNN, entre outros, não mostram, no entanto, todo o caminho da tomada de decisões dentro da companhia.
Em alguns dos relatos há demonstrações de esforços da empresa para controlar a escalada da desinformação, já em outros, preocupações da rede com sua perda de engajamento e reputação.
‘A jornada de Carol’
O “New York Times” e a emissora americana NBC destacaram um estudo feito por um dos funcionários da companhia em 2019, que levou o nome de “Carol’s Journey to QAnon”.
O experimento acompanhou a jornada de Carol – uma mãe conservadora da Carolina do Norte – dentro da rede social para investigar as recomendações dos algoritmos baseados em seus gostos.
Carol não existia, era uma conta fake controlada por um funcionário para avaliar a resposta da rede às conexões e curtidas de um usuário com o perfil mais conservador.
Em menos de uma semana de uso, ela já recebia recomendações automáticas para fazer parte de grupos de conteúdos conspiratórios como o QAnon – que acredita que o presidente Donald Trump travava uma batalha contra políticos democratas pedófilos.
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Em menos de três semanas, relata o jornal a partir da descrição do funcionário, o feed de Carol “se tornou uma constante de conteúdos enganosos, polarizadores e de baixa qualidade.”
Imagem ilustrativa mostra Feed de Notícias do Facebook
Divulgação/Facebook
O Facebook respondeu à reportagem por meio de um porta-voz que afirmou que este estudo, em específico, “é um exemplo perfeito de como a companhia melhora seus sistemas, e ajudou a retirar os conteúdos do QAnon de sua plataforma.”
Um outro experimento como este foi feito em agosto de 2020, no mesmo mês em que a empresa derrubou as páginas em apoio ao QAnon – e três meses antes das eleições presidenciais.
A pesquisadora responsável teria dito, segundo o “Times”, que a rede social “sabia há mais de um ano” que o sistema de recomendações abria caminho para teorias conspiratórias, o que deu força a políticos extremistas em suas campanhas.
Invasão do Capitólio
A reportagem da rede americana CNN deu espaço para as alegações de Haugen sobre o papel do Facebook durante a invasão do Capitólio dos EUA, durante a contagem oficial de votos em 6 de janeiro.
A ex-funcionária afirma que a rede social enganou investidores e o público sobre sua atuação durante os “atos extremistas relacionados às eleições de 2020 e à insurreição de 6 de janeiro”.
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O Facebook nega os argumentos de Haugen e afirma que a funcionária “tirou de contexto” os documentos para apresentar um “retrato infiel” da companhia.
“A responsabilidade pela violência do ataque ao Capitólio recai sobre os que invadiram e os que os encorajaram”, afirmou o porta-voz Andy Stone à emissora.
“Nós tomamos atitudes como a limitação de conteúdos que deslegitimavam as eleições e apresentando a contagem mais recente de votos em postos que declaravam a vitória antecipada de Trump.”