Djonga conta como uniu rap, ‘melodias de funk proibidão’ e voz ‘sentimental’ em ‘Histórias da minha área’


Rapper fala de seu quarto álbum e sobre estilo combativo ‘sem ser chato nem perder o swing’. Pela 2ª vez seguida, faixas do disco invadem ranking do YouTube, com 3 faixas no top 5. Djonga
Daniel Assis / Divulgação
Djonga não quer andar na linha. Em seu quarto disco, “Histórias da minha área”, ele faz rap com um vocal rasgado que parece de funk melódico – “das antigas, proibidão, de bandido mesmo”, ele define. O rapper não quer seguir padrões de estilo e nem ditar regras sociais.
O cara que popularizou o grito “fogo nos racistas” continua contundente contra injustiças, mas não abre mão do bom humor e do “swing”. “Senão não é arte, é panfleto. E panfleto deixa para outro entregar”, explica o artista mineiro ao G1.
Ele segue desobediente e relevante. O lançamento repetiu o feito do disco anterior, “Ladrão”, de dominar a parada de vídeos “em alta” no YouTube: no top 5 das músicas novas em alta no Brasil, três faixas do disco novo do Djonga: “O cara de óculos”, “Gelo” e “Deus dará”.
Leia a entrevista abaixo:
G1 – Seu jeito de cantar está mais melódico e com partes rasgadas. De onde veio essa mudança?
Djonga – É, o vocal está mais melódico mesmo. O funk é minha maior influência na música. Essa melodia que eu puxo é ligada ao funk das antigas, proibidão, de bandido mesmo.
E com o nascimento da Iolanda [segunda filha dele] eu quis colocar mais melodia no disco. As crianças deixam a gente mais melódico, acho. A opção por deixar o vocal mais rasgado mesmo é para isso. Para não tirar a parte sentimental. Para dar para ouvir o que está lá no fundo da voz.
G1 – E teve algum método para chegar a este vocal? Como foi a gravação?
Djonga – Gosto de gravar com a luz apagada, às vezes tomar uma parada e estar descalço no estúdio sempre, para pegar a energia do lugar. Foi em um estúdio em Nova Lima (MG), bem afastado. Quase roça. Fiquei lá uma semana. E levei Iolanda, Jorge [dois filhos dele] Malu [esposa]. Também meu pai e os amigos.
G1 – Por falar em amigos, o disco tem trechos de áudios de WhatsApp de um amigo seu. Quem é?
Djonga – Marcola, um “brother” nosso, um dos caras mais engraçados do bairro. Ele era o único dos moleques que nunca tinha ido ao meu show. Quando foi no ano passado, ficou doido.
É louco poder rir também em meio a isso tudo. Não dá para a gente ficar só com sofrimento. E é uma risada que não vem como deboche, é muito sincera.
G1 – É forte na sua música essa parte de ‘poder rir em meio a tudo isso’, de misturar ironia e piadas no meio de um discurso social muito forte. Por quê?
Djonga – Todo mundo gosta de rir, do mesmo jeito que gosta de saber das coisas. Então é uma forma minha de fazer o povo ficar sabendo das coisas sem ser chato, sem perder o swing. Tem que ter estilo. Senão não é arte, é panfleto. E panfleto deixa para outro entregar.
Capa do álbum ‘Histórias da minha área!’, de Djonga
Daniel Assis
G1 – O disco é sobre ‘histórias de sua área’, e sei que sua região em BH tem um contraste grande entre as partes ricas e pobres. Quando você percebeu essa desigualdade pela primeira vez?
Djonga – Eu sou da Zona Leste de BH, do bairro Novo São Lucas. A Zona Leste inteira é mesmo assim. Você vê um casão de um lado e uma casinha do outro.
Mas quem é preto percebe isso até antes de notar o lance da desigualdade social. A gente percebe de cara na escolinha quando é pequeno, pelo jeito que você é tratado pelos seus coleguinhas. Você já cresce carregando isso.
G1 – E como foi gravar “Mania” com o MC Don Juan [do funk “Amar amei”]?
Djonga – Eu amo funk. E como vou contar a “história da minha área” sem colocar o funk no disco? É o tipo de música mais ouvido pela rapaziada da minha área – e de todas as áreas do Brasil. Eu já tinha falado do Don Juan no outro disco, então fez sentido trazer para esse.
G1 – Você ia cantar pela primeira vez em abril no festival Lollapalooza, adiado por causa do coronavírus, além de todos os shows do lançamento. Há vários músicos nessa situação. Como os fãs podem ajudar?
Djonga – Ouvir o disco é uma coisa que ajuda. A gente ganha também na internet. E continuar acompanhando, passar para a frente. Não é só eu, o mundo inteiro está passando por isso. Então é esperar. Eu tenho muita fé e certeza que vai passar.
A gente tinha muito show marcado, agora a gente tem que esperar para ver como vai ser. A gente lança o trampo pra cantar. Estou ansioso para cantar.
G1 – O Lollapalooza já anunciou os mesmos headliners para dezembro. Eles já falaram com os outros artistas? Você sabe se vai cantar?
Djonga – Não sei se a gente tá ou não. Até onde eu saiba, segue tudo normal. Mas, sinceramente, não sei.